Theo
Eu ia viajar a trabalho naquela tarde, mas a reunião foi adiada para segunda-feira. O compromisso desapareceu da agenda, porém o peso dentro de mim continuou ali, firme, insistente. Saí da empresa direto para a casa dos meus pais. Precisava de um pouco de chão, de alguma coisa que me lembrasse quem eu era antes de tudo virar um caos.
Assim que entrei, ouvi risadas vindas da área externa. Minha mãe apareceu na sala com aquele sorriso que sempre anuncia novidade.
Disse que Enrico estava na piscina com alguns amigos.
Na mesma hora, pensei nela.
Ana Lis.
Perguntei, tentando parecer casual, quem eram os convidados. Minha mãe respondeu animada que um era o Noah, os outros duas moças lindas e um rapaz. Depois completou, quase cantarolando, que havia uma menina apaixonante, Ana Lis.
Meu coração deu um salto tão brusco que precisei inspirar fundo para não demonstrar. Minha mãe percebeu algo, tenho certeza. Antes que eu pudesse impedir, ela saiu chamando por Enrico.
Ele veio poucos minutos depois. O olhar dele estava sério, diferente da leveza que sempre carrega. Me encarou diante dos nossos pais e disse que Ana estava ali e que eu não estragasse tudo.
Assenti.
Meus pais não entenderam nada, mas também não perguntaram de imediato. Meu pai apenas me observou com aquele olhar firme que enxerga além das palavras. Depois perguntou, direto, se era ela.
Respondi que sim.
O silêncio que se formou foi pesado. Minha mãe me analisou como se estivesse juntando peças invisíveis. Eu respirei fundo e disse que não a machucaria. Que a amava.
A palavra saiu antes que eu pudesse segurá-la.
Eu a amo.
Meus pais me olharam com espanto, como se nunca tivessem ouvido aquilo de mim. Talvez nunca tivessem mesmo. Eu sempre fui racional demais, calculista demais. Amor não fazia parte da minha equação.
Completei dizendo que ela me odiava. Que eu tinha estragado tudo.
Subi para o meu quarto com o peito apertado. Da janela lateral, dava para ver parte da área da piscina. E lá estava ela. Rindo. Se divertindo. Nas costas do Noah, jogando água nos outros, livre, leve.
Aquela cena deveria me trazer paz, mas trouxe um gosto amargo. Um ciúme irracional começou a queimar por dentro. Não era justo. Eu sabia que não era. Ela tinha todo o direito de rir, de viver, de estar ali sem pensar em mim.
Mesmo assim, ver as mãos dele segurando suas pernas, ouvir a risada dela ecoando pelo jardim, mexeu comigo de um jeito que eu não consegui controlar.
Quando a vi sair da água e seguir em direção ao banheiro, desci apressado. Meu coração batia forte demais para alguém que sempre se orgulhou do próprio autocontrole.
Esperei no corredor lateral, escondido pela sombra da parede. Assim que ela saiu, segurei seu pulso e a puxei para um dos cômodos vazios.
Ela se assustou, os olhos arregalados encontrando os meus.
Eu precisava falar. Precisava consertar alguma coisa, qualquer coisa.
Disse que tínhamos que conversar.
Ela respondeu firme que não tínhamos.
Havia uma frieza na voz dela que me atingiu como um soco. Tentei manter a calma. Pedi que me desbloqueasse. Eu sabia que era ridículo começar por aquilo, mas precisava de algum acesso a ela, qualquer fresta.
Ela se manteve irredutível.
No impulso, peguei o celular de suas mãos. Não era certo, eu sei. Mas naquele momento eu já não estava sendo racional. A tela acendeu, e a primeira coisa que vi foi uma notificação com o nome Luan.
O sangue ferveu.
Perguntei o que ele queria. Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.
Ela respondeu que não era da minha conta.
E aquilo foi a faísca.
A imagem dela rindo com Noah, o nome de Luan brilhando na tela, o bloqueio, o tapa invisível do desprezo… tudo se misturou. Antes que eu pudesse pensar, segurei seu rosto e a beijei.
Foi um beijo carregado de urgência, de medo de perdê-la, de raiva de mim mesmo. No primeiro segundo, ela não resistiu. Senti seu corpo hesitar, senti a respiração falhar junto à minha.
Mas então ela se afastou.
O estalo ecoou no quarto silencioso.
O tapa ardendo no meu rosto foi menos dolorido do que o olhar dela. Um olhar ferido, decepcionado, indignado.
Ela saiu sem dizer mais nada.
Fiquei parado, sozinho, encarando a porta fechada, perguntando a mim mesmo o que tinha feito. Eu queria consertar, mas só piorava. Sempre piorava.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o calor da marca que ela deixara. Talvez eu merecesse.
Quando voltei para a área da piscina, ninguém pareceu notar nada. Risadas, música, o sol refletindo na água. Um cenário perfeito para esconder uma guerra silenciosa.
Observei Ana Lis de longe. Ela evitava olhar na minha direção, mas sua postura estava mais rígida. Eu a tinha abalado. E isso não me trouxe satisfação alguma, apenas um vazio maior.
Foi ali que a parte mais fria de mim voltou a respirar.
Lembrei da empresa. Lembrei de Bento tentando fechar negócio. Lembrei do poder que eu tinha nos bastidores. Uma ideia perigosa começou a tomar forma.
Se eu dificultasse as coisas para ele, se criasse obstáculos suficientes, alguém teria que intervir. E Ana Lis faria qualquer coisa pelos irmãos. Eu sabia disso.
A ideia do contrato voltou à minha mente.
Eu poderia usar aquilo.
Poderia forçá-la a vir até mim.
A me pedir ajuda.
A assinar.
O pensamento era sombrio, calculado, quase c***l. E ainda assim, parte de mim se agarrou a ele como a única solução possível.
Olhei para ela mais uma vez.
Eu precisava dela. Não por um ano. Não por um contrato. Mas por toda a vida.
O problema é que, quanto mais eu tentava segurá-la, mais ela escorria pelos meus dedos.
E mesmo sabendo que estava prestes a cruzar uma linha perigosa, eu já tinha tomado minha decisão.
Se o amor não a trouxesse até mim, então o destino, manipulado pelas minhas próprias mãos, traria.
Mesmo que, no começo, ela me odiasse ainda mais.