POV ORION
Eu dirijo com a cabeça quente. Parece que tudo que eu tenho feito recentemente é com a cabeça em chamas. Acabou a paz dos meus dias corriqueiros, e a adrenalina não é a única coisa que me consome mais. Meus dias, minhas horas, minutos e segundos tem sido preenchidos com algo mais, mais natural do meu interior, mais brutal.
Fazia muito tempo que eu não tinha uma obsessão. Algo forte o suficiente pra me fazer ficar fixado naquilo de forma que nenhuma outra coisa faz. Caiu do céu bem em cima de mim me atingindo como um meteorito. Por quanto tempo pairou sob a minha cabeça sem eu ter visto sequer a sua sombra?
Tenho meus gostos, minhas vontades e meus desejos, mas quando eu tenho uma obsessão de verdade o buraco é mais embaixo.
Estou agora a caminho de Whitebridge em extrema velocidade. O vento frio e cortante não causa efeito nenhum contra o capacete ou as roupas de couro, mas outras coisas dentro da minha cabeça causam.
Passei meus últimos dias fazendo trabalhos que demandaram mais tempo do que gostaria, e infelizmente não dediquei tanto quanto queria ao meu brinquedinho.
E agora tenho que ir pra Whitebridge para lidar com outra coisa que eu definitivamente não estava interessado. Isso tudo só aumenta o meu mau-humor.
Eu já tive uma obsessão antes, a muito tempo. Eu lutei e mantive distância o máximo que pude.
Me conheço o suficiente pra saber o quanto isso me consome.
Eu já sou um homem particularmente violento, meu trabalho faz minhas mãos estarem cobertas de sangue a maior parte do tempo, e eu não tenho problema nenhum com isso. Nunca tive.
Eu tenho bastante nomes espalhados por aí, e mostro meu rosto apenas quando necessário. Na grande metrópole de Whitebridge, meu rosto é de Orion O'brien. É lá que estou cercado pelos idiotas da torre de marfim e das piores pessoas possíveis que compõem minha família adotiva.
Até os 14 anos era só eu e minha independência, até que aqueles idiotas do serviço social chegaram e me arranjaram um lugar pra ficar, aonde eu fui adotado por Scott O'brian. O famoso empresário das torres de marfim, dono de uma grande empresa de exportação, e por baixo dos panos, o paraíso fiscal dos devedores. Crianças que trabalham pra receber centavos em fábricas na Indonésia, Fraudes fiscais e de seguros, impostos fraudulentos, tudo e mais um pouco que envolve crimes de colarinho branco essa gente está envolvida. Ninguém vale um tostão furado nessa "família" composta por eu, meu pai, e meu querido "irmão" adotivo.
Quando se está com as acusações subindo até o pescoço e sendo caçado quase que pessoalmente pelo leão dos impostos, você tirar uma foto para os jornais com duas crianças adotadas que foram "resgatadas pelo seu bom coração de pai" acaba ajudando um pouco a escapar de umas poucas e boas.
E assim ele podia continuar no seu mundo dos ricos, cheio das drogas mais caras que o dinheiro pode pagar, as melhores prostitutas de luxo e hora ou outra, tirar um tempo pra mijar na cara dos que estão por baixo, os menos favorecidos não só pelo estado, mas também por Deus.
Mas quem sou eu pra falar de crimes.
Agora, na cidadezinha de Glancester, posso ser Johnny Carter, Alex, Mike ou até a p***a do Ted Bundy. Posso ser o que eu quiser que os outros me chamem, sejam os que trabalham pra mim ou só me deve favores.
Existem muitas formas de se mandar em uma cidade, você pode ter dinheiro e comprar pessoas, você pode prestar favores e cobrar eles quando mais te favorecer, ou um pouco de cada coisa. Quando você trabalha com uma colmeia de abelhas, não se vai atrás de cada abelha sozinha pra lidar com elas. Você pega a abelha rainha, prende ela numa caixa e leva consigo no bolso pra ter todas as abelhas trabalhando pra você de forma involuntária. Apicultura é uma arte, assim como morar em Gloucester.
Mas é um trabalho perigoso, pela questão de todas as ferroadas que você pode levar de diferentes direções. Até quando se tem todo o delicado trabalho de tirar cada ferrão de abelha que você encontra, ainda acaba sobrando algumas. E mesmo as que não tem ferrão também são capazes de mordiscar até virar um incômodo.
Eu estive seguindo Cassy por pouco tempo nos últimos dias, observando ela por janela sem fazer minha aparição dessa vez. Ela colocou cadeados nas portas, e isso me tirou uma risada.
