Depois de uma breve conversa com Luíza, eu subi para meu antigo quarto para deixar minhas coisas, eu teria uma longa e cansativa conversa com Luíza. Uma música bem animada vinha do segundo andar da casa. Ao dobrar o corredor me deparei com uma situação constrangedora. A porta de um dos quartos estava aberta, olhei para dentro do quarto no automático, se eu soubesse que o que eu iria ver, certamente teria passado direto sem olhar. A figura feminina diante dos meus olhos me fez parar hipnotizado. Ela havia saído do banho, a toalha que estava enrolada em seu corpo escorregou a descobrindo por completo, ainda não havia percebido minha presença. Eu sabia que tinha que sair dali imediatamente, mas não conseguia me mover. Corpo perfeito, s***s fartos e redondinhos, cintura fina, coxas torneadas e a b***a redonda perfeita. Fiquei encantado, mas em questão de segundos, quando ela tirou a toalha que estava enrolada na cabeça, ela me viu.
Arregalou os olhos surpresa, mas não corou, muito menos mostrou estar envergonhada. Me olhava séria erguendo uma das sobrancelhas, nada disse, apenas fez um gesto com as mãos como se estivesse me perguntando o que eu havia perdido ali... Eu também não disse nada, ela é quem deveria fechar a porta do quarto. Onde se viu, ficar nua com a porta do quarto totalmente aberta. s*******o. Dei um passo para frente e saí dali sem dizer uma palavra...
Gabriela... Como estava diferente desde a última vez que eu a vi. Como se tornou uma mulher bem formada e corpulenta. Era magra e sem forma. Eu me recordava dela, sobrinha da Luíza. O pai faleceu e Luíza ficou sendo responsável por ela, sua única parente viva. Já que sua mãe abandonou a família e ninguém mais soube nada dela até então...
Entrei no meu quarto e tudo parecia estar no lugar. Nada havia mudado. Coloquei minha mala no canto e olhei ao redor, o cheiro era de limpeza. A porta de vidro que vinha de cima a baixo estava entre aberta, caminhei até a sacada. Meu quarto era um dos que tinha a vista privilegiada para a piscina e de todo o campo gramado. Olhei o campo onde eu corria com meu cavalo trovoada que ganhei de presente do meu pai. Ele pertenceu ao meu pai, seu cavalo favorito. E me presenteou com seu melhor cavalo. Rápido e sagaz. Nenhum outro cavalo conseguia vencer trovoada nas corridas. Ele era imbatível.
— Pedro!
A voz doce e inesquecível de Rosa me despertou, olhei para trás e ela vinha em minha direção para um abraço. Rosa foi minha babá até meus oito anos, foi quando minha mãe me levou embora. Mas ela era tão querida que meu pai não a dispensou, entregou a ela o cargo de governanta da casa. Como eu amava aquela mulher...
— Rosa! — Retribuí o abraço caloroso.
— Acabei de chegar e dona Luíza me disse que estava aqui. Que surpresa, filho.
— Eu também acabei de chegar.
— Poxa, se tivesse avisado, eu teria preparado o quarto para você.
— Mas está tudo limpo, Rosa. Cheiroso.
— Mas a cama está sem lençol. Vou providenciar.
— Não se preocupe. Vou tomar um banho e desço para o café.
— Certo, filho. Que bom que veio. As coisas aqui não andam nada fáceis.
— Foi para isso que vim. Preciso saber o que se passa. Mas agora eu só preciso de um banho e de um café caprichado. Tem aquele bolo de fubá que eu amo?
— Tem sim, meu menino. Vá tomar seu banho e eu já vou preparar a mesa para o café.
— Obrigado, Rosa.
Fiquei uns minutos sentindo a água morna cair na cabeça e me veio a lembrança doía do dia em que perdi meu pai. Fazia duas semanas que eu estive com ele. A gente cavalgou por toda a fazenda, coisas que eu deixei de fazer quando virei homem, ao perder a virgindade. Mas naquela manhã o dia estava lindo, meu pai insistiu que eu fosse, e aceitei não por querer, mas para agradá-lo. Me levou para um lugar com uma paisagem exuberante, eu não sabia que existia aquele lugar até ele me mostrar. No topo de uma colina onde a gente consegue ver toda a fazenda, e a beleza do campo dos girassóis.
— Eu o teria mostrado esse lugar antes, mas você só quer saber de namorar.
— É lindo, meu pai.
— É sim. Insistir que viesse porque quero te pedir uma coisa.
— E o que é?
—Eu quero que joguem minhas cinzas aqui. Joguem no ar e deixe que o vento as leve para onde quiser. Não quero que meu corpo fique trancado numa caixa apodrecendo.
— Mas que conversa é essa?
— É a lei da vida. Os filhos enterram os pais.
