Jade narrando
— Negociar o seu casamento com o senhor Christian Petrov. Aqui está o contrato. Em troca da dívida da empresa, você deve se casar com ele. Ou melhor, era para a sua irmã mais nova casar com ele. Mas, pelas informações que eu recebi, elas acabaram de sair da mansão Albuquerque.
A voz daquele homem ecoava dentro da minha cabeça como se alguém tivesse ligado um alarme ensurdecedor. Eu não sabia nem o nome dele, mas ele falava com uma naturalidade assustadora, como se estivesse negociando a compra de um imóvel qualquer, e não a minha vida. Casamento. Dívida. Contrato. Christian Petrov. As palavras se embaralhavam e eu senti o chão da sala de reunião sumir sob meus pés. O Ronaldo estava pálido, imóvel, como se tivesse envelhecido dez anos em poucos minutos.
— Isso é algum tipo de piada de mau gosto? — eu ainda perguntei, mas minha voz saiu estranha, distante de mim mesma.
O homem manteve a postura ereta, o terno impecável, o olhar frio.
— Não é uma piada, senhorita Albuquerque. É uma cláusula contratual firmada pelo seu pai há anos. A dívida venceu. O conselho exige o cumprimento.
Eu não esperei o resto. Saí dali como se estivesse fugindo de um incêndio, o coração batendo tão forte que parecia que ia rasgar meu peito. Que p***a é essa? Que contrato é esse? Como eu não sabia de nada? Como de um lado da minha empresa tudo ia tão bem, os números crescendo de forma controlada, saudável, enquanto do outro lado tudo despencava num buraco que eu nem sabia que existia? Aquilo não entrava na minha cabeça. Não fazia sentido.
Eu entrei no carro quase arrancando a porta e acelerei como se estivesse numa perseguição. Nunca fiz aquele trajeto tão rápido na minha vida. Os sinais vermelhos viraram borrões, as buzinas ecoavam ao longe, mas eu só conseguia pensar em uma coisa: aquelas duas sabiam. Elas sempre sabiam.
Assim que cheguei na mansão, parei o carro torto na entrada e subi correndo, o salto ecoando forte no mármore. Eu gritava pelos corredores como se estivesse possuída.
— Iara! Valquíria! Eu sei que vocês estão aqui! — eu gritava correndo pela casa — suas desgracadas, cadê vocês duas putas ? — eu já tinha perdido a linha, a paciência, a paz, tudo com essa loucura de que eu teria que casar com um homem que nunca vi na vida, um mafioso que eu jamais imaginei conhecer, ou saber da existência
Como o meu pai tinha feito isso ? Que merda era essa ? Por que nunca me falaram nada ? Estava tudo errado, e agora eu ia ter que entregar a minha vida pra salvar o meu patrimônio, porque uma vaca mimada resolveu dar no pé depois de torrar tudo e me deixar nessa situação? Isso era inadmissível.
O silêncio daquela casa sempre foi imponente, mas naquele momento ele era sufocante. Eu virei cada canto da sala, fui até a área da piscina, olhei a cozinha, o jardim, o escritório. Nada. Meu coração começou a bater mais rápido ainda, uma sensação r**m subindo pela minha espinha.
— Dona Arminda! — eu gritei, e minha governanta apareceu correndo pelo corredor lateral, ofegante.
Assim que eu olhei para ela, senti meu estômago virar. O olho dela estava roxo, os braços marcados, a blusa amassada.
— Minha filha… — ela começou, quase chorando. — Elas saíram daqui tem uns quarenta minutos. Assim que você saiu, elas saíram praticamente correndo. Só que eu preciso te falar… e eu preciso te pedir milhares de desculpas. — ela fala e eu já não estava gostando do seu tom, eu sabia que tinha acontecido mais merda que eu já não sabia nem se conseguiria lidar
O meu sangue ferveu na mesma hora.
— Por que a senhora está com o olho roxo? — eu fui na direção dela, segurando seus braços com cuidado. — Toda marcada? O que aconteceu aqui? — eu pergunto reparando nela toda
Ela respirou fundo, os olhos marejados.
— Isso é o de menos, Jade. Elas entraram com um homem que eu não sei quem é. Eles arrombaram a porta do seu quarto e eu tentei impedir. Eu tentei, minha filha. Fiz de tudo pra não deixar elas entrarem, mas elas me bateram… enquanto esse homem fazia a limpa no seu quarto. — ela fala me olhando desesperada com medo, assustada, com dor, tudo ao mesmo tempo
Eu não ouvi o resto. Saí correndo escada acima como uma louca, sentindo o coração na garganta. Quando virei o corredor e vi a porta do meu quarto caída no chão, a cena pareceu um pesadelo m*l montado.
O cheiro me atingiu primeiro. Shampoo, condicionador, óleo capilar, perfume. Uma mistura doce e enjoativa que grudava na garganta. A cama estava encharcada, os lençóis cortados, a colcha rasgada. Quando pisei no quarto, o meu salto escorregou e eu quase caí. Olhei para baixo e vi o chão coberto de creme, água, óleo. As cortinas estavam manchadas, fotos quebradas espalhadas pelo chão, os porta-retratos com o vidro estilhaçado.
Eu caminhei devagar pelo caos, sentindo o peito arder. O meu closet estava revirado, roupas arrancadas dos cabides, caixas abertas, joias espalhadas como se não tivessem valor algum. Mas nada daquilo me importava.
Nada.
