Cecília
Dois dias depois...
Hoje é meu retorno na faculdade após ficar alguns dias de folga.
Acordei cinco da manhã, tomei meu banho, coloquei uma calça jeans, a blusa do curso que eu faço e um tênis. Antes de sair de casa, comi um pão com café e logo fui descendo o morro para eu não me atrasar.
O clima já melhorou após a invasão de sexta-feira. O Palhaço deixou dois carros do IML subir no morro para pegarem os corpos dos policiais, porém os dois carros estavam sendo escoltados pelos de frente aqui do morro.
Cheguei na entrada do morro e tinha uns vapores de plantão, mas eu ignorei e fui indo em direção ao ponto de ônibus. A faculdade fornece um ônibus para levar os estudantes que moram um pouco mais longe. Assim que cheguei no ponto, o ônibus já vinha virando a esquina.
Cheguei na sala de aula e já tinha um professor sentado em sua mesa. Ele passou uma atividade sobre as etapas da advocacia, e assim foi o resto da minha manhã na faculdade.
-- Ei, Cecília!
Escutei alguém me chamar enquanto eu arrumava o meu material para ir embora.
-- Oi?
-- Quer carona?
-- Obrigada, mas não precisa. Não é bom ficar subindo assim no morro sem necessidade por conta da invasão que rolou.
-- Mas já tem dois dias da invasão, não é?
-- Sim, mas mesmo assim é bom evitar que pessoas que não são moradores subam sem necessidade.
-- Ata, então... até amanhã.
-- Até.
Esse aí era o Hugo. É um menino que sempre fica na minha cola, ele é típico aqueles garotos que as meninas querem pegar... Vocês podem pensar que é só uma carona e que não seria nada de mais, mas o Hugo é filho de policial e levar um filho de PM pro morro é pedir pra ele morrer e eu levar um esporro daqueles.
Fui saindo da faculdade e escutei uma buzina. Olhei para o outro lado da rua e vi o Palhaço. Atravessei e fui até ele.
-- Tá fazendo o que aqui, maluco?
-- Vim te buscar.
-- Tem medo de ser pego não é?
-- Pra me pegarem, eles primeiro tem que saber quem eu sou - falou com deboche.
Subi na moto e ele guiou pro morro. Depois de alguns minutos chegamos na minha casa e me despedi dele. Entrei, tomei um banho e almocei na correria porque eu tenho uma unha pra fazer agora 13:30 da tarde.
Coloquei uma roupa confortável e fresquinha e fui descendo o morro numa coragem que vou te dizer, viu?
Vi aquela mona do asfalto sentada na praça e ela ficou me encarando de mais. Deve ter me achado linda, né?
Abri o estúdio e resolvi dar aquela limpadinha só para tirar a poeira das coisas. Assim que terminei a limpeza, a primeira cliente chegou. Fiz a manutenção nas unhas dela e assim que terminei, a Tia Ana chegou para fazer a manutenção dela.
-- Céci, meu amor, eu quero uma esmaltassão vermelha.
-- A senhora que manda, tia.
Comecei a passar os produtos na unha dela.
-- E a faculdade, minha princesa, como é que tá?
-- Tá indo bem, voltei a ter aula hoje.
-- Tô pensando em fazer um churrasco semana que vem no aniversário do Palhaço.
-- Eu apoio, viu tia?
Ela concordou rindo, ficamos jogando conversa fora até eu terminar a manutenção. Hoje eu só tinha essas duas unhas, então assim que terminei subi pro meu cafofo.
Não tinha nada de importante da faculdade para fazer, então fiz uma pipoca e chamei minha mãe pra ficar assistindo série comigo. Estava sentindo falta desses momentos com ela por conta do trabalho.