Capitulo Oito ( A verdade Oculta)

1331 Palavras
Fiquei em silêncio por longos segundos, tentando processar tudo. O coração batia tão forte que parecia querer romper minhas costelas. Matteo me olhava como se enxergasse um fantasma, seus olhos azuis intensos carregavam mais perguntas do que respostas. — Não… não pode ser verdade… — minha voz falhava, presa no nó da garganta. — Se eu não sou Cecília, se eu não tenho as lembranças dela… então, quem sou eu? Matteo me olhava com olhos cheios de incerteza, mas também com um brilho estranho, como se a verdade tivesse acabado de despencar sobre ele. — Elas… — ele começou, hesitante. — Quando éramos casados, Cecília sempre dizia que se sentia incompleta, como se faltasse uma parte dela. Eu achava que era só drama… mas agora… — ele fechou os olhos, respirando fundo. — Talvez ela tivesse razão. Meu peito se apertou. Sentia como se estivesse vivendo uma vida que não me pertencia. — Você está dizendo que… que talvez eu seja… irmã dela? — perguntei, quase sem acreditar nas próprias palavras. Matteo se aproximou devagar, segurando meu rosto entre as mãos quentes. — É a única explicação. Mas isso significa que alguém mentiu. Desde o começo. Um silêncio pesado caiu entre nós. O vento do campo batia contra as janelas do chalé, como se a própria natureza sussurrasse verdades escondidas. — Se fomos separadas… — engoli em seco — quem fez isso? Meus pais? Os dela? O hospital? — Não sei — Matteo respondeu com a voz rouca — mas vamos descobrir. Amanhã, eu vou te levar até o hospital onde Cecília nasceu. Vamos procurar os registros, os médicos, qualquer pista. Meus olhos marejaram. — E se eu não gostar do que encontrar? E se… eu não for ninguém? Ele me puxou para os braços dele com força. — Você é alguém. Pode não ser Cecília… mas é real. Está aqui, comigo. Seu calor me envolveu, mas minha mente latejava. Eu não sabia se devia acreditar no conforto dele ou mergulhar de vez na busca pela verdade. Só sabia de uma coisa: Minha vida inteira era uma mentira. E amanhã, talvez eu começasse a descobrir quem realmente era. O silêncio era tão pesado que quase me esmagava. Ainda sentia o calor dos lábios de Matteo na minha pele, o peso dele sobre mim, o arrepio que corria pelo meu corpo… e agora, tudo parecia errado. Ele deu dois passos para trás, passando a mão pelos cabelos em desespero. O rosto que antes me parecia forte e seguro agora estava pálido, carregado de tormento. — Meu Deus… o que eu fiz? — sua voz saiu rouca, quebrada. — Me perdoa… me perdoa por tudo. Meu coração disparou. — Matteo… Ele me interrompeu, a voz trêmula: — Eu achei que você era ela. Achei que minha esposa tinha voltado pra mim… que tínhamos uma segunda chance. Eu quis acreditar nisso com todas as minhas forças. — seus olhos marejados se fixaram nos meus. — Mas você não é ela. E o que eu quase fiz com você… foi errado. Engoli em seco, abraçando a mim mesma, ainda com o corpo em chamas pelas lembranças recentes. Não havia como negar o que tinha sentido, mas ao mesmo tempo, não havia como ignorar que ele estava certo. — Eu também não sei quem sou, Matteo — minha voz falhou. — Eu só sei que… não consigo parar de sentir. Quando você me toca, é como se meu corpo conhecesse o seu… mas minha mente não. Ele fechou os olhos, como se minhas palavras fossem uma punição. — Eu não devia ter deixado isso acontecer. Eu estava cego pela saudade, pela dor… e acabei confundindo tudo. Deu as costas por um instante, respirando fundo, tentando se recompor. Quando voltou a me olhar, havia algo diferente: menos desejo, mais determinação. — Prometo que, a partir de agora, nada vai acontecer entre nós até sabermos a verdade. — ele disse firme. — Você merece respostas, não confusão. Minhas lágrimas caíram sem que eu pudesse controlar. Aquele homem que até minutos