De volta ao ônibus meu coração continua apertado, mas eu sigo firme na minha ideia de fingir que tá tudo bem. Está tudo bem agora, vai ficar tudo bem amanhã e depois de amanhã.
Quando o ônibus pára no centro comercial eu vou na única loja de aluguel de DVDs a quilômetros de distância.
Desde que ninguém mais aluga DVDs por ter sempre a possibilidade de assistir pela internet, seja de forma legal ou ilegal, milhares de lojas de compra e aluguel de fitas de vídeo foram fechadas mundo afora.
Mas aqui nesta pequena cidade, uma resistiu a essa crise.
Eu não sei como, pois toda vez que eu venho a loja está sempre vazia. Sei que tem muitos idosos pela vizinhança, que é justamente o público que vai preferir alugar por não saber como se assiste esse tipo de coisa online. Mas não sei se esse público seria o suficiente pra manter essa ou qualquer loja funcionando, ainda mais por que na minha cabeça, idosos preferem ficar olhando a rua e varrendo calçada do que ficarem parados durante duas horas na frente da televisão.
Mas um ponto importante é: Alice tem um aparelho de DVD, então sempre que eu vou lá, é minha responsabilidade passar nessa relíquia de loja e trazer apenas o melhor dos melhores pra fazer nossa noite subir a outro nível. E eu sei exatamente aonde eu vou dessa vez.
Passo pela porta e já chego na sessão que quero, passo minhas mãos pelas fileiras de DVDs empoeirados, lendo os títulos com muito cuidado até achar ouro.
Pego e já vou pro caixa, que registra uma semana de aluguel. Eu pago, ele anota a data de devolução num papelzinho na parte de trás da caixa do DVD e eu saio feliz levando meu prêmio na sacolinha.
Dali, decido andar os 15 minutos até a casa de Alice.
Ela é uma daquelas amizades que vai da adolescência pra vida adulta. Nos falamos muito pouco graças à correria das coisas, mas quando nos falamos, é como uma válvula de escape. É como se nada tivesse mudado e acaba sendo uma âncora entre muitas coisas mudando. É um alívio poder vê-la hoje.
Meu celular vibra no bolso quando estou prestes a chegar. Eu pego e leio a última mensagem de Alice.
"Vou me atrasar uns 15 minutos. Chave extra embaixo do tapete"
Olha só, de novo entrar clandestinamente na casa de alguém.
Eu chego na pequena casa, porém não tão pequena quanto a última em que estive. Eu chamaria de confortável.
A maior parte das casas da cidade são um modelo padronizado pela prefeitura em projetos habitacionais de 50 anos atrás. Muito pouco é restaurado e a maioria acaba se preservando, deixando a maior parte da cidade morando em casas com cheiro de madeira velha, mofo, verniz e pelo menos uma porta ou janela que não abre direito. Eu particularmente gosto, mas em algumas vezes, como depois de ver um filme de terror ou quando acaba a luz no meio de uma tempestade, é terrível. Minha casa também é assim, então eu sei muito bem do que estou falando.
Pego a chave e entro na casa. A decoração não mudou muito desde da última vez que estive aqui.
Alice tem um senso de moda incrível, pelo menos na minha opinião. Ela sempre aparece com as roupas mais coloridas e chamativas possíveis e chama atenção pra onde vai com isso, ela gosta de fazer crochê e também pinta nas horas vagas, mas o senso decorativo dela..
A casa é por dentro a mesma coisa que parece por fora: uma casa velha, com papeis de parede do século passado, toalhas brancas de renda nas mesas, tapetes que guardam mais poeira que os livros da livraria, e o ponto alto da casa: uma completa coleção dos quadros mais tenebrosos que já vi na vida.
Eu já avisei a ela desses quadros, já falei o quanto eles são uma aberração da natureza, mas ela diz que é um hobbie.
"visitar feiras e bazares e comprar a pintura mais horrorosa e talvez até amaldiçoada que você encontrar por lá?" Eu perguntei pra ela certa vez, depois dela me mostrar mais um quadro horroroso que ela tinha comprado, que mostrava uma jovem de vestido longo levando alguma coisa de formato desconhecido, mas que a cara era um homem de chapéu em uma floresta de árvores secas.
"exatamente!" foi sua resposta. "Não tem pontos negativos: afastam visitas indesejadas, você incentiva artistas que provavelmente nunca mais vão vender nada na vida, e tem mais uma coisa: você pode conhecer pessoas que colecionam moedas, botões e selos, agora, quem você conhece que coleciona quadros esquisitos?"
"definitivamente, você. Só você seria maluca o suficiente pra trazer essas atrocidades pra própria casa."
Depois dessa conversa, nós rimos e vimos O fabuloso destino de Amélie Poulain.
Eu evito olhar para os outros quadros conforme ando pela casa, há pelo menos três deles em cada cômodo, então pra onde eu olho tenho que encarar alguma dessas aberrações. Ligo a televisão e me jogo no sofá dela, onde espero por uns 10 minutos antes de ouvir um barulho alto de moto pela janela.
Abro apenas uma fresta das cortinas antes de ver Alice saltando da garupa de uma moto de um homem desconhecido por mim. Ela tira o capacete, entrega pra ele e não se despede, só vem correndo pra porta de entrada. O homem fica encarando até que ela entrasse.
E largo a cortina da janela e cruzo meus braços, olhando pra ela com minha melhor expressão de mãe.
Ela continua olhando pelo olho mágico enquanto ele vai embora. Eu pigarrei pra ela e ela toma um susto, batendo as costas na porta.
