Lavinia narrando
Tiramos uma foto comendo macarrão como um casal de turistas, e o Brad sorri, lambendo meu lábio sujo de molho pessimamente tentando me seduzir, mas só consigo rir me limpando própriamente com um guardanapo.
— Que saudade eu estava de uma comida caseira — falo para ele, que concorda, enchendo a boca.
Observo as ruas cheias de turistas e tento lembrar das vezes que passava por aqui sem dar importância, concentrada em algo diferente.
— Iremos hoje à noite para casa? — ele pergunta, e assinto.
— Eu não queria levar nossas coisas para casa. Deixar como um plano de fuga caso aconteça algo.
— Bom, então vamos tomar um gelato olhando a rua e depois vamos para nossas casas?
— E nos encontramos no jantar. Lembre de ir no porta-malas dos seus pais, ninguém pode nos ver — falo, e ele me beija mais uma vez.
— Plano perfeito. Tenta não levar um tiro da sua mãe, ok? Adoro minha sogra que não ter esse papel em minha vida, mas ela é um pouco... exaltada
— Tenta não ser esfaqueado pelo seu pai — falo, lembrando de como o senhor Morningstar é bom com facas. Brad ri, assentindo, e levantamos a mão pedindo a conta.
Pago enquanto ele bebe o fim do meu suco, e nos levantamos de mãos dadas. É tão bom estar em um lugar público sem se preocupar com nada. Não exatamente sem se preocupar, mas só de poder demonstrar afeto por quem realmente gosto já é o suficiente.
— Também senti saudade do sol, minha linda pele n***a estava sem um destaque, vou ficar um dia todo no sol querida, ser seu n***o novamente
Apenas beijo seus lábios rapidamente não resistindo ao seu jeito único
[...]
Pego meus dois gelatos e saio antes do Brad, que ainda escolhe o dele. Sento-me em um banco da praça e observo todos enquanto como. Franzo as sobrancelhas ao reconhecer meu tio Lorenzo sair de um prédio preto. Ele olha em volta procurando algo, mas não consegue me ver.
Ele anda para um carro do outro lado da rua e sai apressado. Uma pena eu não poder falar com ele ainda, estou morrendo de saudade.
— O que foi?
Olho para Brad, que me analisa preocupado, e aproveito a oportunidade para roubar de seu gelato.
— Vi meu tio.
— Ele te reconheceu? — n**o com a cabeça, e ele assente. — Temos que ir então. Você não pode andar muito por causa da... — Ele não fala a palavra "gravidez" e apenas olha para minha barriga carinhosamente.
— Vou pegar alguns táxis até lá e ando o restante sozinha. Quer uma arma? Tenho cinco comigo e não te vi pegando — falo e me movo para pegar, mas ele leva minha mão à sua cintura, onde leva duas pistolas.
— Não acredito que veio despreparada apenas com pistolas — ele fala fingindo incredulidade para mim.
Levo sua mão para minha nuca, fingindo ser um carinho, e ele sente as lâminas.
— Tenho mais. Te vejo à noite — falo, e o beijo rapidamente, andando para o táxi que parava por perto.
Entro falando o endereço e olho pela janela, vendo Brad sair e correr para um mototáxi de turistas. Sinto um vazio no peito e me preparo para enfrentar a fúria de dona Cecília ao saber que um estranho invadiu sua casa.
[...]
Vejo apenas a janela do sótão aberta e respiro fundo, buscando fôlego para a escalada. Sem ninguém na patrulha da parte de trás da casa, sou rápida usando o cano de queda d'água como apoio.
Rolo para dentro, puxando minha arma. Espero alguns minutos, e quando ninguém invade ou atira do andar de baixo, me movimento pelo cômodo com passos cuidadosos para a madeira velha não me delatar.
Abro o alçapão e pulo na escada, sem opção de manter silêncio. Escuto a porta da entrada abrir e risadas delas. Ando para o quarto principal, querendo que elas vejam o rastro que deixei.
