Capítulo 06

1600 Palavras
Jade narrando Eu estava com um ódio que não cabia dentro de mim, um ódio que pulsava nas têmporas, que queimava no estômago e subia pela garganta como se eu tivesse engolido brasa viva. A destruição do meu quarto ainda estava fresca diante dos meus olhos, o cofre vazio ecoando na minha cabeça como uma sentença, e a palavra casamento girando como um fantasma debochado dentro da minha mente. Eu desci para a sala da mansão sem nem perceber o trajeto, servi uma dose generosa de uísque e virei metade antes mesmo de sentir o cheiro da bebida. Não coloquei gelo, não procurei copo adequado, não quis nada sofisticado, eu queria sentir o álcool rasgando por dentro, queria que aquela ardência competisse com o que eu sentia no peito. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim, calma demais para o caos que eu carregava. — Uma senhora da máfia não deve beber dessa forma. A frase atravessou minhas costas como uma lâmina fina. Eu fechei os olhos por um segundo, terminei a dose de uma vez só, à moda antiga, deixando o líquido descer queimando, e só então me virei devagar, ainda segurando o copo com tanta força que meus dedos estavam brancos. Diante de mim estava uma mulher que eu nunca tinha visto na vida, mas que não precisava se apresentar para que eu soubesse que não era alguém comum. Ela era bonita de uma maneira sóbria, branca, cabelos pretos perfeitamente alinhados, maquiagem discreta, roupa elegante em tom escuro com aqueles zíperes sofisticados que denunciavam que nada ali era simples, nada era barato, nada era por acaso. Ela trazia algo nas mãos, oculto pela própria postura, e me observava com um sorriso gentil que não combinava com a palavra máfia que ainda ecoava na sala. Eu queria mandar aquela mulher para a casa do c*****o, queria dizer que ela estava na casa errada no dia errado, mas havia algo no olhar dela que me quebrou por dentro. Não era arrogância, não era superioridade, era uma gentileza quase deslocada naquele cenário. — Prazer, eu sou a senhora Petrov, mãe do Christian, seu noivo, e esposa do Dom da máfia brasileira. — Ela estendeu a mão e eu demorei alguns segundos para reagir, como se meu cérebro estivesse tentando processar cada pedaço daquela informação antes de permitir que meu corpo se movesse. Noivo. Christian. Dom. Máfia brasileira. Eu apoiei o copo na mesa lateral com cuidado forçado e apertei a mão dela, sentindo a pele macia, firme, uma mulher que conhecia poder há décadas. — Você é muito linda — ela continuou, analisando meu rosto com atenção. — Seus olhos chamam atenção, mas não trazem alegria, não é? — ela me olhava nos olhos com firmeza e uma doçura assustadora Aquela observação me atingiu de um jeito inesperado, porque era verdade, e eu odiava que uma estranha conseguisse enxergar aquilo tão rápido. Eu não tinha condições de retribuir aquela gentileza, porque se eu abrisse a boca naquele instante não sairia diplomacia, sairia veneno. Minhas mãos ainda suavam levemente, lembrando o calor do copo de uísque que eu havia esvaziado. — Prazer, senhora Petrov — eu respondi, forçando a voz a sair controlada. — A que devo a honra da sua visita? A senhora já sabe o meu nome, não é? Ela sorriu da mesma forma gentil, um sorriso que me irritava não por causa dela, mas porque naquele momento eu queria quebrar cada objeto daquela casa e sair correndo atrás das duas desgraçadas que tinham feito do meu quarto um campo de guerra. Eu queria olhar as câmeras, descobrir quem era o homem que entrou ali com elas, rastrear cada movimento e acabar com aquela sensação de estar sendo encurralada. — Primeiro, vamos deixar esse copo aqui — ela disse com suavidade, tocando a mesa onde eu havia apoiado o vidro. — Segundo, eu vim trazer o vestido do seu casamento. As palavras me atingiram como um soco direto no estômago. Aquela merda de casamento. Aquela realidade que parecia absurda demais para ser verdade. Eu não conseguia acreditar que estava mesmo passando por aquilo, que a vida tinha me arrastado até o ponto de ser obrigada a aceitar um contrato assinado pelo inconsequente do meu pai. Se minha mãe estivesse viva, nada disso estaria acontecendo, eu tinha certeza. Ela jamais se curvaria a um acordo i****a, jamais permitiria que eu fosse usada como moeda de troca. Mas eu estava sozinha, completamente sozinha, e a única coisa que me restava era escolher qual prejuízo eu suportaria: perder a empresa construída com o esforço da minha mãe ou casar com um homem que eu nunca tinha visto. Eu respirei fundo, controlando a vontade de despejar toda minha revolta naquela mulher que, visivelmente, não tinha culpa