Lavínia narrando
Após a reunião cansativa, finalmente somos liberados para tomar café da manhã de verdade, não a barrinha de cereal que nos serviram. Sinto meu estômago reclamar de fome, e minha mente só consegue pensar na possibilidade de uma refeição decente. O Brad, sempre impaciente, pula a fila, pegando apenas o que gosta e vai se sentar em uma mesa vazia. Enquanto pego salada de frutas, vejo uma garota indo falar com ele. Observo de longe, ela sorrindo e soltando o cabelo. Ela encosta a mão no braço dele, mas ele a tira rapidamente, me deixando com raiva por ela ousar encostar nele.
Pego qualquer coisa de beber e ando com pressa até ele:
— Oi, fofa, a mesa está ocupada — ela tem a ousadia de falar.
— Está mesmo, por mim — coloco minha bandeja na mesa, e ela ergue a sobrancelha.
— Me encontra depois no meu quarto, tá? Eu te espero — ela tenta lhe entregar um papel, mas ele recusa.
— Acho que não — ele tenta ser educado, e nem me esforço a fazer uma cara simpática.
Essa ragazza s*******o deve ser suicida para chegar perto dele, só pode ser.
— Peguei uma tortinha para você — ele fala, me oferecendo, e ignoro, focada em minha comida. — Lavínia?
— Por que você não leva pro quarto dela a tortinha? — Ele faz uma cara confusa e balança a cabeça, não entendendo enquanto se levanta. — Aonde vai, Brad Morningstar?
— Obedecer o que você disse — ele fala, e nada gentilmente puxo seu braço para baixo.
— Vai p***a nenhuma, você é meu — falo baixinho, e ele sorri, me roubando um pedaço de fruta que eu espetava.
— Essa é a Lavínia que eu gosto.
— Ama ver o circo pegar fogo, né, garoto?
— Amo, mas só se foi você que incendiou — ele me manda um beijo, e reviro os olhos, me fazendo de difícil.
[...]
Tiro as botas, jogando debaixo da cama. Puxo meu notebook e ligo diretamente para minhas mães, animada com a possibilidade de voltar para casa.
— Oiii, figlia, que saudade, meu pêssego — minha mãe Alice atende, e sorrio.
— Oi, mama, como você está?
— Com saudade de você, bambina.
— Por isso que liguei. Queria saber se já é seguro voltar — ela olha para algo que não consigo ver. — O quê? A dona Cecília está por perto? Queria perguntar algumas coisas para ela também.
— Oi, filha — ela fala, aparecendo. — Como você está linda? Esse penteado fica bem em você.
— Mãe, não muda de assunto, por favor. Eu sei que você ouviu. Já posso voltar? — ela n**a com a cabeça, e suspiro, disfarçando a vontade de chorar. — Por quê?
— Não fica triste, bambina. Estamos mais perto do que nunca. Faltam só dois herdeiros casarem e assumirem as máfias, aí você está livre para voltar, e terão esquecido — minha mãe Alice sai do escritório chorando. Ela não consegue lidar bem com esses assuntos por ser mais sentimental.
— Mas não tem nenhuma chance deles terem mudado de ideia? — pergunto com o restinho de esperança.
— Não, eles têm muito interesse no território e fortuna da Camorra. Querem ganhar isso ou por união, ou guerra. No menor sinal da sua volta, eles atacarão, mi amore.
— Então mais um ano aqui?
— Ou mais — ela fala e se serve com algo para beber. — A vida fudida de uma mafiosa. Culpe o seu tio que abandonou o posto. É o que eu faço quando sinto sua falta.
Ela fala bebendo, e deixo minha cabeça cair na cabeceira.
— Como está a máfia? Tudo certo?
— Sim, compramos uma nova arma no mercado e estamos expandindo para vendas internacionais na América do Sul. Temos tido um bom aumento. Você vai ver no relatório mensal.
Com medo de eu voltar e não saber de nada, sempre tenho acesso às situações da máfia. Tenho que conhecer estritamente bem para minha ascensão futura.