atrás queimava minha pele com beijos, agora parecia um estranho arrependido. — E se eu não for ninguém, Matteo? — sussurrei. Ele se aproximou, com cuidado dessa vez, apenas pousando a mão em meu ombro. — Você é alguém. E eu vou te ajudar a descobrir quem. E naquele instante, percebi que estávamos presos em algo muito maior do que desejo ou saudade. Estávamos diante de um passado enterrado… e prontos para desenterrá-lo. Subi as escadas devagar, sentindo meu corpo pesar como chumbo. Cada passo ecoava dentro de mim como se fosse uma sentença. Quando fechei a porta do quarto atrás de mim, as lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram. Me joguei na cama, abraçando o travesseiro como se ele pudesse me dar as respostas que eu não tinha. “Quem sou eu?” A pergunta se repetia em minha mente como um martelo incessante. Apertei os olhos com força, tentando vasculhar dentro da minha própria cabeça, implorando para que alguma lembrança viesse. Uma imagem. Um cheiro. Uma voz. Qualquer coisa que me dissesse de onde eu vim. Mas tudo o que encontrei foi o vazio. O quarto parecia girar, e a cada tentativa de forçar minha mente, uma dor aguda latejava em minhas têmporas. Eu gemi baixinho, sufocada pelo desespero. — Lembra… por favor, lembra… — sussurrei para mim mesma, como se pudesse me convencer. Respirei fundo, fechando os olhos novamente. Então, flashes desconexos começaram a surgir: O som de vidro quebrando. Um cheiro forte de gasolina. Uma risada infantil ecoando ao longe. Meu coração disparou. Mas assim como vieram, as imagens desapareceram. — Não… não vai embora… — implorei, pressionando a cabeça contra o travesseiro. — Eu preciso lembrar. Mas a escuridão voltou, fria e indiferente. Virei de lado, abraçando meus joelhos contra o peito, e chorei em silêncio até o sono me vencer. Naquele instante, percebi o quanto era doloroso não ser ninguém. Não ter passado. Não ter nome. Apenas uma sombra no lugar de uma vida. E, no fundo, uma certeza me queimava: a verdade existia. E, quando viesse à tona, poderia mudar tudo para sempre. *** MATHEO*** A noite estava silenciosa, mas dentro de mim era um caos. Abri devagar a porta do quarto dela, apenas o suficiente para espiar. A luz do abajur ainda estava acesa, derramando um brilho suave sobre seu rosto. Ela dormia de lado, abraçando o travesseiro com força, como se tivesse medo que o mundo a arrancasse dali também. Por um instante, fiquei parado, apenas olhando. O peito dela subia e descia lentamente, mas ainda havia marcas de lágrimas em sua pele. Meu coração doeu. Eu devia ter ido embora. Devia ter respeitado nossos limites. Mas, em vez disso, quase a perdi para um desejo cego, quase a afastei ainda mais de mim. Passei a mão pelos cabelos, nervoso, tentando encontrar as palavras que não tive coragem de dizer em voz alta. — Me desculpa… — sussurrei, com a garganta apertada. — Por tudo. Por ter chegado tarde demais. Por não ter te protegido. Por quase ter cruzado uma linha da qual eu jamais poderia voltar. Engoli seco, sentindo um nó no estômago. A cada dia que passava, ficava mais claro: eu estava caindo. Caindo por ela de uma forma que não conseguia controlar. Mas como amar alguém que ainda nem sabia quem era? Dei dois passos para trás, lutando contra o impulso de me aproximar. O impulso de tocar seu rosto, de afastar a mecha de cabelo que caía sobre seus olhos. Me forcei a parar. — Eu vou te ajudar a lembrar quem é. — prometi em silêncio. — Nem que isso me destrua. Fechei devagar a porta, deixando-a descansar em paz, e caminhei de volta para meu quarto. Mas o sono não veio. Não depois de ver a dor dela tão escancarada. E muito menos depois de perceber que, mesmo em meio ao vazio dela… eu já estava completo demais só por tê-la perto.
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