Eu AINDA não fui atrás de informações sobre a vida dela, só o que eu precisava: o endereço, seu nome de solteira e seus antecedentes. Acho ainda um pouco cedo pra eu avançar mais do que isso e fazer o que eu realmente quero: pegar o nome de cada um dos caras que ela já saiu e ir atrás deles pessoalmente, a começar por aquele tal de Steven. Como eu queria não ter errado aquele machado.
Dele eu não fui atrás do endereço ainda, por que eu sei muito bem o que eu vou fazer se eu tiver essa informação.
Eu acelero ainda mais a moto. Torço pra que esse final de semana passe mais rápido do que o esperado, pra que eu possa voltar pro que eu tanto quero.
POV CASSY
Poucos dias depois da minha visita a Alice, 40 minutos dentro de um ônibus lotado, com o trânsito infernal que só uma junção de fim de semana com hora do rush tem a oferecer, eu finalmente chego no meu local de trabalho.
Quer dizer, não exatamente no meu local de trabalho. Primeiro que eu não costumo trabalhar aqui, mas foi o que calhou com o fato de eu precisar de dinheiro e saber a quem ligar. Lincoln é um antigo conhecido meu pra quem de vez em quando eu dou as caras. Nem sempre ele tem um trabalho, o que é muito r**m, pois ele é sempre meu último e único plano de emergência, mas pra minha sorte dessa vez ele tinha. Consegui um adiantamento e já limpei a minha barra e a do meu irmão com Will (pelo menos por enquanto), então agora era minha vez de fazer minha parte e trabalhar. Nada pode dar errado hoje.
Agora, o ponto dois da questão: ainda é muito cedo. Eu já passei na sede da empresa, conferi tudo que tinha que conferir com Lincoln, confirmei tudo que tinha que confirmar e ainda são 20 horas, sendo que eu só vou ter que ir no local certo lá pela meia noite.
Com o nervosismo me consumindo, eu fiz o que tinha que fazer: vim para um bar.
Whitebridge, onde eu estou agora, é cheia de bares caros e gente arrogante. É um saco pensar que vou ter que lidar com gente assim pelas próximas horas, mas são os ossos do ofício. A comissão de segurança do serviços proíbe seus funcionários de beber qualquer gota de álcool antes das apresentações, já eu digo que faço isso a tempo suficiente pra saber o que vai ou não melhorar minha disposição e performance. Ficar totalmente sóbria até meia noite com certeza vai piorar toda e qualquer coisa que eu tente fazer.
Sei o que estou fazendo, mas a comissão de segurança não precisa ficar sabendo. Aqui estou agora, em um daqueles banquinhos altos na frente da bancada do bar, esperando o barman parar de conversar com seus amiguinhos de nariz empinado e cabelo com gel do outro lado e vir me trazer o que eu pedi.
Aos poucos, eu percebo que se passa mais alguns minutos e tudo que ele faz de diferente, ao invés de me atender, é começar a dar leves toques sutis no ombro de seus companheiros de conversa, em uma CLARA tentativa de paquera que o cara alvo parece não ter percebido.
Eu chamo ele mais uma vez antes que eu perca minha paciência, e ele vem até mim com uma expressão de descontentamento.
-Fala. - Ele diz seco, pela segunda vez essa noite.
-Minha bebida? será que dá pra me arranjar ela até o fim da noite ou vai ser muito difícil? - Eu falo sem filtro. Infelizmente deixei minha paciência em casa hoje.
O homem revira os olhos e pega o copo para colocar em cima do balcão, ele pega os outros itens: a coqueteleira, os gelos e as garrafas de diferentes tipos de gin. Eu fico com os olhos pregados nele em cada etapa do processo para garantir que ele não vai adicionar cuspe a bebida.
Ele termina e me passa o copo.
-Eu quero com canudo e guarda-chuvinha - Dou o meu sorriso mais c***l e ele dá um suspiro muito irritado. Eu vejo ele cerrando os dentes, virando pra bancada atrás dele e pegando o canudo e o guarda chuva, que ele joga de qualquer jeito no copo, e saindo logo depois de volta pra sua conversa.
Penso muito em chamar ele de volta e reclamar que ele colocou meu guarda-chuvinha torto, mas acho que se eu fizesse isso, cuspir na bebida seria a menor de minhas preocupações.
Eu tomo meu drink de forma calma, tentando saborear meu começo de noite e manter meus nervos no lugar, mas em poucos minutos, uns 8 homens usando ternos sob medida e outros tipos de roupas mais caras ainda, entram no bar fazendo arruaça como se estivessemos em um estádio de futebol.