Pré-visualização gratuita Capitulo 01
BRUNA NARRANDO
Eu aprendi muito cedo que sobreviver nem sempre significa ter sorte.
Às vezes, sobreviver é apenas uma forma diferente de castigo.
Eu tinha quinze anos quando perdi meus pais.
Até aquele dia, eu era só uma garota comum. Tinha uma família, uma casa, uma rotina. Tinha uma mãe que brigava comigo quando eu demorava demais no banho, um pai que fazia piada de tudo e uma vida que, mesmo com os problemas normais de qualquer família, parecia segura.
Eu não fazia ideia de que tudo aquilo poderia acabar em questão de segundos.
Naquela noite, estávamos voltando para casa.
Meu pai dirigia, minha mãe estava no banco da frente e eu estava atrás, mexendo no celular e reclamando porque queria chegar logo. Lembro da minha mãe rindo de alguma coisa que meu pai falou. Lembro da chuva fina batendo no vidro. Lembro do rádio ligado.
E depois...
Só lembro do barulho.
Um estrondo.
O carro girando.
O vidro quebrando.
Meu corpo sendo jogado contra o banco.
Minha mãe gritando.
Meu pai tentando controlar o volante.
E então, silêncio.
Quando abri os olhos, eu estava presa dentro daquele carro destruído.
Sentia uma dor absurda no corpo, mas ainda conseguia respirar.
Chamei pela minha mãe.
Nada.
Chamei pelo meu pai.
Nada.
Foi quando olhei para frente.
E entendi.
Minha vida tinha acabado naquela noite.
Meus pais morreram ali, na minha frente, e eu fui a única sobrevivente.
Eu não sei explicar como saí daquele carro. Não sei explicar por que Deus, o destino ou seja lá o que existe lá em cima decidiu me deixar viva.
Eu só sei que saí.
E nunca mais fui a mesma.
Depois do acidente, fui morar com a minha tia.
Ela era a única pessoa da família que ainda me restava. E, mesmo sem ter obrigação nenhuma, abriu as portas da casa dela para mim.
Eu tentei recomeçar.
Juro que tentei.
Mas as pessoas não deixavam.
No morro, todo mundo sabia o que tinha acontecido comigo.
Eu era a menina que perdeu os pais.
A menina que sobreviveu.
E, conforme os anos passaram, aquela história virou outra coisa.
Quando eu tinha dezessete anos, um incêndio destruiu a casa onde eu morava com a minha tia.
Eu estava fora quando aconteceu.
Ela estava lá dentro.
Mais uma vez, eu cheguei tarde demais.
Mais uma vez, encontrei apenas cinzas.
Mais uma vez, alguém que eu amava morreu enquanto eu permanecia viva.
Foi naquele momento que começaram a me chamar de Anjo da Morte.
No começo, achei que fosse só uma brincadeira c***l.
Depois percebi que não.
As pessoas realmente acreditavam que havia alguma coisa errada comigo.
Diziam que a morte me seguia.
Que quem ficava perto demais acabava morrendo.
Alguns atravessavam a rua quando me viam.
Outros cochichavam.
Crianças apontavam para mim.
Adultos me olhavam como se eu fosse uma doença contagiosa.
Eu me acostumei.
Ou pelo menos aprendi a fingir que estava acostumada.
A verdade é que dói.
Dói ser rejeitada.
Dói não ter ninguém para ligar quando você está m*l.
Dói chegar em casa e perceber que não existe ninguém esperando por você.
Não tenho amigas.
Não tenho família.
Não tenho ninguém.
E o pior é que existe uma pessoa que insiste em se aproximar.
Morte.
Só de pensar nele, meu estômago revira.
Ele é um homem nojento, daqueles que parecem se divertir com o desconforto dos outros. Há meses me persegue, aparece nos lugares onde estou e insiste em dizer que eu deveria ficar com ele.
Segundo ele, ninguém nunca vai me querer.
Ninguém além dele.
— Se você não for minha, Bruna, não vai ser de mais ninguém.
Ele sempre diz isso com aquele sorriso nojento.
E quando eu mando ele embora, ele ri.
— Eu sou a própria Morte. Sua maldição não pode fazer nada comigo.
Talvez seja por isso que ele ache que pode continuar me perseguindo.
Ele acredita que, por ser chamado de Morte, está protegido da minha maldição.
Eu só queria que ele entendesse que eu não sou uma maldição.
Sou só uma mulher cansada.
Cansada de perder.
Cansada de ser olhada como se carregasse alguma coisa r**m dentro de mim.
Cansada de acordar todos os dias sabendo que ninguém se importa se eu estou bem.
Já pensei em acabar com tudo.
Mais vezes do que gosto de admitir.
Houve noites em que eu fiquei sentada no chão do quarto, abraçando as pernas e pensando que talvez fosse mais fácil simplesmente desistir.
Talvez, se eu fosse embora, finalmente encontraria meus pais.