direta do caos que eu enfrentava. — Olha, eu sei que certamente isso não era o que você planejava para a sua vida — ela continuou, a voz carregando uma nota sincera de empatia. — Mas saiba que, no que eu puder te ajudar, eu estarei aqui. Não há ninguém que, infelizmente, possa te livrar desse contrato e desse casamento, mas o meu filho não é um homem r**m. Eu abaixei a cabeça por um instante, buscando ar, buscando equilíbrio. Não é um homem r**m? Eu já tinha ouvido histórias suficientes para saber que Christian Petrov não era exatamente um empresário filantropo. Ele era o herdeiro de uma máfia que movia sombras nesta cidade, que controlava rotas, alianças, acordos silenciosos. A máfia brasileira não era um conto romântico de filmes estrangeiros, ela era uma engrenagem pesada que se misturava ao crime organizado, que infiltrava negócios do governo, que brindava em eventos de alta sociedade enquanto negociava mortes nos bastidores. Eu não ia confrontar a mãe dele com aquilo. Não era inteligente. Não era estratégico. — Senhora petrov — eu disse finalmente, sustentando o olhar dela — eu não planejei nada disso para a minha vida, mas também não sou o tipo de mulher que entra em um acordo sem entender cada detalhe dele. Eu ainda não conheço seu filho, mas a senhora pode ter certeza que eu irei seguir a risca cada passo desse contrato, sou mulher de uma única palavra — eu falo firme com ela que sorria ainda mais gentil pra mim Ela me observou com atenção redobrada, como se estivesse medindo cada palavra minha, talvez avaliando se eu era fraca, se eu era manipulável ou se eu seria um problema dentro daquela estrutura. — O que você pode esperar, Jade, é estabilidade e proteção. Meu filho foi criado para liderar, não para falhar. Ele é duro, sim, mas não é c***l sem motivo. — ela fala com o tom mais amável do mundo como se tivesse descrevendo um verdadeiro conto de fadas, que pra mim parecia um filme de terror dos mais macabros Proteção. Estabilidade. Palavras bonitas para descrever uma prisão ridícula que eu teria que manter até o último dia da minha vida, ou da dele… Eu caminhei alguns passos pela sala, tentando organizar meus pensamentos, sentindo que aquela conversa marcava o início de algo muito maior do que eu imaginava. — A máfia brasileira — eu falei com calma calculada — não é exatamente conhecida por ser sutil. Eu sei o tamanho e a importância da família que estou prestes a entrar, sei que não é apenas um casamento, é uma aliança que não beneficia só a mim, eu sei que tem mais coisas envolvidas nessa história. Só espero que o seu filho entenda que eu não sou uma peça decorativa nesse tabuleiro. — eu falo me servindo mais uma dose porque eu precisava disso pra aguentar o que ainda estava por vir… Ela não se ofendeu. Pelo contrário, o sorriso dela se tornou quase imperceptível, como se tivesse acabado de confirmar algo que suspeitava. — Eu imagino que ele já tenha sido avisado sobre isso, os funcionários do meu filho não costumam ser muito sútil, mas eu te garanto que você não terá uma vida r**m…— ela fala e eu não conseguia acreditar naquilo, era impossível ter uma vida boa sendo casada com um homem que eu não amo, que eu não tenho apresso algum, quem ela queria enganar ? Isso era óbvio. O silêncio que se instalou entre nós não era desconfortável, era denso, carregado de significados que ainda não tinham sido ditos em voz alta. Eu sabia que não havia saída simples, sabia que aquele contrato estava acima da minha vontade individual, mas também sabia que se eu entrasse naquela guerra, não entraria como vítima. Eu não tinha escolha a não ser aceitar aquele futuro incerto, mas aceitar não significava me curvar. E se Christian Petrov achava que estava comprando uma esposa obediente para legitimar o trono dele, ele estava prestes a descobrir que eu não era uma assinatura num papel, eu era a tempestade que vinha junto com ele. — O que você acha de deixarmos esses assuntos para depois, para você tratar diretamente com o meu filho, e agora nos preocuparmos apenas com a festa de casamento de vocês? Ela falou aquilo com uma serenidade quase irritante, como se estivesse organizando um evento social elegante, como se estivéssemos discutindo flores, buffet e lista de convidados, e não um contrato que estava me arrancando da minha própria vida. A palavra festa ecoou dentro de mim como uma ironia c***l, porque para mim aquilo não tinha nada de celebração. Era um atestado de óbito. Era o fim da Jade Albuquerque como eu sempre fui e o início de algo que eu não pedi, não planejei e não escolhi.
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