Tive que usar o jatinho da empresa até Guanambi. Depois, peguei um táxi até Juvenilia, cheguei na cidade quase sete da noite. Não tinha mais trem para Almada na plataforma, o último já havia saído uma hora antes de eu chegar, também não tinha mais nenhuma loja e automóveis de aluguel aberta. Então, peguei um quarto na pousada para aguardar até o dia seguinte. O primeiro trem para Almada era às seis da manhã. Aproveitei minha estadia para dar um passeio pela cidade, era um dia da semana, uma quinta-feira muito calorenta. Parei em um barzinho bem apresentável, sentei-me em uma das mesas que estava bem ali na calçada, lá dentro tocava jazz, música ao vivo. O garçom veio prontamente me atender educadamente.
Pedi um The Macallan Double Cask, um dos uísques escoceses favoritos. Enquanto esperava pela minha bebida, olhei em volta, até que o barzinho estava cheio. Aparentemente um barzinho muito frequentado pelos jovens da classe média que gostam de boa música e um bom bate papo.
— Sua bebida, senhor.
O jovem garçom deixou o copo sobre a mesa.
— Obrigado.
— Algo mais?
— Por enquanto só.
— É só chamar, me chamo Adriano.
Acenei com a cabeça confirmando, logo ele saiu.
Quando minha mãe me fez esse pedido inusitado, eu hesitei muito em viajar. Afinal, eu tinha uma empresa importante para administrar. Ainda mais tendo como sócio um homem que eu não confiava e que esperava o momento propício para me dar uma rasteira. Mas não sou bobo. Antes de viajar, reunir todos os funcionários e anunciei que Rodrigues seria meu representante na empresa, que nada podia ser assinado sem passar por ele, assim ele me passaria todas as informações. E Jorge, claro, questionou minha escolha. Mas não me abalou nem um pouco. Eu confiava mais em Rodrigues do que nele, na verdade, eu não confiava nele em hipótese alguma.
Mas mamãe estava muito preocupada. Nunca pensei que ela se importasse tanto com o que poderia acontecer com aquela fazenda. Dei mais gole na bebida e me recordei de papai.
Os momentos maravilhosos e felizes que passei naquele lugar... Ao contrário do meu avô Paolo que nasceu pobre e ficou rico...
Meu avô paterno Sérgio Mendes nasceu rico, a família Mendes vem da riqueza há anos. É uma das famílias fundadores do vilarejo de Almada, que fica na cidade de Juvenilia, bem no interior de Minas. A fazenda Almada é uma das grandes fazendas com a maior extensão de plantação de café. A única que exportava café, pois meu avô tinha contatos internacionais. Foi assim que ele decidiu abrir uma transportadora do vilarejo. Ele vendia o café para as empresas internacionais e ainda transportava as entregas. Os fazendeiros das redondezas passaram a contratar sua empresa para fazer as entregas para outras cidades. Pois estavam pagando muito caro para empresas terceirizadas. Vovô ganhou muito mais dinheiro com isso.
Ele era o orgulho do seu filho, meu pai, Daniel Mendes, nasceu nessas terras numa noite fria e chuvosa. Nasceu um mês antes do previsto, após sua mãe sofrer uma queda ao tomar banho. O hospital mais próximo que havia ficava em Juvenilia, há mais de trinta quilômetros do vilarejo. Sua mãe deu à luz ali mesmo, no chão do banheiro, com ajuda do pai e de uma funcionária da casa. Minutos depois de dar à luz, ela veio a falecer a caminho do hospital, por conta da hemorragia.
Vovô ficou desolado, por um tempo, não queria dar muita atenção ao menino. Mas foi só por uns meses, logo começou a se aproximar do filho, a brincar com ele, a cuidar dele, como havia prometido para esposa segundos antes de fechar os olhos para sempre em seus braços.
A dor de ter perdido sua esposa por não ter um hospital por perto, fez com que tivesse a ideia de construir um posto de saúde, porém, todos que chegassem em estado graves, eram atendidos em Almada, não só ele perdeu a mulher por falta de um, mas muitos perderam pessoas que amavam. Com um tempo, meu pai fez um acordo com a prefeitura de Almada e hoje funciona como o hospital municipal de Almada Sérgio Mendes. construído há mais de cinquenta anos.
Mesmo tendo o nome do meu avô, não pertence mais a família Mendes e sim da prefeitura. Meus pais se conheceram em frente ao hospital, minha mãe era voluntária e foi para o hospital de Almada. Ela havia completado seu horário e estava em frente a saída aguardando seu noivo que estava a caminho para buscá-la. Quando o avistou estacionado do outro lado da rua, ela atravessou sem olhar para os lados, levou um susto tão grande quando viu o cavalo com as patas dianteiras levantadas, quase indo para cima dela. Meu pai se apaixonou de primeira, pela morena de cabelos negros e ela também se encantou com o cavaleiro com chapéu de vaqueiro e botas de couro, montado no seu garanhão.
Se encontraram duas vezes depois daquele quase acidente, ela terminou com o noivo e um tempo depois, aceitou o pedido de namoro do meu pai que não perdeu tempo, se casaram em dois meses e, um ano depois, eu nasci...
Ele torcia muito por mim, embora gostaria mesmo que eu voltasse para a fazenda e tocar junto com ele os negócios, mas não se opôs a minha decisão de ser engenheiro, ele sentia orgulho de mim, eu tinha vinte anos quando ele sofreu um infarto fulminante, se foi com apenas cinquenta dois anos, a vida é tão injusta as vezes...
— Com licença.
