capítulo 02

1682 Palavras
Morte narrando Eu nunca fui um cara que teve muita sorte na vida. Desde moleque, aprendi que, se eu quisesse alguma coisa, teria que correr atrás. Ninguém nunca colocou nada na minha mão. Ninguém nunca perguntou se eu estava com fome, se precisava de roupa nova ou se tinha onde dormir. Fui criado por uma tia. E dizer que ela me criou é até exagero. Ela me deu um teto. Só isso. Carinho? Nunca conheci. A mulher só se preocupava com os homens que apareciam na porta de casa com dinheiro no bolso. Se o cara chegava com uma nota boa, ela abria um sorriso. Se aparecia de mãos vazias, nem fazia questão de esconder a cara de desprezo. Eu cresci vendo aquilo. Aprendi cedo que dinheiro comprava atenção. Talvez tenha sido por isso que, quando entrei para o corre, eu não senti culpa nenhuma. No começo, eu era só mais um moleque fazendo entrega, levando carga de um lado para o outro, ficando de olho nas ruas e aprendendo como aquela p***a funcionava. Eu não tinha medo. Esse foi o meu diferencial. Enquanto os outros tremiam diante de certas situações, eu ficava parado, olhando. Enquanto alguns pensavam duas vezes antes de puxar o gatilho, eu não pensava nenhuma. E isso chamou atenção. Quando minha tia descobriu que eu estava metido com o crime, não tentou me tirar daquela vida. Não perguntou se eu estava sendo ameaçado. Não disse que tinha medo de me perder. Ela simplesmente olhou para mim e falou: — Eu não vou sustentar bandido. Eu lembro até hoje daquele tom. Frio. Como se eu fosse um estranho dentro daquela casa. — Se é essa vida que você quer, então sai daqui. Eu olhei para ela. Esperei algum arrependimento. Não veio. Então peguei minhas poucas coisas, coloquei dentro de uma mochila e saí. Sem despedida. Sem abraço. Sem olhar para trás. E foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Porque, a partir daquele dia, eu entendi que não devia nada para ninguém. Eu estava sozinho. E, quando um homem entende que está sozinho, ele fica perigoso. Cada dia que passava, eu subia um pouco mais. Comecei como vapor. Depois passei a ter mais responsabilidade. Mais confiança. Mais respeito. E também mais inimigos. O problema é que eu nunca tive dificuldade para lidar com inimigo. Quem cruzava o meu caminho acabava descobrindo rápido que eu não era o tipo de homem que ameaçava duas vezes. Eu fazia. Foi assim que surgiu meu nome. Morte. Não fui eu que escolhi. Foram eles. Porque os caras começaram a comentar que ninguém que entrava no meu caminho saía vivo. Eu não sentia pena. Não sentia culpa. Naquela época, já tinha entendido que, naquele mundo, hesitar podia custar a própria vida. Então eu não hesitava. Com o tempo, até sendo apenas um vapor, eu já tinha mais respeito do que muito homem que ocupava posição importante. Os caras me ouviam. Os vapores mais novos me respeitavam. Até os mais antigos sabiam que era melhor não brincar comigo. E foi aí que Foguete começou a prestar atenção em mim. Foguete era o antigo dono do morro. Um cara esperto. Não era burro o suficiente para ignorar o que estava acontecendo debaixo do próprio nariz. Ele sabia do respeito que eu tinha conquistado. Sabia que os caras me acompanhavam. E sabia que, se eu continuasse crescendo daquele jeito, mais cedo ou mais tarde eu poderia querer o lugar dele. Então decidiu agir primeiro. Uma noite, mandou os caras dele me apagarem. Talvez ele achasse que eu estaria dormindo. Talvez achasse que eu estivesse sozinho. Talvez simplesmente tivesse esquecido quem eu era. Foi um erro. Quando os caras chegaram, eu já estava preparado. Não vou mentir. Foi uma noite pesada. Mas nenhum deles conseguiu fazer o que tinha ido fazer. Um por um, eu derrubei. Depois que terminei, peguei o carro e fui atrás do Foguete. Eu não queria mandar recado. Queria olhar nos olhos dele. Queria que ele entendesse que tinha escolhido o homem errado para tentar eliminar. Naquela noite, a história do morro mudou. E eu também. Depois daquele dia, eu deixei de ser apenas o Morte. Eu virei o dono. Conquistei meu lugar. Na força. No respeito. No medo. E, para falar a verdade? Eu amo essa vida. Gosto do perigo. Gosto do poder. Gosto de entrar em um lugar e ver todo mundo abrir espaço. Gosto de dar uma ordem e ver ela sendo cumprida. Gosto de saber que, quando alguma coisa acontece no morro, todo mundo sabe a quem deve procurar. Eu lutei muito para chegar aqui. E não pretendo perder. Engraçado é que agora minha tia resolveu lembrar que eu existo. Depois de anos dizendo que não sustentaria bandido, agora vive aparecendo atrás de mim. Quer dinheiro. Quer ajuda. Quer isso. Quer aquilo. Ela sempre gostou de dinheiro. A diferença é que agora eu tenho dinheiro para dar e vender. Mas não dou porque esqueci o passado. Dou porque posso. E porque gosto