Ele amava viver..., mas tinha certas limitações... Tinha problemas cardíaco e não contou a ninguém. Nem para mim, seu filho. Confesso que fiquei muito revoltado por não saber de nada do que acontecia naquela casa. Quando eu visitava meu pai, não demonstrava está doente do coração.
Até então, não estava entendendo aquela conversa, mas ele sabia que ia morrer. E duas semanas depois, recebo essa triste notícia. E fiz o que ele me pediu, joguei suas cinzas ao vento e ele as levou...
Enquanto eu relaxava no banho, Rosa havia arrumado a cama, desfez a mala e arrumou as roupas no closet. Escolhi uma camisa e uma calça de moletom, ajeitei os cabelos e desci para o café. Passei em frente ao quarto de Gabriela e a porta estava fechada. Menos mal...
Ao chegar na cozinha, Luíza e Alice já estavam à mesa. Tomei o meu lugar. Assim que me sentei, Gabi surgiu na cozinha vestida de líder de torcida. A lembrança de mais cedo me veio à cabeça. Pensamento perverso...
— Bom dia, família.
Ela cumprimentou sorridente abrindo a geladeira.
— Lembra do Pedro, Gabizinha? — Luíza perguntou.
— Como eu havia de esquecer... — Sorriu maliciosa, o que ela quis dizer com aquelas palavras...? — Como vai, Pedro? — Respondi desviando meu olhar. Não conseguia entender o porquê de eu estar tão desconfortado na presença dela. Sem graça, talvez... — Pode olhar agora, estou vestida.
— Como assim? — Luíza indagou.
— É que mais cedo eu estava saindo do banho e me deparei com ele parado na porta do meu quarto olhando.
— Você e essa mania de se trocar com a porta aberta.
— Ah, tia. Aqui só tem mulheres, não estava esperando a visita inusitada do Pedro.
Eu estava muito sem jeito com aquela situação.
— Bom, agora sabe que tem um homem por aqui, passe a fechar sua porta.
Foi o que consegui responder.
— Claro. Não vai acontecer de novo.
Ela falava na mais tranquilidade como se aquilo fosse normal. Seu celular deu um sinal e antes de finalizar sua água, se apressou. — Minha carona chegou. Fui.
— Não vai tomar café?
— Como qualquer coisa na lanchonete da escola, tia. Beijos, família. Amo vocês.
— Não gosto quando ela não se alimenta direito. — Luíza disse assim que Gabi saiu.
— Está quase acabando, mãe. É o último ano dela.
— O que há de tão importante?
— É o jogo que vai ter hoje no colégio João Batista em Juvenilia. É o nosso time contra o deles. Gabizinha é líder de torcida e tem que acompanhar o time.
— É. Suspenderam até as aulas de hoje por causa desse jogo.
— E como você está na escola, Alice?
— Estou muito bem. Notas excelentes. Eu estou indo para o segundo ano. Pedro.
— Muito bem. Continue assim.
Depois do café, propus uma conversa com Luíza. Eu a aguardava no escritório. Ao entrar naquele cômodo, meu coração apertou. Vi a imagem do meu pai sentado na sua cadeira atrás da escrivaninha, com seus óculos de grau anotando alguma coisa numa folha de papel que eu nunca soube o que era. Caminhei até a mesa de madeira antiga e olhei o porta-retrato que estava bem ali. Uma foto dele me segurando no colo ao lado da árvore de natal. Eu me recordei daquela noite, minha mãe bateu aquela foto. O nosso último natal em família...
Eu tinha oito anos, éramos a família perfeita. Não. Mais que perfeita. Meus pais estampavam a felicidade. Era uma noite de Natal, eu estava ansioso para ver o que eu tinha ganhado de presente do papai Noel...qual criança não acredita em papai Noel...? Eu era só mais uma, mas minha ansiedade mesmo era descobrir a verdade...Eu não conseguia dormir na noite anterior, foi quando ouvi passos no corredor, silenciosamente, e me levantei da cama e fui ver o que estava acontecendo. Abri a porta do quarto e vi meu pai dobrando o corredor segurando uma caixa embrulhada num papel de presente. Achei estranho, decidi segui-lo, bem escondido, vi quando deixou o presente ao pé da árvore de Natal. O mesmo presente que eu recebi no dia seguinte, um helicóptero de controle remoto. Exatamente o que eu havia pedido ao papai Noel naquele Natal.
Foi então que descobri, todos aqueles anos, era ele que me dava os presentes. Pude, enfim, me libertar dessa fantasia...
Mesmo desencantado por me sentir enganado, olhei para o meu pai enquanto estendia o presente para mim.
—O que será que o papai Noel deixou para o pequeno Pedro?
Ele sorria satisfeito. E me levantei e lhe dei um abraço tão intenso que ele não entendia o motivo. Mas eu sim. Não importava o que eu pedia para o papai Noel, ele sempre me dava.