Talvez parasse de sentir aquela solidão sufocante.
Mas alguma coisa sempre me fazia continuar.
Talvez fosse esperança.
Uma esperança pequena, quase ridícula.
Mas ainda estava lá.
A esperança de que um dia as coisas mudassem.
Naquela manhã, a chuva começou cedo.
Quando acordei, o céu estava cinza e a água batia forte contra a janela.
Fiquei alguns minutos olhando para fora antes de levantar.
Mais um dia.
Mais uma vez.
Tomei banho, coloquei uma roupa simples, peguei minha bolsa e saí.
Pelo menos eu tinha um trabalho.
Era a única coisa que eu conseguia fazer sem pensar demais na minha vida.
Eu trabalhava no asfalto, em uma lavanderia pequena. O lugar não era grande, mas pagava o suficiente para eu me manter.
Só que, até ali, minha fama tinha chegado antes de mim.
Tinha uma menina do morro trabalhando comigo e, aparentemente, ela já havia contado tudo para as outras pessoas.
Ninguém perguntava diretamente.
Mas eu percebia os olhares.
Percebia quando alguém diminuía a voz na minha presença.
Percebia quando evitavam sentar perto de mim.
Então, de certa forma, eu continuava sozinha.
Coloquei o capuz sobre a cabeça e comecei a descer a rua.
A chuva estava ficando mais forte.
Eu só queria chegar à barreira e pegar meu ônibus.
Talvez fosse pedir demais ter uma manhã tranquila.
Porque, alguns minutos depois, ouvi um carro se aproximando.
Nem precisei olhar para saber quem era.
O veículo parou ao meu lado.
Baixei o rosto, fingindo que não tinha percebido.
O vidro desceu.
— Entra.
Continuei andando.
— Bruna, entra no carro.
Olhei de lado e encontrei Morte me encarando.
— Não.
Ele franziu a testa.
— Eu vou te levar para o serviço.
— Não preciso.
— Está chovendo.
— Eu sei.
— Entra.
— Já falei que não.
Ele soltou uma risada curta.
— Você chamou um Uber, né?
Continuei andando.
— Chamei.
Era mentira.
Eu ia de ônibus.
Ele percebeu.
— Está mentindo.
— Não estou.
— Você vai de ônibus e vai chegar toda molhada no serviço.
Parei por um instante e virei para ele.
— E o que você tem a ver com isso?
— Nada. Só estou tentando ajudar.
— Então me ajuda ficando longe de mim.
O sorriso dele desapareceu.
— Para de orgulho, Bruna.
— Não é orgulho.
— É o quê?
— Nojo.
Ele ficou em silêncio.
Eu continuei andando.
Ouvi o carro me acompanhando por alguns metros.
— Uma hora você vai entender que ninguém vai querer você além de mim!
Ignorei.
— Você precisa de alguém!
Ignorei novamente.
— Eu sou o único que não tem medo da sua maldição!
Foi aí que comecei a andar mais rápido.
Não queria ouvir aquilo.
Não queria olhar para ele.
Não queria passar mais um minuto perto daquele homem.
Quando percebi que ele continuava me seguindo, entrei em um beco estreito.
Eu conhecia o morro melhor do que ele imaginava.
Sabia que por ali ele não conseguiria passar com o carro.
Assim que entrei, comecei a correr.
Corri como se minha vida dependesse daquilo.
Desci o morro pelas ruas estreitas, desviando das poças, sentindo a água encharcar meus tênis.
Meu coração batia rápido.
Minha respiração estava pesada.
Mas eu não parei.
Só parei quando cheguei perto da barreira.
E, por sorte, meu ônibus estava passando naquele exato momento.
Levantei o braço.
O motorista freou.
Entrei quase tropeçando.
Passei a mão pelo rosto, tentando recuperar o fôlego.
Estava molhada, cansada e com o coração apertado.
Sentei no primeiro banco vazio e encostei a cabeça no vidro.
Enquanto o ônibus começava a andar, olhei para o morro ficando para trás.
Aquela era a minha vida.
Uma vida que eu nunca tinha escolhido.
Uma vida em que eu era conhecida por uma coisa que não podia controlar.
O Anjo da Morte.
A garota que sobreviveu quando todos morreram.
A mulher que ninguém queria por perto.
Fechei os olhos.
Eu odiava tudo aquilo.
Odiava minha solidão.
Odiava os olhares.
Odiava os cochichos.
Odiava a maldita fama.
E, principalmente, odiava não conseguir enxergar um futuro diferente.
Mas, apesar de tudo, ainda havia uma pequena parte de mim que acreditava que as coisas poderiam mudar.
Talvez não hoje.
Talvez não amanhã.
Mas um dia.
Eu só precisava continuar sobrevivendo até esse dia chegar.
Porque, depois de tudo que eu tinha enfrentado, talvez essa fosse a única coisa que eu realmente soubesse fazer.
Sobreviver.