— Eu olhei a última folha de pagamento, mãe. Por que o Matteo está na lista? — pergunto, querendo mudar de assunto para o meu primo, um que já faz mais de seis anos que não tenho notícias.
— Ele desistiu da carreira na medicina, quis se tornar mafioso e ameaçou seu tio a ir para uma rival se eu não o aceitasse. Então o cabeça oca está aqui — ela mostra claramente seu descontentamento enquanto fala.
— Sem potencial?
— Eu aposto mais na resistência de uma das nossas portas do que nele. Seu tio não o ensinou absolutamente nada, acredita? Ele só jogou futebol na infância. Futebol? Nunca teve um arco e flecha ou luta corporal.
— Mas ele tem tempo até virar um soldado. Não precisa começar direto na ação.
— Acredita que ele se ofereceu a ser o futuro capo da Camorra? Argumentando que se o pai dele não tivesse me passado, ele devia entrar agora. Só não matei aquele ragazzo porque o Lorenzo ficaria furioso, mas o puni severamente aqui e ameacei mandá-lo embora. Se fosse qualquer um, teria morrido ali.
— Por isso eu preciso voltar, mãe. As pessoas estão achando que eu desisti por medo.
— Eu já falei que não, Lavínia Spellman Cordopatri. Não é somente a sua e a minha vida em risco. É a vida de toda nossa família em risco na guerra.
— Eu não posso lutar com eles ou algo assim? — ela n**a com a cabeça.
— O melhor é se esperar. Você não nasceu de cinco meses, então consegue. Tchau, bambina.
— Tchau, dona Cecília — falo, triste, desligando.
Porra, eu jurei que teria a notícia mais feliz hoje. Acho que estou devendo a todos por me ausentar desse jeito, principalmente ao Brad, que tirei da família dele, e ele fica aqui o tempo todo. Ele sofreu tanto por minha causa. Queria poder colocar todas as cicatrizes e traumas dele em mim para pagar uma parcela do que ele faz por mim. Ando pelo quarto, ligando a torneira da banheira. Procuro uma garrafa de vinho, e sem abridor, puxo com os dentes, dando o primeiro gole.
— Um brinde a mim mesma, Lavínia Cordopatri, a herdeira que nunca herda — falo em frente ao espelho, bebendo.
Tiro minhas roupas e tento não sentir repulsa da minha pele coberta de cicatrizes e machucados ainda não cicatrizados. Os treinos aqui são muito mais pesados do que qualquer um diz. Pelo menos tive a sorte de só passar por duas cirurgias que minha família não tem nem ideia lá na Itália. De restante, talas e muitos pontos sempre resolveram. O r**m mesmo é não poder cobrir ainda, sem tatuadores por perto nunca consegui uma tatuagem decente. Sei a história de todas da minha mãe e a história do que elas cobrem. Aposto que eu teria muito mais tatuagem do que ela tem se eu for cobrir tudo.
Mas a máfia russa não é tão r**m cem por cento do tempo. Com o tempo, você se acostuma. A língua também e consegue aprender muitas outras. Os whiskys são bons e os carros incríveis. Tudo bem que nada se compara às poucas vezes que dirigi um helicóptero em fuga. E ter o Brad em metade dessas aventuras já faz tudo mais leve e alegre.
Ele sempre sabe como me fazer sorrir, mesmo nos momentos mais difíceis. Lembro das vezes em que ele me salvou, não só fisicamente, mas emocionalmente. O apoio dele é inestimável. E cada pequena coisa que ele faz me faz perceber o quanto ele me ama. Ele é minha rocha, meu porto seguro.
Enquanto me deito na banheira, sinto a água quente relaxar meus músculos tensos. Fecho os olhos, deixando minha mente vagar. Penso em como seria voltar para casa, ver minha família, meus amigos. Sentir o cheiro familiar da minha terra, ouvir os sons das ruas que conheço tão bem. Mas por agora, estou presa aqui, esperando que tudo se resolva. E enquanto isso, tenho Brad ao meu lado, me dando forças para continuar.