Capítulo 07

2070 Palavras
Jade narrando — Eu trouxe o vestido que carrega o legado da família Petrov — ela continuou, com aquele mesmo tom firme e doce ao mesmo tempo. — Ele carrega a história da nossa família. Foi usado por todas as mulheres da linhagem legítima dos Petrov. Foi usado por mim, foi usado pela minha sogra, pela mãe da minha sogra, e agora será usado por você. Enquanto falava, ela abriu com cuidado o saco preto que trazia nas mãos. O tecido deslizou para fora com uma elegância silenciosa, revelando um vestido que, por mais que eu quisesse odiar, era absolutamente deslumbrante. O branco não era gritante, era um tom sofisticado, quase perolado, com renda trabalhada à mão que desenhava o corpete de forma delicada e poderosa ao mesmo tempo. A saia tinha camadas leves que pareciam flutuar, e o véu, dobrado com precisão, deixava claro que aquele traje não era apenas uma roupa, era um símbolo. Eu dei alguns passos na direção dele sem perceber, os dedos quase tocando o tecido antes que eu me lembrasse do que aquilo representava. — Temos poucas horas para fazer os ajustes — ela disse, analisando meu corpo com um olhar técnico. — Na época em que eu me casei, eu tinha um corpo bem parecido com o seu. Eu era uma jovem linda, me casando com o homem que eu amo, mas que também, no início, era só um contrato. Ela falou aquilo de forma sugestiva, como se estivesse plantando uma esperança discreta, como se quisesse me convencer de que aquilo poderia se transformar em algo diferente com o tempo. Eu neguei com um leve movimento de cabeça, mais para mim mesma do que para ela. Eu não ia amar esse homem. Não existia a menor possibilidade. Não tem como amar alguém que surge na sua vida como imposição, que te prende num contrato selado por dívidas e tradição, que transforma seus planos em pó antes mesmo que você possa tentar realizá-los. Eu tinha sonhos, metas, estratégias, uma empresa para reconstruir, uma guerra para vencer contra aquelas duas cobras que achavam que tinham me derrotado. Amor não cabia naquele cenário. — Senhora Petrov — eu falei, mantendo a voz controlada, embora o coração estivesse em chamas — eu respeito o legado da sua família, mas isso não deixa de ser um contrato imposto a mim. Ela apenas sorriu mais uma vez gentil como todas as outras e me observou com uma compreensão silenciosa que, de alguma forma, me desarmava. — Às vezes, o que começa como imposição se transforma em escolha — ela respondeu com calma. — Você vai descobrir que poder também pode ser proteção, e quem sabe amor…— ela fala e eu me mantenho em silêncio porque eu sabia que isso era o mais improvável de se acontecer… Proteção. Aquela palavra voltava como um mantra que eu ainda não sabia se queria aceitar ou rejeitar. Eu respirei fundo e, contra tudo que eu sentia, permiti que ela aproximasse o vestido de mim. Quando o tecido tocou minha pele, eu senti um arrepio que não tinha nada a ver com romantismo. Era peso. Era responsabilidade. Era a sensação física de estar vestindo uma história que não era minha. Dona Arminda, ainda visivelmente abalada, entrou discretamente para ajudar, e juntas ajustaram o corpete, puxaram a renda, alinharam a saia. Eu me olhei no espelho e por um segundo não reconheci a mulher refletida ali. O vestido moldava meu corpo com perfeição, realçava minhas curvas, deixava meus ombros expostos de forma elegante, transformava minha postura em algo quase majestoso. Eu estava linda, não havia como negar, mas aquela beleza vinha acompanhada de uma tristeza que queimava nos olhos. As lágrimas vieram sem que eu pudesse impedir. Não eram lágrimas de noiva emocionada. Eram lágrimas de alguém que estava se despedindo de uma versão de si mesma. Em poucas horas eu não seria mais apenas Jade Albuquerque. Eu seria Jade Petrov, esposa do novo Dom da máfia brasileira. Aquele sobrenome carregava poder, medo, influência, alianças obscuras e inimigos silenciosos. Ele me aterrorizava na mesma medida que despertava em mim uma revolta quase insuportável. Se minha mãe estivesse ali, eu teria me jogado nos braços dela, teria pedido que me