de lembrar que aquela mulher que me colocou para fora de casa hoje precisa bater na minha porta. Só que, no meio de toda essa loucura, existe uma pessoa que não abaixa a cabeça para mim. Bruna. A mina é diferente. No morro, todo mundo conhece a história dela. E todo mundo chama ela de Anjo da Morte. A história é cabulosa. Perdeu os pais em um acidente. Foi morar com a tia. Depois a tia morreu em um incêndio. E ela? Sobreviveu. De novo. Desde então, começaram a dizer que a morte acompanha aquela mulher. Que quem se aproxima dela acaba morrendo. Que ela carrega uma maldição. Eu não acredito nessa p***a. Nunca acreditei. Para mim, gente morre porque existe motivo. Acidente acontece. Crime acontece. Doença acontece. Não existe maldição. Mas confesso que a história dela mexeu comigo. Não pela lenda. Pela solidão. Porque eu conheço aquela expressão que ela tenta esconder. A de quem aprendeu a não depender de ninguém. Talvez seja justamente por isso que ela não tenha medo de mim. Enquanto todo mundo abaixa a cabeça quando eu passo, Bruna me encara. Quando eu falo, ela responde. Quando eu mando, ela diz não. E isso me deixa puto. Mas também me interessa. Já passei a visão para aquela mulher. Ela vai ser minha. Pode reclamar. Pode me mandar embora. Pode dizer que me odeia. Pode até continuar fugindo. Eu tenho paciência. E se existe uma coisa que aprendi nessa vida é que algumas conquistas levam tempo. Bruna pode demorar o quanto quiser. Mais cedo ou mais tarde, vai perceber que eu sou o único disposto a ficar por perto. O único que não tem medo da fama dela. O único que não vai sair correndo porque alguém inventou que ela traz morte. Enquanto isso, o pai também tem necessidades. Não sou santo. Nunca fui. E não pretendo ser. Tenho minhas mulheres. As meninas que trabalham para mim sabem muito bem como me agradar, e eu não fico reclamando quando preciso aliviar a cabeça depois de um dia cheio. Mas nenhuma delas me faz pensar como Bruna. Nenhuma. E isso é uma merda. Porque eu não gosto de ficar pensando demais. Ainda mais em mulher. Hoje mesmo eu trombei com ela. Estava chovendo pra c*****o. Eu estava passando de carro quando vi aquela figura descendo a rua, toda encolhida por causa da chuva. Bruna. Sozinha. Como sempre. Parei o carro do lado dela e abaixei o vidro. — Entra. Ela nem quis olhar direito para minha cara. — Não. Continuei acompanhando ela. — Vou te levar para o serviço. — Não preciso. — Está chovendo. — Eu sei. Aquela resposta seca quase me fez rir. — Você chamou um Uber? Ela disse que sim. Mentira. Eu conheço aquela mina. Sabia que ela ia pegar ônibus. — Está mentindo. Ela continuou andando. — Você vai de ônibus e ainda vai chegar toda molhada no serviço. Para de orgulho e entra logo. Eu estava tentando ajudar. Do meu jeito, claro. Só que ela parou. Virou para mim. E me olhou daquele jeito que só ela consegue. — Não é orgulho. Franzi a testa. — Então é o quê? Ela respondeu sem nem piscar: — Nojo. Nojo. A palavra ficou ecoando na minha cabeça por alguns segundos. Ela virou as costas e saiu andando. Depois começou a correr. Entrou em um beco e sumiu. Eu fiquei parado dentro do carro, olhando para o lugar onde ela tinha desaparecido. Na hora, fiquei no puro ódio. Quem aquela mulher pensava que era? Eu estava oferecendo carona. Eu estava tentando ajudar. E ela me manda uma p***a de um “nojo” na cara? Apertei o volante com força. Mas, depois de alguns segundos, comecei a rir. Porque, no fundo, aquilo só deixou tudo mais interessante. Ela podia sentir nojo. Podia sentir raiva. Podia fugir. Podia continuar fingindo que eu era a pior coisa que já apareceu na vida dela. Não fazia diferença. Eu já tinha decidido. Bruna seria minha. E não importava quanto tempo demorasse. Uma semana. Um mês. Um ano. Eu esperaria. Porque ela ainda não entendeu uma coisa. Eu não estou interessado na lenda. Não estou interessado no Anjo da Morte. Estou interessado na mulher que existe por trás desse nome. Na mulher que perdeu tudo. Na mulher que vive sozinha. Na mulher que olha para todo mundo como se estivesse esperando a próxima tragédia acontecer. E talvez seja justamente por isso que eu não vou embora. Porque, pela primeira vez na vida, eu encontrei alguém que parece tão quebrada quanto eu. A diferença é que eu transformei minha dor em poder. Bruna transformou a dela em distância. E eu vou derrubar cada uma dessas barreiras. Nem que precise ter paciência. Nem que ela me odeie durante o processo. Porque, querendo ou não, ela ainda vai descobrir que, quando todo mundo decidiu abandoná-la... Eu fui o único que ficou. E quando esse dia chegar, ela vai entender que a morte que ela tanto teme nunca foi a minha. Foi o mundo que ela conheceu antes de mim.
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