Christian petrov narrando
— Existe um contrato. Uma dívida de sangue entre a família Albuquerque e a minha. O velho Albuquerque morreu e a forma de quitar o débito milionário é através de um casamento de conveniência com a filha dele. O conselho deu o ultimato: para eu assumir o posto de Dom, eu preciso de uma esposa de linhagem, uma união que legalize os ativos deles sob o nosso comando.
Vanessa se levanta bruscamente. A cadeira quase vira para trás.
— Uma Albuquerque? Uma garota que você nem conhece? Christian, nós estamos juntos há três anos! Eu aguentei o segredo, aguentei as sombras, aguentei ser a mulher que ninguém vê porque você me prometeu que, quando fosse o Dom, as regras mudariam!
— Eu nunca prometi isso — respondo, minha voz saindo fria e precisa. — Eu disse que cuidaria de você. E eu cuidei. Mas as leis da Irmandade são imutáveis.
As leis da máfia brasileira, especificamente as da nossa cúpula, são draconianas quando se trata do Dom. A figura do líder é sagrada. Para manter a pureza da linhagem e a estrutura de poder, o Dom deve ser casado sob as leis da organização. E há uma regra de ouro, antiga e c***l: fidelidade absoluta à esposa do contrato. Não por amor, mas por política. Uma amante é um ponto fraco. Uma amante é uma fonte de vazamento de informações. Na nossa máfia, se um Dom é pego traindo a esposa do contrato, ele é visto como alguém incapaz de manter a própria palavra. Se ele trai a mulher que jurou proteger diante do conselho, ele trairá a organização. A punição para o adultério comprovado é a perda do título ou, em casos de linhagens puras, a execução da amante para "limpar" a honra da família.
— Eu não posso manter você aqui, Vanessa. O contrato exige que eu não tenha distrações. A partir do momento em que eu colocar a aliança no dedo daquela garota, você deixa de existir para mim.
O surto vem como uma explosão. Ela solta um grito de puro ódio e avança na minha direção.
— Você é um ridículo! Um covarde! — Ela tenta me dar um tapa, mas eu seguro o pulso dela com força, sem apertar o suficiente para quebrar, mas o bastante para imobilizá-la. — Três anos da minha vida jogados no lixo por causa de uma regra de velhos gresquistas? Você vai me trocar por uma menina que nunca viu o rosto?
Ela se solta e começa a varrer a bancada do bar com o braço. As garrafas de cristal voam pelo chão, estraçalhando-se em mil pedaços. O uísque e o gim se misturam ao vidro quebrado.
— Eu te amo! Eu fiz tudo por você! — Ela grita, pegando um vaso de porcelana e arremessando contra a televisão de oitenta polegadas. O estrondo é seco. — E agora você vem aqui, na casa que você me deu, dizer que eu sou um problema que precisa ser apagado?
— Chega, Vanessa.
— Não chega nada! Você vai casar com ela, mas vai continuar vindo aqui! Você vai fazer dela a oficial e eu vou continuar sendo a sua mulher de verdade!
— Não, eu não vou — digo, dando um passo à frente, ignorando o vidro que range sob a sola do meu sapato italiano. — Se eu for pego com você, o conselho mata você em menos de vinte e quatro horas. Eu estou salvando a sua vida ao terminar isso.
— Mentira! Você só quer o poder! Você quer aquela coroa de sangue mais do que qualquer coisa! — Ela começa a chorar, um choro feio, de desespero e raiva. — Tomara que ela te odeie. Tomara que ela transforme a sua vida num inferno pior do que esse que você está fazendo comigo agora.
Eu não respondo. Não há nada a ser dito. Retiro um envelope do paletó e coloco sobre a única parte intacta da mesa.
— Este apartamento está no seu nome. Há uma conta na Suíça com saldo suficiente para você viver o resto da vida sem trabalhar. Amanhã, meus homens virão buscar o que é meu. Sugiro que você não esteja aqui. Se você tentar entrar em contato comigo ou com a minha futura esposa, eu não poderei te proteger das consequências da máfia. Adeus, Vanessa.
Saio do apartamento enquanto ouço o som de mais vidros se quebrando e os gritos dela ecoando pelo corredor. Não sinto remorso. Sinto apenas o peso do dever.