dissesse o que fazer, teria procurado naquele abraço a força que sempre me guiou. Mas eu estava sozinha diante do espelho, vestida com o legado de uma família que eu m*l conhecia, prestes a entrar em um mundo que eu sempre observei de longe com desconfiança. Eu passei a mão pelo véu, sentindo a textura leve entre os dedos, e encarei meu próprio reflexo com firmeza renovada. Eu podia estar sendo empurrada para aquele altar por obrigação, mas eu não pisaria ali como vítima. Se aquele contrato era o preço para manter viva a honra do trabalho da minha mãe, então eu pagaria, mas não seria submissa, não seria decorativa, não seria silenciosa, e muito menos deixaria a Valquíria e a Iara impunes, isso era o que me motivava a ir até o fim desse casamento. Ela não foi embora depois de me entregar o vestido. Ao contrário do que eu imaginava, ela ficou ali comigo, como se tivesse decidido que aquele seria um momento compartilhado, não imposto. A senhora Petrov arregaçou levemente as mangas do próprio casaco elegante e fez questão de realizar cada ajuste com as próprias mãos. Ela marcou a bainha com alfinetes minuciosos, analisou cada centímetro do tecido contra o meu corpo, pediu que eu girasse devagar e, em determinado momento, seus seguranças entraram trazendo uma máquina de costura portátil que parecia já fazer parte da rotina daquela família. Ali, no meio da minha sala devastada emocionalmente por tudo que tinha acontecido naquele dia, a esposa do Dom da máfia brasileira sentou-se com postura impecável e começou a costurar, concentrada, delicada, quase doméstica, como se não houvesse sangue e contratos rondando aquele casamento. Dona Arminda, mesmo machucada, insistiu em nos servir um lanche. Trouxe chá, frutas cortadas, pequenos sanduíches e deixou tudo disposto com cuidado sobre a mesa de centro. A senhora Petrov agradeceu com gentileza genuína, e enquanto costurava, começou a falar comigo como se estivéssemos apenas em uma tarde qualquer entre mulheres preparando um evento importante. Ela me contou sobre a família dela, sobre as tradições que envolvem o casamento dentro da máfia, sobre a simbologia de cada detalhe da cerimônia, sobre como a entrada da noiva representa não apenas união, mas força, continuidade e estabilidade. Explicou como eu deveria me comportar, como funcionam os cumprimentos, quais famílias estariam presentes, como o conselho observa cada gesto da esposa do futuro Dom e como cada detalhe já estava sendo preparado para aquele momento. Eu a observava enquanto ela falava e via ali algo que ultrapassava títulos e estruturas criminosas. Eu via a felicidade de uma mulher que estava casando o filho, independente das circunstâncias que levaram àquele enlace. Havia brilho nos olhos dela, orgulho, expectativa. Acima de tudo, havia ali uma mãe. E aquilo me desmontava de uma forma silenciosa, porque eu reconhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que minha mãe tinha quando falava de mim com orgulho. Enquanto ela costurava do outro lado da sala, alegre, gentil e doce, eu desviava o olhar para o meu contador, que permanecia sentado com o notebook aberto, cercado de planilhas, contratos e cálculos. Ele digitava, refazia projeções, revisava números, como se estivesse tentando encontrar uma brecha matemática capaz de alterar o destino que se desenhava diante de nós. Eu ainda nutria uma esperança mínima de que algo pudesse surgir, alguma falha, alguma alternativa, alguma estratégia que me livrasse daquele contrato, mas no fundo eu sabia que não havia saída simples. Eu me levantei vestida com um robe imenso até os pés, pesado, já pertencente ao universo da máfia, e caminhei até ele. Sentei ao lado do meu contador enquanto a senhora Petrov continuava costurando do outro lado da sala, conversando com Dona Arminda como se estivesse organizando uma celebração tradicional de família. — Não há nada que a gente possa fazer, né? — eu perguntei em voz baixa. Ele negou com um movimento lento de cabeça, desapontado, os olhos cansados. Eu respirei fundo e senti algo dentro de mim se reorganizar. Se eu não podia fugir, eu