Quando meus olhos pousaram no cofre, eu senti o mundo parar a porta estava aberta.
Eu só lembro da sensação de que minhas pernas não respondiam direito. Eu me ajoelhei ali na frente, com as mãos tremendo. Vazio.
Documentos, contratos, pastas estratégicas, cópias de registros, reservas financeiras, tudo que eu guardava ali para me proteger, tudo que poderia provar irregularidades, sumido. O envelope com cópias das movimentações suspeitas da parte do meu pai. O dossiê que eu vinha montando contra elas. As joias da minha mãe que eu mantinha ali por segurança. Um grito preso subiu pela minha garganta, mas não saiu. Eu senti um gosto amargo na boca, uma mistura de ódio e desespero tão intensa que me fez perder o ar por alguns segundos.
Elas sabiam do contrato. Sabiam da dívida. Sabiam que a bomba estava prestes a explodir na minha mão. E, antes que eu pudesse reagir, decidiram me deixar nua. Eu passei a mão pelo interior do cofre como se fosse encontrar algo escondido no fundo. Nada. Só o metal frio refletindo a minha própria imagem distorcida.
As joias da minha mãe, que já foram da minha avó, a minha maior herança, tudo o que eu tinha de verdade, eu não conseguia acreditar nisso.
Os documentos e provas eu tinha cópias de tudo em outro lugar, ali era tudo o que eu ia juntando e guardava ali de primeiro momento. Mas o que me doía era o fato de que aquelas joias eram importantes pra mim, vinham da minha família, era um pedaço da minha história não por valor financeiro, mas por valor sentimental, minha mãe tinha deixado pra mim, eram de geração por geração, eram joias que eu sonhava em usar no meu casamento, com o meu marido amado quando chegasse a hora, e não num maldito casamento de contrato. Isso tudo estava errado. Eu me sentia apunhalada, até mesmo pelo meu próprio pai, porque ele também fazia parte disso, como ele assinou um contrato desse ?
Tudo bem que ele deixou que a p*****a mirim se casasse, mas sabendo o quanto elas são ardilosas, onde ele estava com a cabeça quando fez tudo isso ?
Eu vivo tentando apagar incêndios dos outros, eu vivo tentando salvar a minha vida que as escolhas do meu pai fuderam com cada dia que eu abro os olhos, e agora mais essa ?
Eu me levantei devagar, olhando ao redor do quarto destruído. Cada objeto quebrado parecia zombar de mim. Cada vidro estilhaçado era como um riso delas ecoando pela casa. Eu não fazia ideia de quem era aquele homem, mas agora eu sabia uma coisa: isso não era só uma negociação financeira. Isso era guerra.
E eu estava sozinha no meio do campo de batalha.
Eu respirei fundo, sentindo o peito subir e descer de forma descompassada. Não era a primeira vez que tentavam me derrubar. Não seria a última. Mas dessa vez o jogo tinha mudado de nível.
Se elas achavam que iam me empurrar para o altar como uma moeda de troca, sem que eu reagisse, estavam muito enganadas.
Eu fechei o cofre vazio com força, o barulho ecoando pelo quarto destruído.
— Vocês mexeram com a pessoa errada — eu murmurei para o vazio.
E, pela primeira vez naquele dia, o desespero começou a se transformar em algo muito mais perigoso, porque eu vou achar elas, elas vão me pagar por tudo isso, nem que eu tenha que passar pelo inferno, mas quando eu colocar as mãos nelas, aí sim elas vão sentir o gosto de tudo o que elas fizeram esses anos, e aí elas quem vão me pagar por cada lágrima que eu derramei, por cada centavo que elas me roubaram, e vão me pagar muito caro, com a vida.
Eu desci as escadas e dei de cara com o meu consultor financeiro e com o representante dos petrov
— diga ao seu chefe que eu vou casar, eu tenho a minha porcentagem na empresa, e vou comprar a parte da dívida que existe do outro lado, assim que possível, e aí encerramos o casamento — eu falo e o homem dá uma risada como se eu não tivesse entendido o que ele disse
— uma vez casada com o dom da máfia, a separação se se da com a morte, a máfia não aceita divórcio. — ele fala de aproximando — a dívida acaba quando vocês consumarem o casamento, e você estará fadada a viver todos os dias de sua vida ao lado de dom petrov, o herdeiro da máfia brasileira— o homem fala com um peso absurdo na voz — o casamento é em 24h em breve chega mais informações— ele fala e sai da minha mansão e eu me sento na escada sem reação a tudo o que eu ouvi, eu não tinha forças, e também não poderia lutar
Eu não acreditava que o meu pai tinha feito isso, agora eu seria uma senhora da máfia ? Eu teria que me resumir em viver as sombras de um marido, e não poderia ter o meu próprio império como eu sempre quis ?
— pera aí…— eu falo sozinha me levantando nervosa — consumar o casamento…? Meu Deus do céu — eu entrei em choque falando sozinha
Eu não poderia aceitar isso, eu ia me deitar com um homem que eu nem conheço pra quitar uma dívida que as duas fizeram ? Já não bastava entregar a minha vida a esse homem que eu nunca vi e não faço a menor ideia de quem seja ? Já não é demais ?
Eu andava de um lado para o outro desesperada, até que a campainha da minha casa tocou e eu não queria nem saber quem era, a dona arminda foi abrir a porta e eu peguei uma garrafa de whisky e virei no gargalo tomada pelo ódio de toda essa situação…