Uma voz feminina e delicada me despertou, voltei a realidade. Subi meu olhar e vi a figura deslumbrante a minha frente. Sorria para mim. Então percebi que ela falava comigo.
— Pois não, senhorita.
Respondi educado.
— Desde quando o senhor chegou eu venho o observando. É Pedro Giordano, certo?
Geralmente sempre percebo olhares femininos o tempo todo sobre mim por onde passo, mas essa eu não havia percebido. Talvez fosse o lugar, voltar ali me deixou desnorteado e com muitas lembranças.
— Pode dizer quem está interessado em saber?
Fui sutil sem querer ser grosseiro, a bela dama estava sendo muito simpática, mas também não saio me identificando assim.
— Perdão. Não quero te assustar. Eu sou Ângela Miranda. Sou editora chefe da revista Grandes Negócios de Juvenilia. A gente trabalha com novos empreendedores, porém, a gente faz edições especiais com grandes empresários.
Imaginei onde ela queria chegar. Não. Eu não queria fazer parte daquilo. Nunca gostei de matérias de revistas, jornais, entrevistas. — Estou lhe reconhecendo. Li uma matéria sua com seu avô no jornal de Belo Horizonte.
— A matéria foi com meu avô, eu só apareci na foto.
— Sim, claro. Mas, não gostaria de...
— Senhorita, não quero ser grosso, mas minha resposta é não.
Ela arregalou os olhos surpresa, não esperava pela aquela resposta.
— Não quer ouvir minha proposta?
— Ouvir sua proposta estarei lhe dando o benefício da dúvida, e vou te deixar esperançosa. Estou lhe dando minha resposta. É não.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— e******o?
Soltei um riso delicado e modesto. Ora pois, não estava sendo e******o. Eu só queria tomar meu uísque e relaxar depois de uma longa viagem.
— Nem sempre. Só quando estou sendo importunado.
Ela ergueu uma das sobrancelhas.
— Desculpas pelo o importuno.
Apenas assentir com a cabeça num gesto positivo.
Acenei para o garçom que prontamente veio ao meu pedido. — Fecha para mim, por favor.
— Nossa, muito indelicado de sua parte. Por isso que ainda está solteiro.
Coitada. Eu estava solteiro porque queria estar. Fato. Mulheres loucas a fim de casar comigo tinham muitas...
Ela empinou seu belo nariz e se virou jogando seus longos cabelos ao vento. O perfume delicado e adocicado pairou ao vento. Eu não sou indelicado com as mulheres. Mas nesse caso, prefiro cortar logo. Me levantei educadamente enquanto eu observava seu belo corpo esculpido se distanciando da minha mesa.
Respirei fundo. Tinha problemas maiores. Talvez eu devesse dar uma chance só por ser tão espontânea e animada. Mas eu não gosto de desconhecidos querendo saber da minha vida. Não dou entrevista. não tiro fotos para catálogos, jornais, revistas, sou muito reservado. Só fiz isso uma vez, alguns anos atrás, foi quando meu avô fez questão de anunciar ao mundo o novo presidente da Gior 's. Tirei fotos e dei uma entrevista, e só...
***
O dia m*l amanheceu e eu já estava embarcando no trem com o destino a Almada. Fiquei olhando a paisagem do campo pela janela. O sol brilhava forte naquela manhã. Um belo dia para cavalgar, sentir o vento bater no rosto. Há muito tempo eu não fazia isso. Acreditava até que tinha me esquecido de como cavalgar. A viagem não demorou muito, logo estava desembarcando na estação do vilarejo. Tudo como antes... Nada havia mudado. Mas parecia que estive fora há tanto tempo.
O táxi que eu havia pedido pelo celular antes de sair de Juvenilia já estava me esperando. Mais uns quarenta minutos e eu já estava nas terras de Almada. Terra onde nasci, cresci, vivi intensamente e feliz. Muitas histórias, lembranças boas... ***
Entrei em casa e o cheiro de madeira queimando na lareira me fez recordar. A visão do meu pai sentado na sua cadeira de balanço se aquecendo do frio fez meus olhos lacrimejar. A cadeira estava no mesmo lugar, perto da lareira, vazia e empoeirada. Respirei fundo para não deixar a lagrima rolar.
— Pedro?
Olhei em direção a escada e vi minha meia-irmã totalmente surpresa em me ver ali. Ela desceu as escadas e parou um pouco distante.
— O que está fazendo aqui?
Ela estava mais crescida, mas o rostinho de menininha continuava o mesmo. Rosto fino e delicado.
— Oi, Alice. Como vai?
— Estou bem. Você nunca mais apareceu desde quando papai morreu.
Eu não soube o que responder. Ela me olhava um tanto surpresa e um tanto desapontada.
— Não vai me dar um abraço, tampinha?
Ela hesitou por uns segundos. Mas logo veio ao meu encontro para um longo e saudoso abraço.
— Senti sua falta. Me abandonou...
— Ah, tampinha. Não foi bem assim...
— Ah não? Não veio mais me ver. Você só vinha aqui por causa do papai.
— Não vou pedi que me entenda. Mas foi difícil para mim voltar aqui. Está sendo difícil...
— Imagina para mim, Pedro. Sem meu pai, sem meu irmão...
— Desculpas, tampinha. Eu devia ao menos ligar para saber de você.
— Pedro?
A voz suave e cansada de Luíza me chamou atenção. Olhei para ela, tão surpresa. Não estava esperando por minha chegada.
— Oi, Luíza.
Deixei o abraço de Alice e fui cumprimentar Luíza. Ela me abraçou esperançosa, não sabia que eu apareceria, mas sabia que eu estava ali para ajudá-la.