podia ao menos controlar o que ainda era meu. — Então congela todas as contas. Até as minhas. Congela tudo — eu disse com firmeza. — Todos os cartões que elas possam ter acesso, qualquer coisa que envolva meu nome, o nome delas, o nome da empresa. Congela tudo. Todo o patrimônio. Nada será tocado mais até que eu saiba exatamente como vou resolver essa situação. Ele me olhou com preocupação, mas eu continuei antes que ele pudesse argumentar. — E onde quer que elas estejam, com quem quer que estejam, elas não vão usar um real meu. Eu quero cada centavo bloqueado. E você sabe como elas são. Esse dinheiro que elas roubaram vai acabar rápido. E eu vou achar elas. Ele assentiu e começou a executar tudo o que eu ordenei. Os dedos dele se moviam rápidos pelo teclado enquanto eu andava de um lado para o outro da sala, sentindo a noite cair pelo reflexo escuro nas janelas. A cidade lá fora seguia vivendo, carros passando, luzes acesas, enquanto dentro da minha casa se desenhava um casamento que mais parecia uma estratégia de guerra. Eu não consegui dormir. Não consegui descansar. A senhora Petrov finalizou a costura, cortou o último fio com precisão e levantou-se satisfeita. — Pronto, minha linda. Seu vestido está pronto — ela disse com um sorriso suave. — Eu sei que você não está feliz, mas saiba que eu farei de tudo para tornar essa transição o mais confortável possível. Lembre-se de que você não precisa me ver como uma sogra. Me veja como uma amiga, alguém que estará ao seu lado para te apoiar e ajudar em tudo. Ela se aproximou e me abraçou com delicadeza. Eu senti carinho naquele gesto. Senti paz e serenidade vindo de uma mulher que também já tinha enfrentado a dureza daquele mundo. — Nos vemos amanhã. Tente descansar. De manhã estarei aqui com a equipe de cabeleireiros e maquiadores para te arrumar e irmos juntas para o seu casamento. Depois que ela saiu e meu contador terminou o que precisava fazer e foi embora, a casa ficou silenciosa. Eu subi até o sótão, o lugar onde eu e minha mãe montávamos casinhas de boneca, onde criávamos mundos imaginários longe dos problemas reais. Sentei ali no chão frio, abraçando minhas próprias pernas, enquanto as lembranças me invadiam. As lágrimas desciam descontroladas, mas não eram lágrimas de fraqueza. Eram lágrimas de despedida. No meio da dor havia uma certeza absoluta. Eu me sentia forte, mesmo quebrada. Eu estava pronta para viver aquele desafio, pronta para encarar aquele homem, aquele mundo e aquele contrato com a cabeça erguida. O dia amanheceu sem que eu percebesse. Eu não estava cansada. Eu estava determinada. Tomei um banho demorado, lavei o cabelo, preparei um café forte e me sentei no sofá por alguns minutos tentando organizar meus pensamentos. Foi quando a campainha tocou e a senhora Petrov entrou acompanhada por uma equipe de cabeleireiros e maquiadores. Eu engoli o choro, ajeitei a postura e deixei que eles fizessem o que precisavam fazer. Enquanto mãos habilidosas penteavam meu cabelo, aplicavam maquiagem, ajustavam cada detalhe, eu repetia mentalmente que aquilo não era minha morte. Era meu renascimento. A Jade Albuquerque nunca morreria. Eu poderia me tornar Petrov diante da sociedade e da máfia, mas o sangue que corria nas minhas veias era Albuquerque, forjado pela força da minha mãe, não pela fraqueza do meu pai. Quando tudo terminou e eu me levantei vestida, pronta, a senhora Petrov me olhou com orgulho. — Você está linda — ela disse sorrindo. Eu a encarei e, pela primeira vez desde que ela entrou na minha vida, sorri de verdade. — A senhora está deslumbrante. Sua elegância me encanta — eu respondi com sinceridade, porque eu não tinha motivo algum para ser c***l com uma mulher que apenas tentava me amparar. Ela segurou minhas mãos por um instante e perguntou com suavidade: — Pronta? Eu assenti. Eu estava pronta. Não porque não tivesse medo, mas porque, pela primeira vez em dias, eu sabia exatamente quem eu era e quem eu continuaria sendo, independentemente do sobrenome que eu carregasse a partir daquele altar.
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