Cecília
Acordei hoje sem ânimo algum. Tô jogada no sofá de casa com uma preguiça de matar, só vendo série.
— Iaê, Cecilião! Levanta e se arruma aí — falou a Moura entrando pela porta.
— Pra quê?
— Hoje é sábado, aniversário do Palhaço, né minha filha?
— Humm...
— Nem vem com papo de que não vai! Você fez mó corre pra ajudar a organizar e no final não vai aparecer?
— Você sabe que nós dois não estamos no nosso melhor momento...
— Vocês são duas crianças, papo reto! Sem contar que a mãe vai ficar boladona se tu não aparecer.
— Qualquer coisa mais tarde eu dou uma passadinha lá, mas não tô confirmando nada não.
— Cê que sabe — disse, me dando um beijo na bochecha, e logo saiu.
O aniversário do Palhaço ia começar ao meio-dia. Ia ter churrasco com todo tipo de bebida e, no final, rolaria um bolinho pra cantar parabéns.
— Filha, tô saindo com as amigas. Quando for pro churrasco na casa do Palhaço, manda os parabéns pra ele.
— Beleza, mãe.
Depois que ela saiu, eu ainda fiquei um bom tempo assistindo filmes de romance clichê, até que do nada me deu um pico de energia. Eu que não vou ficar sozinha em casa.
Levantei do sofá e fui tomar um banho. Lavei meu cabelo, fiz uma hidratação, saí do banho e peguei um conjuntinho de saia e cropped. Passei meus cremes, perfume e saí de casa.
Fui subindo e vi aquela loira me olhando com cara feia. Essa mina não tem casa não, é? Só vive bandejando aqui pelo morro.
Fui chegando na porta da casa do Palhaço e já vi que estava lotado. Tinha alguns vapores na porta junto com umas monas. Cumprimentei geral e fui entrando.
— Céci, minha linda! Pensei que você não ia vim — disse alguém vindo me abraçar.
— Eu nem ia vim mesmo não, tia.
— Se for por causa do lance com o Palhaço, é bom vocês se resolverem logo. Não aguento mais ver ele choramingando pelos cantos.
— Vou dar o meu máximo.
— Vai lá pra área que tá todo mundo por lá.
Fui entrando e aquilo tava igual um formigueiro; se eu não conhecesse a casa, me perderia facilmente. Cheguei na área externa e vi altos traficantes de morros aliados. Bati o olho no Palhaço que tava com uns amigos, mas nem dei bola e fui pra perto do Moura.
— Fala aí, Moura.
— Eai, minha cria! — falou me dando um beijo na bochecha. — Até que enfim apareceu.
— Tenho que resolver umas paradas aí, né.
— Ah, mas tem mesmo! Senta aí que hoje eu tô de bom humor e vou fazer um prato de comida pra tu.
— Eu já ia mandar tu ir mesmo.
— Se liga, Cecilião... eu em?
Não demorou muito e o Moura chegou com meu prato. Fiquei na minha, comendo e observando o pessoal dançar, até que um carinha sentou na cadeira a minha frente.
— Iai, Cecília... quanto tempo em...
— Nem faz tanto tempo assim, cobra.
— Como não? Quase um ano já! — falou e eu ri da cara dele.
Cobra é um vapor de um morro aliado. Nós dois já tivemos um caso sem compromisso, mas o cara começou a achar que mandava em mim e eu coloquei logo ele pra correr.
— Sentiu tanta falta que contou os dias, foi?
— Teu ego tá alto em, Cecília.
— Sempre foi.
— Diz aí... tá rolando alguma parada com tu e o Palhaço?
— Não, tá doido é?
— Porque ele tá me olhando feito um psicopata ali.
Olhei pra trás e vi o Palhaço me encarando com uma cara mó feia, mas nem dei trela. Tô fazendo nada de errado, pô.
— Tô vendo nada de mais — falei bebendo minha coca.
— Tá é cega então... vou ali pegar uma bebida e já volto.
Aproveitei que ele saiu e me levantei pra ir no banheiro. Fiz meu xixi rapidinho e subi em direção à laje. Papo reto: a laje da casa do Palhaço tem uma visão de todo o morro, a coisa mais linda de se ver.
— Essa área aqui é privada, viu, dona? — Olhei pra trás e vi ele vindo em minha direção.
— É? Sabia não — falei, voltando a olhar para frente.
— Eai... pensou no meu pedido?
— Pensei não.
— Qual foi, Cecília? Quase não dormi direito pensando nisso!
— Na hora de falar o que não sabe, você não pensou direito, né?
— Eu já te pedi desculpa, Céci...
— Eu nem me importaria tanto se tivesse ouvido isso da boca de outra pessoa, mas a questão foi que você falou aquilo como se realmente não me conhecesse.
— Vacilei em falar isso. Realmente eu te conheço e sei que você não é do tipo que sai com um cara e no mesmo dia tá sentando pra ele. E também sei que você não colocaria a vida de ninguém aqui desse morro em risco.
— Pelo menos você reconheceu o seu erro e veio me pedir desculpa.
— Então... tô desculpado?
— Tá... dessa vez passa.
— Ai sim, minha neguinha! — falou me abraçando.
— Agora vamos voltar lá pra baixo porque eu tô sentindo o cheiro de carne assada daqui — falei rindo.
— Muito esfomeado essa garota...