Palhaço
Descobri que a invasão surpresa que teve aqui foi por motivos dos de lá de baixo quererem descobrir quem é o sub daqui do morro, porque eles pegando o sub seria mais fácil chegar ao dono.
Eles cavaram a própria cova subindo aqui, nós só fizemos empurrar eles pra cair dentro.
As notícias sobre a invasão não paravam... Dentro de um desses mortos foi o chefe de missão da BOPE, aí tá aquele maior drama de prestar homenagem e os caralhos. Passou a mulher dele dando entrevista falando que "ele tinha família e mataram ele na covardia". Engraçado que foram eles que subiram aqui querendo guerra. A mídia só procura saber o lado dos "bonzinhos". Teve homens meus que morreram e também tinham família, mas eles não tiveram compaixão, então porque eu e os meus temos que ter?
-- A mina lá chegou, Palhaço.
Eu tô andando muito estressado, então chamei aquela loira pra dar um trato... Tá ligado que opção é o que não falta, mas a maioria das mina daqui da quebrada já estão todas manjadas e eu precisava de alguém de fora.
-- Sabia que você não ia demorar muito pra ceder - a loira falou entrando na salinha.
-- Se ilude não, mina. É só uma ficada sem compromisso - falei enquanto puxava ela pra sentar no meu colo.
(....)
Tava de boa na mesinha, embalando os pacotinhos de pó encomendados até que a porta é aberta.
-- Falta de educação entrar sem bater - falei encarando a maluca que entrou igual um furacão.
-- Se toca, Palhaço, tu é p*u mandado meu.
-- Ata, viu Cecília? Bonito tu entrar e eu tá peladão com alguma n**a.
-- Relaxa, eu vim mais cedo, só que me falaram que você estava acompanhado, aí eu voltei.
-- Quem te falou essa fita?
-- Não importa quem me falou, o que importa é que eu tô precisando da sua ajuda...
-- Lá vem, solta a voz.
-- Libera o salão de festa pra tua amiga aqui.
-- Pra quê tu quer o salão?
-- Pra festinha de 1 ano da sobrinha da Nara.
-- Hummm... pra que dia?
-- Domingo.
-- Beleza, aí tu vem pegar a chave.
-- A mãe da menina disse que se tu quiser ir pode ir.
-- Me sinto honrado por tal convite - falei ironicamente.
Ela saiu em direção da porta me dando língua.
Quem dá língua pede beijo.
-- Vai se fuder, Palhaço - ela falou me fazendo rir.
Terminei meus corres e fui pra minha goma. Tomei aquele banho e depois subi pra laje, bolei aquele fininho enquanto observava o movimento de final de tarde.
-- Eai meu mano - Moura falou sentando ao meu lado.
-- Qual é a novidade?
-- A novidade que hoje a Céci tem um encontro.
Assim que ele terminou de falar eu me engasguei com a fumaça do beck.
-- Com quem? - falei encarando ele de volta.
-- Um carinha da faculdade que sempre tá no pé dela, aí ela resolveu dar uma chance.
-- E como você sabe?
-- Ela me falou, pô.
-- E porquê ela não contou pra mim?
-- Talvez porque você estivesse ocupado demais fudendo a loira.
Ele tem um ponto.
Ela é adulta, sabe o que está fazendo.
-- Realmente, mas você tá perdendo as chances que tem...
-- Começa não em, Moura. Já te falei que eu e a Céci nunca ia dar certo.
-- Motivos?
-- Vou te falar o principal de todos: eu ser bandido - falei voltando a encarar o horizonte.
-- Aah, Palhaço, não fode! Se ela se importasse com o que você faz nem sua amiga ela era. Você se paga de sonso, só pode meu parceiro.
-- Tá perdendo o medo do perigo mesmo.
-- E você perdendo a pouca inteligência que você tem.
Levantei pra dar um c****e nele, mas o filho da mãe desceu as escadas correndo e se escondeu atrás da minha mãe.
-- Que palhaçada é essa mesmo em?
-- Ele que quer me agredir porque falei umas verdades na cara dele - Moura falou rindo.
-- Sobre o quê? - Mãe perguntou encarando o Moura.
-- Sobre ele ser tão burro ao ponto de não tentar algo com a Céci.
-- Nesse ponto ele é burro mesmo - falou voltando a mexer nas panelas.
-- Que isso, complô contra a minha pessoa?
-- Meu filho, sobre esse assunto não tem o que reclamar. Eu sempre gostei da Céci, mas você insiste em ficar com essas relíquias do morro.
E lá vem mais uma vez a véia batendo na mesma tecla.
Resolvi descer pra comprar uns lanches, e vi a Cecília toda bonitona descendo o morro. Não vou mentir que fiquei um pouco incomodado em ver ela toda arrumada assim pra outro homem.
-- Ei, Céci! - gritei indo até ela.
-- Tá fazendo o que aqui?
-- Vim pegar um lanche. E você vai pra onde que tá toda arrumada assim?
-- Tô indo sair com um amigo da faculdade.
-- Hmm... bom encontro pra você.
-- Valeu.
E se o Moura estiver certo? p***a c*****o meu, a Cecília é minha cria desde menor.