Seus passos sobem para o segundo andar, e o silêncio começa a reinar, mostrando que perceberam algo. Fecho as cortinas do quarto, mantendo tudo escuro, e vou para trás da porta, apontando duas pistolas para o primeiro que entrar.
Sorrio escutando seus sussurros e passos lentos. Elas abrem a porta devagar.
— Sabemos que você está aqui, p***a — o doce da dona Cecília fala, e mostro o cano da minha pistola. Ela faz o mesmo.
— Estamos em maior número — minha mãe Alice fala, séria.
— Será mesmo? — digo, dando um passo para o lado, me revelando. Ainda sem abaixar as armas, ergo a sobrancelha sorrindo com os lábios. O choque delas é impagável. — Não ganho um abraço, mães?
Dona Alice pula em mim, rindo, e abaixo as armas, a abraçando. Finalmente, a carrancuda abaixa o fuzil, vindo até mim. O abraço dela é mais bruto, mas ainda assim mostra tudo.
Choro de felicidade, apertando mais elas e beijando seus rostos com lágrimas.
— Você está tão linda, filha. Amadureceu — minha mãe Alice fala, me encarando bem e limpando minhas lágrimas. — Amei seu novo estilo e maquiagem.
— Obrigada, mãe. Você continua radiante, e com o mesmo perfume — falo, fechando os olhos e sentindo o aroma tão familiar de que senti falta.
— Está linda, filha. Precisando de tatuagens, na minha opinião, mas postura impecável. Só péssima invasão — ela fala, e reviro os olhos sobre suas críticas, a abraçando novamente.
— Senti saudade até de você sendo cri-cri no meu ouvido — falo, e ela ri.
— Como conseguiu entrar sem ninguém te ver, pequena? Se machucou? — minha mãe me puxa dos braços de dona Cecília e me olha quase do avesso.
— Estou bem, nada que eu não fui preparada para fazer.
Falo, e apenas nos observamos em silêncio por um tempo.
— Por que voltou? — ela pergunta, séria, e minha mãe Alice a olha brava.
— Vamos aproveitar primeiro, Cecília. Filha, quer comer algo? Dormir? Cadê o Brad?
— Podemos ouvir minha mãe? À noite eu explico. Vamos receber os Morningstar em segredo para um jantar — falo para dona Cecília, que, mesmo séria, assente.
— Você não podia voltar, filha. Não é seguro.
— Ninguém sabe que voltei. Fizemos o caminho mais difícil e longo. Para vir para cá, tive certeza de que não estava sendo seguida. Fiquem tranquilas, ninguém pode saber que voltei e o porquê ainda. Nem mesmo os funcionários daqui.
— Vou arrumar isso — ela fala, saindo, e minha mãe pula em mim, nos jogando na cama.
Não consigo evitar de rir, e ela me olha animada.
— Me conta tudo.
— Ok, o que quer saber primeiro? — ela para para pensar, mas logo sorri.
— Você e o Brad continuam juntos, namorando? Nunca soube ao certo, já que vocês não davam detalhes e eu ficava prestes a ir para o túmulo de tanta curiosidade.
— Sim, é meio que diferente nossa relação. Teve um pedido formal uma vez, mas não temos aliança pelo serviço, e acabamos nunca mais tocando no assunto.
— Ah, eu sabia! Desde a época que vocês eram pequenos, ele é grudado em você. Tudo bem que, na adolescência, achei que ele era gay pelo jeito que falava e agia, mas do mesmo jeito que as dúvidas começaram, foram embora. — Ela parece ter algo a mais para falar, mas fica em silêncio, acariciando meu rosto enquanto me olha feliz, acho que por minha chegada, pelo menos espero isso.
— Pode falar — a olho, ignorando sua ruguinha de preocupação.
— Eu estava com muita saudade, mas tenho tanto medo de você estar aqui e algo acontecer — ela fala e me abraça mais forte.
Sem ter o que falar para reconfortá-la, beijo sua mão, segurando-a em meu rosto.