CapítuloNove

1431 Palavras
Depois de uma noite terrível, acordei atordoada. Minha cabeça latejava, como se tivesse passado horas brigando comigo mesma em um campo de batalha que não lembrava ter entrado. Cada vez que tentava forçar a memória, era como empurrar uma porta trancada. Nada se encaixava. Nenhum rosto. Nenhuma voz. Apenas o vazio. Matteo estava encostado na janela quando abri os olhos. Ele não disse nada, mas bastou o olhar dele para eu saber que não estava sozinha. — Vamos tentar de outro jeito — ele murmurou, a voz rouca, como se tivesse passado a noite em claro. E assim fizemos. Pegamos o carro e seguimos para o hospital onde Cecília nasceu. Talvez lá houvesse alguma pista, um registro, qualquer coisa que pudesse me dizer quem eu era. O hospital parecia maior do que eu lembrava. Ou talvez eu nunca tivesse estado ali. Andar por aqueles corredores me dava uma sensação estranha, como se estivesse presa entre a realidade e um eco distante. Explicamos nossa situação para a atendente, que nos encaminhou para o setor de arquivos. O cheiro de papel velho e poeira tomou conta de mim assim que entramos. Horas. Passamos horas procurando, enquanto Matteo vasculhava caixas de prontuários amarelados. Mas era inútil. Muitos registros da época haviam se perdido em uma enchente que atingiu o arquivo anos atrás. Quando a atendente voltou, trouxe apenas um pedaço de informação: a confirmação de que Cecília havia nascido ali, mas nada além disso. — É tudo o que temos. — ela suspirou, nos olhando com pesar. — Infelizmente, muitos prontuários daquela década não existem mais. Senti um aperto no peito. Como se meu passado tivesse sido apagado de propósito. Matteo me tocou no ombro, firme. — Vamos encontrar outra forma. Balancei a cabeça, tentando engolir o nó que se formava na garganta. Os pais de Cecília já não estavam mais vivos. Os meus... eu nem sequer sabia quem eram. Era como se o destino estivesse zombando de mim, arrancando cada pista que pudesse me levar à verdade. Sem ter muito o que fazer, decidimos ir até a delegacia. Talvez lá houvesse algum registro de adoção, algum boletim de ocorrência, qualquer indício de que uma criança havia sido separada ao nascer. Durante o caminho, encostei a cabeça no vidro do carro. A cidade passava diante dos meus olhos em borrões cinzentos, e tudo o que eu conseguia pensar era em como era possível viver uma vida inteira... sem saber de onde veio. — A gente vai descobrir, eu prometo. — Matteo disse, quebrando o silêncio. A voz dele tinha uma força que eu não tinha, e naquele momento, era a única coisa que me mantinha de pé. Chegamos à delegacia no fim da manhã. O prédio antigo tinha paredes gastas pelo tempo, mas havia uma movimentação constante de policiais e pessoas entrando e saindo. Meu coração batia acelerado; cada passo até a recepção parecia mais pesado que o anterior. Quando expliquei o motivo da visita, fomos encaminhados ao delegado Samuel. Ele era um homem de meia-idade, olhar firme, mas voz calma. Algo nele transmitia confiança, como se estivesse acostumado a lidar com dores que não eram suas, mas sabia respeitá-las. — Então você acredita que pode ter sido confundida com sua irmã? — ele perguntou, depois de ouvir nossa história com atenção. Assenti, inquieta. Matteo, ao meu lado, segurava minha mão com força. — Entendo... — o delegado passou a mão pelo queixo. — Casos de troca, desaparecimento ou separação de irmãos não são tão comuns, mas também não são impossíveis. Especialmente há alguns anos, quando os controles não eram tão rigorosos. Ele fez algumas anotações, depois voltou os olhos para mim. — Vou checar os registros de pessoas desaparecidas da época. Talvez encontremos alguma criança que nunca voltou para casa. Pode demorar um pouco, mas eu vou dar prioridade. Um fio de esperança se acendeu dentro de mim. — Obrigada, delegado... — minha voz saiu quase num sussurro. Ele assentiu, mas logo completou: — Enquanto isso, meu conselho é que vocês também busquem na cidade onde ocorreu o acidente. Muitas vezes, os lugares guardam respostas que não imaginamos. Talvez alguém