O amor é um luxo que o Dom da máfia não pode pagar. Agora, só resta o contrato, o altar e uma desconhecida chamada Jade, que está prestes a entrar no meu mundo escuro sem ter ideia de que, para eu ser o rei, ela terá que ser a minha prisioneira.
O motor do SUV ruge quando aperto o botão de ignição, mas eu não saio do lugar. O celular vibra contra o couro do painel, um som irritante que ecoa na minha cabeça como um aviso de perigo. Eu deveria bloquear o número. Deveria jogar o aparelho pela janela. Mas, por um instinto masoquista que raramente me dou o luxo de sentir, eu pego o telefone e começo a ler.
Vanessa (21:14): Christian, volta aqui. Por favor. A gente pode conversar direito, eu não devia ter gritado.
Vanessa (21:15): Eu te amo, você sabe que eu sou a única que te conhece de verdade. Aquela menina não vai saber como cuidar de você.
Eu deslizo o dedo pela tela. Mais dez mensagens. Vinte. O tom muda do arrependimento para o desespero absoluto.
Vanessa (21:18): Pensa bem no que você está fazendo! Você tem dinheiro, Christian. Você tem milhões! A gente pode fugir. Vamos para a Europa, para a Ásia, para qualquer lugar onde esse bando de velhos da "Irmandade" não nos ache. Você não precisa desse trono de sangue. Larga tudo por mim. A gente pode ser feliz longe dessa sujeira.
Solto uma risada amarga, que mais parece um rosnado. Ela não entende nada. Ela passou três anos ao meu lado e ainda acha que a máfia é um emprego do qual você simplesmente pede demissão e vai embora com o FGTS no bolso.
— Fugir, Vanessa? — murmuro para o vazio do carro. — Eles nos caçariam até no inferno.
Eu continuo lendo, vendo o esforço dela em tentar me convencer de que três anos de dedicação valem mais do que séculos de tradição e sobrevivência.
Vanessa (21:22): Eu me dediquei a você todos os dias! Eu mudei minha vida por você, aceitei ficar escondida, aceitei ser o seu segredo. Você não pode me descartar como se eu fosse um móvel velho. Não é justo, Christian. Isso não é justo com o que a gente viveu!
Justiça. Que palavra engraçada para se usar no meu mundo. Não existe justiça na cúpula; existe apenas ordem. E a ordem agora exige que eu enterre o homem que ela conheceu para que o Dom possa nascer.
A mensagem seguinte é a que me faz travar os dentes.
Vanessa (21:25): Se você cruzar aquela porta amanhã e casar com essa Jade, você vai estar assinando a nossa sentença de morte. Eu não vou aguentar ver você com outra. Eu vou contar tudo. Eu vou acabar com esse contrato.
Bloqueio a tela imediatamente. A ameaça, mesmo que nascida do desespero e da dor, é o prego final no caixão do que tivemos. No Rio de Janeiro, uma ameaça ao Dom ou à estabilidade da organização não é tratada com terapia; é tratada com silenciamento. Se meu pai ou o conselho interceptarem uma única dessas mensagens, Vanessa não chegaria viva ao amanhecer de amanhã.
Respiro fundo, sentindo o ar condicionado gelado cortar o calor que sobe pelo meu pescoço. Eu a mantive viva hoje ao deixá-la. O que ela não entende é que o meu "abandono" é o único gesto de amor (se é que eu sou capaz disso) que ela receberá de mim.
Abro o aplicativo de contatos, seleciono o perfil dela e aperto "Bloquear".
A tela fica limpa. O silêncio volta a reinar.
Apago as luzes do painel e engato a marcha. Enquanto o carro desliza pela saída da garagem, eu olho pelo retrovisor a fachada do prédio. Para o mundo, eu sou Christian, o herdeiro bilionário. Para Vanessa, eu sou o homem que partiu seu coração. Mas, a partir de amanhã, para Jade Albuquerque, eu serei o monstro que ela terá que chamar de marido.
Eu não vou fugir para a Europa. Eu não vou ser feliz em uma praia paradisíaca. Eu vou sentar naquela cadeira de carvalho, vou comandar as rotas, vou esmagar meus inimigos e vou cumprir cada cláusula daquele contrato maldito.
O amor é para os fracos. E o Rio de Janeiro acaba de ganhar um Dom que não tem mais nada a perder.