-Mulher, o que diabos está fazendo aí no escuro? Ficou maluca? quer me matar no coração?
-Você que me disse pra vir entrando. Aquele lá era seus 15 minutos de atraso?
Ela segura um sorriso muito suspeito. -Olha, tenho tanta coisa pra te contar...
Eu vou até o sofá mais uma vez e me jogo com tudo.
-Que seja, primeiro trate de fazer pipoca pra sua visita, por que eu trouxe orgulho e preconceito!
-Eu vou até ignorar a sua ousadia de me tratar como sua empregada, porque sinceramente você leu meus pensamentos, era EXATAMENTE o que eu estava querendo. Vinho?
-Nada disso. - Eu me levanto e vou até ela, como que fazendo suspense. Chego bem perto e seguro seus ombros, de forma que parecesse que eu fosse dizer a coisa mais séria do mundo.
-Champanhe barato. Eu PRECISO me sentir como se tivesse 18 anos de novo.
-Eu não vejo ideia melhor que essa.
Ela sai pra cozinha e eu abro o aplicativo de delivery de bebidas.
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O filme tinha terminado, assim como nosso champanhe barato e a pipoca. Depois de nós duas chorando rios pelo final mais lindo possível para um filme, com o Sr. Darcy vindo andando naquele campo coberto pelas brumas pra enfim declarar seu amor por Elizabeth, conseguimos superar isso pra voltar a rir como se nada tivesse acontecido, enquanto Alice conta suas terríveis experiências sendo estagiária em uma grande empresa.
-Ok, admito que é muito bom contar com as coisas cotidianas, mas acho que você está fugindo do assunto principal da noite. O cara da moto? será que podemos falar sobre esse elefante na sala? - Eu digo, finalmente tocando no assunto.
-Elefante na sala? que elefante na sala?
-Alice! Se fazer de sonsa pra situações críticas é o MEU papel, o que eu vou fazer se você começar a me imitar?
-Talvez encarar os seus problemas como a leoa sanguinária que eu acredito que vive aí dentro.
-Essa leoa está hibernando.
-Leoas nem hibernam sua palhaça.
-Tudo bem, então é um urso que está dentro de mim. Um urso sanguinário que adora hibernar.
Nós rimos mais um pouco antes que eu retomasse.
-Muito bem, Agora para de fugir do assunto.
-Bem...você se lembra daquela pessoa do escritório que eu tanto falava, que eu não sabia se era ele ou ela...
-....Não...
-Aquelas situações chatas que te contei outras vezes, os biscoitos que eu deixava na geladeira da empresa e nunca estavam lá quando eu olhava, a pessoa que arranhou meu carro com a moto só por que eu estacionei um tantinho fora da vaga e de resposta eu furei os pneus dela...e quando eu refiz meus biscoitos especiais e enchi a massa com um frasco daquela pimenta horrorosa que comprei quando fui na Carolina...É uma história bem engraçada até.
Estou sem palavras.
-Foi em uma reunião, eu estava só fazendo o meu trabalho chato de servir café. Ele entrou na sala...ele sabia quem eu era e ficou me afrontado, e eu afrontei de volta por que você me conhece e sabe que eu não ia deixar barato assim...então eu descobri que ele é meu chefe.
Alice fala as ultimas partes muito devagar e fazendo uma careta de quem se prepara pra receber uma bolada na cara. Eu fico parada olhando pra ela com cara de quem ouviu mas não acredita. Acho que entraria facilmente uma mosca na minha boca agora.
-Bom, não exatamente meu chefe - Ela continua - Ele é tipo, chefe do meu chefe. Mas como a sede em que eu estou trabalhando está tendo um dos melhores resultados do mercado, ele estava passando mais tempo lá recentemente que na sede corporativa.
-ALICE EU NÃO ACREDITO. -eu finalmente falo.- O QUE ACONTECEU? COMO ACONTECEU? POR QUE NÃO ME LIGOU, TIPO, IMEDIATAMENTE?
-Ah, sabe como é...é muita coisa pra processar.
Ah eu sei do que ela esta falando, com certeza sei. Mesmo sabendo que a vida dela também esteja assim de ponta cabeça, ainda não me sinto confortável pra contar meu segredinho sujo, pra contar o que eu fiz. Sinto que se eu contasse pra ela agora, se tornaria algo real de mais, que eu teria que obrigatoriamente enxergar com um lado racional que pode estragar tudo pra mim. Fora que eu me sinto ciumenta com esse segredo, sinto que preciso mantê-lo comigo da melhor forma que puder, e não deixa-lo escapar. É algo que só desejo compartilhar com meus demônios, pelo menos por enquanto.
Com Alice eu lido depois, ela não precisa saber disso por agora.
Passamos boa parte da noite depois disso falando m*l de Steven, e tive que ouvi-la ameaçar ele de todas as formas possíveis caso ele aparecesse de novo na minha vida, ou o que ela faria se tivesse tentado algo anteriormente. Também falamos sobre David, meu irmão, porém bem pouco. Eu não gosto de levar meus problemas para outras pessoas, sei o quanto ela se importa e sei que não é só comigo, mas com ele também, e em questão de preocupações eu já levo o suficiente sozinha.
Depois disso fomos dormir, como em uma legítima festa do pijama. Apaguei com a minha última visão de um palhaço assustador me encarando de um dos quadros da parede oposta. Sonhei que ele saia do quadro durante a noite, me jogava em seu ombro e me levava para Deus sabe onde