Capítulo 03

1317 Palavras
Christian petrov narrando O Rio de Janeiro não é para amadores, e a máfia que comanda essa cidade muito menos. Do alto da cobertura na Avenida Atlântica, eu observo o movimento das luzes lá embaixo. Para o turista, aquilo é o paraíso. Para mim, é um tabuleiro de xadrez onde cada peça que se move sem a minha autorização precisa ser removida. Ser o herdeiro da "Irmandade", a cúpula que organiza o caos no Brasil não é um privilégio. É uma sentença de morte diária. Meu pai, o atual Dom, está sentado na poltrona de couro atrás de mim. O cheiro do charuto cubano dele impregna as cortinas e o meu humor. Ele tosse, um som seco que denuncia que o tempo dele está acabando mais rápido do que os médicos previram. Mas, mesmo moribundo, Lorenzo ainda segura as rédeas com uma força que beira a crueldade. — Você está perdendo tempo olhando para o mar, Christian — a voz dele é um rosnado baixo. — O mar não paga as nossas contas. A eficiência dos nossos portos e a lealdade dos nossos capitães, sim. Eu me viro lentamente. Eu não uso máscara dentro de casa, mas o meu rosto é uma máscara por si só. Aprendi cedo que demonstrar qualquer emoção é dar ao inimigo uma faca para ele cortar sua garganta. — Tudo está sob controle, pai. Os carregamentos de Santos chegaram sem intercorrências e a lavagem de dinheiro através das construtoras está dentro da meta — respondo, mantendo a voz monótona. — Não estou falando de negócios — ele se levanta com dificuldade, apoiando as mãos na mesa de carvalho. — Estou falando da sucessão. O conselho está inquieto. Eles não aceitam um homem solteiro no posto de Dom. A tradição exige uma esposa, uma linhagem, uma estabilidade que você se recusa a entregar. Eu sinto o maxilar trincar. A ideia de casar é um soco no estômago. Na minha vida, mulheres sempre foram passageiras, descartáveis e, acima de tudo, um risco de segurança. Colocar uma pessoa para dormir na mesma cama que eu, saber onde eu guardo minhas armas e conhecer a minha rotina é um erro estratégico que eu prometi nunca cometer. — Eu não preciso de uma mulher para comandar esses homens. Eu preciso de medo e respeito. Eu já tenho os dois — digo, dando um passo em direção a ele. — Você tem o respeito deles enquanto eu estou vivo. No momento em que eu for enterrado, eles vão caçar qualquer sinal de fraqueza em você. Um Dom sem família é um alvo móvel. Sem herdeiros, a disputa pelo poder vai transformar o Rio em um matadouro. Ele joga uma pasta de couro sobre a mesa. Dentro, há documentos, fotos e uma planilha de débitos que faria qualquer banco nacional tremer. — O velho Albuquerque morreu — meu pai continua. — Ele nos devia quarenta milhões. O império dele ruiu, mas as rotas de logística que ele possuía no Porto do Rio são essenciais para nós. A família dele não tem como pagar em dinheiro. — Então tomamos as propriedades e executamos quem ficar no caminho — respondo de forma pragmática. É assim que as coisas funcionam. — Não é tão simples. O conselho quer uma fusão legítima para evitar investigações federais agora que o governo está em cima de nós. O acordo foi feito há dez anos, uma promessa de sangue. O pagamento da dívida é a filha mais nova dele. Eu solto uma risada curta e sem vida. — Você quer que eu me case com uma órfã de um devedor para quitar uma dívida? Isso é arcaico, até para você. — Isso é o contrato, Christian. Ou você se casa com a garota Albuquerque e assume o posto de Dom com a bênção do conselho, ou eu entrego o comando para o seu primo, e você sabe que ele vai te matar na primeira oportunidade para garantir que não haja concorrência. O silêncio na sala fica pesado. Eu olho para a foto na pasta. Não é a garota que eu esperava. O relatório diz que a filha mais velha, a preferida, se recusou e fugiu. A família, em um ato de desespero e traição, empurrou a mais nova, Jade, para o abate. Ela foi entregue como uma mercadoria para salvar o restante dos bens. Eu odeio o conceito de casamento. Odeio a ideia de estar amarrado a alguém por um pedaço de papel e uma tradição ridícula. Mas eu odeio ainda mais a ideia de perder o que eu construí. O poder é a única coisa que me mantém vivo. — Prepare o contrato — eu digo, minha voz saindo como metal raspando em pedra. — Mas deixe claro uma coisa: ela vai ter o meu nome, o meu teto e a minha proteção. Mas ela nunca vai ter a minha confiança. Ela vai ser uma peça decorativa na minha casa, nada mais. Meu pai sorri, mas não há calor naquele gesto. — Veremos, meu filho. As mulheres Albuquerque têm fama de serem difíceis de domar. — Eu não vou domá-la — respondo, caminhando até a porta. — Eu vou apenas usá-la para chegar onde eu preciso. Se ela sair da linha, o contrato prevê as consequências. Saio da sala e caminho pelo corredor frio. Meus seguranças se empertigam quando eu passo. Eu não quero uma esposa. Eu não quero um compromisso. Mas se o preço do trono é o destino dessa tal Jade, eu vou pagar. Ela vai descobrir muito rápido que casar com o "homem sem rosto" não é um conto de fadas, é o início de uma guerra onde eu não pretendo fazer prisioneiros. Saio da mansão do meu pai sentindo o ar pesado do Rio de Janeiro. O trajeto até a Barra da Tijuca é feito em silêncio. Meus seguranças, treinados para serem sombras, não ousam dizer uma palavra. Eu dirijo o meu próprio carro hoje; preciso sentir o controle mecânico nas mãos para não socar o painel. O apartamento de Vanessa é um santuário de luxo que eu financiei nos últimos três anos. É um andar alto, com vista para o mar, decorado com tudo o que há de mais caro. Ela é a minha válvula de escape, a mulher que nunca me questionou e que sempre soube o seu lugar. Ou, pelo menos, era o que eu pensava. Abro a porta com a minha chave. O cheiro de perfume caro e de comida sofisticada atinge meu olfato imediatamente. Ela surge do corredor, um sorriso radiante no rosto. Vanessa é linda, uma pele retinta impecável, cabelos sempre alinhados e um corpo que ela sabe usar como arma. — Você demorou, meu amor — ela diz, vindo em minha direção para um beijo que eu desvio sutilmente. — Eu preparei um jantar especial. Lagosta, o seu vinho favorito... senti tanto a sua falta essa semana. — Precisamos conversar, Vanessa. Meu tom de voz interrompe o entusiasmo dela como um balde de água gelada. Eu não dou espaço para preliminares. Caminho direto para o bar de mármore no canto da sala e sirvo uma dose generosa de uísque puro. O gelo estala no copo, o único som no ambiente por alguns segundos. Ela se aproxima, os olhos brilhando com uma expectativa que me irrita. Ela se senta na banqueta alta, ajeitando a seda do robe. — O que foi? Você parece tenso. É sobre a sucessão? Seu pai finalmente cedeu? — Ela inclina o rosto, sorrindo. — É sobre o nosso futuro, não é? Você veio me dizer que finalmente vai poder me assumir, que o conselho aceitou... Bebo o uísque de uma vez, sentindo o líquido queimar a garganta. — Eu vou me casar, Vanessa. Mas não com você. O sorriso dela não desaparece de imediato; ele apenas congela, transformando-se em uma careta de confusão. — Como? O que você está dizendo?
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