Um tempo e dias depois
Lavinia narrando
Vejo pela janela o helicóptero chegando. O capo da Máfia Russa veio após eu dizer ao diretor daqui que iria embora e pedir sigilo total. Ele aceitou, mas disse que eu teria que falar com o chefe, que quase ninguém nunca viu.
Eu o vi apenas uma vez, pela tatuagem dele, em uma missão realizada no cassino. Eu estava observando e reparei na tatuagem enquanto uma garota tirava sua blusa e dançava em seu colo.
Existem certas tatuagens que são apenas para os chefes. Por exemplo, na Itália, a maioria tem um olho desenhado no ombro, e ele tinha uma estrela acima de uma tatuagem de Cristo. Todos os membros da máfia por aqui fazem um Cristo ou outra figura religiosa no presídio, mas apenas o chefe pode fazer uma estrela no centro do peito.
E eu sei que ele me viu naquela noite. Ele piscou para mim e fez um sinal de arma sendo abaixada. Não sei o que significou exatamente, mas sei que ele sabia o que estava fazendo lá.
Vejo ele sair do helicóptero com uma toca preta que cobre totalmente seu rosto. Ele anda com seis guardas que aparecem do nada, e fecho minha cortina quando me olham.
— Finalizei minha mala grande. Deixei roupa para uns três dias. Acha que nos liberam ainda hoje? E os uniformes? Eu tô acostumado e até gosto deles. Será que posso levar ou tem que devolver? — Brad chega no meu quarto falando, e não consigo segurar o sorriso.
— Quem era o ansioso da relação mesmo?
— Acho que a gente divide o papel muito bem — ele fala, se jogando na minha cama, e fecho minha mala.
— Como acha que vai ser a reação dele? — pergunto, curiosa sobre sua opinião, e ele pensa por um minuto.
— Ele vai rir, talvez bater na mesa no meio da risada, vai fazer alguma piada, falar parabéns e depois falar sério da nossa saída.
— Duvido. Ele é chefe, deve falar sério e depois falar algo babaca, talvez dizer que devemos a ele pela ajuda que nos ofereceu quando minha mãe implorou.
Brad fecha a cara quando batem na porta, e ando devagar para abrir.
— A senhora foi requisitada — um segurança de óculos fala olhando para frente sem diretamente ser para mim.
— Estamos indo — Brad diz se levantando.
— Não, apenas a garota. — Assinto e fecho a porta na cara dele, indo até Brad.
— Vai dar certo. Traga suas malas para cá e se despeça do seu quarto, que se eu conseguir vamos ainda hoje. — Falo e ele concorda mesmo estando emburrado. — Eu sei me cuidar.
— Eu sei, mas odeio te deixar sozinha — ele fala e abaixa o rosto no meu pescoço, dando uma fungada forte que me faz rir.
Batem na porta mais uma vez, e me desvencilho dele saindo. Não falo nada quando abro a porta e o deixo ir na frente apenas seguindo.
Fazemos um caminho confuso, e na verdade nunca reparei aqui. Vejo que a segurança está muito maior e todos comentam sobre.
— O chefe te espera — ele fala indicando a porta, e não hesito abrindo de uma vez.
— Feche — a voz grossa aterrorizante fala, e obedeço. — Sente-se.
Ele fala e, quando termino o gesto, ele arranca a máscara preta que cobria seu rosto. Não consigo negar que estou surpresa.
Imaginava um mafioso bonito, igual a maioria que conheço são, e se não nascem a plástica faz ser.
— Surpresa? — ele pergunta bebendo, e penso em ser verdadeira ou não. No fim, opto por concordar.
— Sim.
— Gosto de saber o que as pessoas imaginavam. Conte, agora.
— Imaginei você mais Brad Pitt, sem ofensas.
Ele não muda sua feição e continua bebendo, me dando chance de analisá-lo melhor. Ele tem cicatrizes por toda parte de baixo do rosto. Sua barba cobre boa parte, mas ainda é visível. Tem sobrancelhas grossas e escuras, uma cicatriz recente no lábio e, surpreendentemente, piercings na orelha. Ele tem em média cinquenta anos de idade e parece mais velho do que me lembrava.
— Você sem aquela maquiagem e vestido extravagante da missão fica bem mais bonita — ele fala, e me surpreendo por ele estar me analisando também.
— Você se lembra então?
— Nunca me esqueço de um rosto, ainda mais de um que foi muito útil e se destacou durante esses anos. Estou curioso, Cordopatri, por que quer sair daqui sem avisar ninguém? Se não vai assumir sua pequena máfia, por que a pressa?
— Tive uma pequena surpresa recentemente e terei que ir embora e me ausentar. — Ele fica em silêncio esperando que eu conte, e sou direta. — Estou grávida.
A reação dele me irrita imensamente por ser igual à que o Brad chutou. Ele ri dando uma palmada na mesa e voa até gotículas de sua boca pelo ar.
— Acho que vou ter que perguntar sobre as aulas corporais que você teve — ele fala ainda rindo, e respiro fundo propositalmente para ele voltar ao foco.
— Podemos continuar?
— Meus parabéns, Cordopatri, um futuro herdeiro vindo ao mundo. Beba. — Ele me serve uma dose de whisky e n**o. — Que isso, todas as mães beberam nas gravidezes até uma década atrás e nasceram todos saudáveis.
Como não mudo, ele revira os olhos e brinda sozinho, bebendo as duas doses.
— Você quer ir quando?
— O mais breve possível.
— Que horror, desse jeito vou pensar que minhas instalações não eram confortáveis a seu agrado.
— Só não era o meu lar — falo, tentando ser educada.
— Se quiser ir agora, esteja pronta em quinze minutos. Imagino que com o pai do bebê e suas malas. Te levarão até a Itália e você perderá a proteção que lhe prometemos durante esses anos. Você estará por conta própria. Mais uma vez, parabéns pelo herdeiro.
— Obrigada, por tudo, senhor... — Deixo no ar querendo saber seu nome, e ele se levanta, oferecendo a mão em um aperto que retribuo.
— Melhor não saber meu nome. Você já tem problemas demais pela frente. Boa sorte, garota.
Assinto mais uma vez e dou as costas, indo embora. Bater as botas para não levar nem a poeira seria muita ingratidão?
Enfim, o que importa agora é que vou poder ir para casa. Não vejo a hora de ver minhas mães e abraçá-las. Já faz tanto tempo que não consigo lembrar nem do cheiro delas.
[...]
Me apoio na pilastra tonta e com náuseas. Reviro os olhos ao ver Brad com uma câmera antiga tirando fotos. Ele me abraça tirando mais e o empurro indo na borda do navio vomitar.
— Não tinha algo menos... flutuante? — pergunto ao homem que nos trouxe.
— Você que quis sair com pressa. Se tivesse dado mais tempo, estariam voltando de helicóptero.
— Ei, vamos ter um bom tempo de férias, vendo o oceano, animais marinhos e escutando esse barulho. — Ele faz silêncio para que eu escute. — O melhor som do mundo.
Me inclino, colocando tudo para fora de mim mais uma vez. Me jogo no chão, querendo que a tontura passe. A cada balançada, sinto meus órgãos armando para explodir e me fazer vomitá-los.
— Toma — me entregam um comprimido e uma bolacha de água e sal.
Essa viagem vai ser... complicada.