tenha visto algo, ou até mesmo saiba quem você é. Pode ser um começo. Olhei para Matteo, e ele não hesitou. — Nós vamos — disse, firme. O delegado Samuel se levantou, nos cumprimentou com um aperto de mão caloroso e repetiu: — Não desistam. A verdade sempre deixa rastros, por mais que tentem apagá-los. Saímos da delegacia em silêncio. O sol queimava forte, mas dentro de mim havia uma mistura de frio e calor que não sabia explicar. Era medo, esperança e ansiedade dançando juntos. No carro, Matteo quebrou o silêncio: — Então, vamos para a cidade do acidente. Pode ser o fio que precisamos puxar para desenrolar tudo. Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos. Só a ideia de voltar àquele lugar que eu m*l lembrava já me fazia tremer. Mas talvez fosse exatamente isso que faltava: encarar o ponto onde tudo começou. Às vezes, pego Matteo me olhando de um jeito que não sei explicar. Não é apenas atenção, não é só carinho. É como se os olhos dele carregassem perguntas que ele não tem coragem de fazer em voz alta. Há dor escondida ali. Saudade. Talvez medo. Medo de nunca mais rever sua amada Cecília. E, no fundo, eu sei... deve ser uma decepção terrível descobrir que eu não sou ela. Esse pensamento me sufoca. É como se eu tivesse roubado, sem querer, o lugar de alguém que nunca deveria ter saído dali. Eu sou a sombra que se deitou sobre a memória de Cecília — um corpo semelhante, um rosto parecido, mas uma história que não existe. Dou um suspiro longo, pesado, e desvio o olhar para a janela, tentando fugir daquele silêncio que grita. — Vou deixar tudo certo no trabalho — ele diz de repente, quebrando o ar pesado entre nós. Sua voz é firme, mas o cansaço nela é impossível de esconder. — Assim a gente consegue ir até a cidade onde você sofreu o acidente. Talvez lá... talvez lá a gente encontre alguma resposta. Assinto em silêncio, mas meu peito se aperta. Parte de mim quer agarrar essa esperança como quem segura uma corda no meio do mar revolto. Outra parte teme o que vamos encontrar. E se não houver respostas? E se a verdade for ainda mais c***l do que o vazio? Olho para Matteo. Ele está sério, as mãos cruzadas diante do corpo, como se precisasse se manter firme por nós dois. O homem que um dia amou Cecília — e que, de alguma forma, agora está preso a mim. — Matteo... — arrisco, a voz quase falhando. — Você não se arrepende de estar aqui comigo? De tentar descobrir algo que talvez nunca faça sentido? Ele ergue os olhos, e o silêncio que precede sua resposta me queima por dentro. Por um instante, tenho certeza de que ele vai dizer que sim. Que estou apenas ocupando um espaço que não deveria. Mas ele balança a cabeça. — Não me arrependo. — Sua voz é baixa, rouca. — Eu só... tenho medo. — Medo de quê? — pergunto, mesmo sabendo a resposta. — De perder você também. — Ele respira fundo, desviando o olhar. — Porque, por mais confuso que tudo isso seja... você está aqui. E eu não quero que nada te leve embora de novo. Meu coração aperta de um jeito estranho. Quero acreditar nessas palavras, mas ainda há uma sombra pairando entre nós — o fantasma de Cecília, a mulher que ele amou, a mulher que eu nunca fui. — Eu não sei quem sou, Matteo. — Minha voz falha. — Não lembro nada, nada que me defina. Só tenho a sensação de estar... invadindo a vida de alguém. Ele se aproxima e segura minhas mãos, os olhos presos nos meus. — Então vamos descobrir juntos. — Suas palavras são uma promessa, mas também um peso. Fecho os olhos por um instante, tentando me agarrar à força dele. Mas, no fundo, sinto que esse retorno à cidade do acidente não vai trazer apenas respostas... vai abrir feridas que talvez nenhum de nós esteja preparado para encarar. O silêncio retorna, mais denso que antes. Ficamos apenas ali, lado a lado, presos em pensamentos que não ousamos compartilhar. O relógio marca o tempo, cada segundo se arrastando como se estivesse zombando de nós. No fim, Matteo aperta minha mão com mais força e diz apenas: — Amanhã partimos. E é nesse instante que percebo: o amanhã pode mudar tudo.
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