Heloisa narrando Eu e minha filha estávamos em casa, em silêncio. Um silêncio que mais parecia grito. A televisão ligada sem som, os móveis todos no lugar, mas as nossas almas ainda tentando se encaixar de novo depois da porrada que foi tudo o que passamos. A casa estava limpa, arejada, com cheiro de café fresco. Mas o ar ainda pesava com o peso do luto, da reconstrução, do medo de que alguma coisa pudesse ruir de novo a qualquer momento. A Mariana tinha voltado a dormir com o abajur aceso. E mesmo sem dizer nada, eu sabia que ela estava assustada. E com razão. A morte do meu marido, o homem que a criou como filha, o pilar silencioso da nossa estrutura, ainda ecoava entre as paredes. Foi quando a batida na porta aconteceu. Não era violenta, mas também não era comum. Era firme. Tinha u

