Enquanto Martiniel esperava o amigo chegar, o dono do mercadinho o observava, cada vez mais desconfiado. Martiniel percebe e tenta se manter calmo. Como Martiniel permanecia perto do orelhão em atitude suspeita, o dono do mercadinho vai até ele.
- Já fez sua ligação, jovem? - pergunta o dono do mercadinho. Martiniel sorri, simpatico, tentando quebrar a tensão do momento.
- Já fiz, sim! Meu pai vem me buscar! - diz Martiniel, tentando passar confiança.
- Você se perdeu? Então você não é daqui, é? - pergunta o dono do mercadinho.
- Não, senhor, moro "pra" lá da ponte! - diz Martiniel, apontando para o horizonte. O dono não parecia estar convencido. Martiniel percebe e sua frio.
- Está bem longe de casa, hein? - comenta o dono do mercadinho, desconfiado.
- É, estou sim! Acha que é problema? - pergunta Martiniel.
- Não, é normal se perder por aqui! É um bairro grande, tamanho de muitas cidades do país! - retruca o dono do mercadinho. Nesse tempo, um carro prata para em frente a eles. No banco do lado do motorista estava Zaroio.
- Pronto, já chegou minha carona! - diz Martiniel, se aproximando do carro.
- Mas você disse que seria o seu pai quem viria te buscar! - observa o dono do mercadinho. Martiniel abre a porta traseira e olha triufante para o dono do mercadinho.
- Ah, é que o meu pai trabalha muito, sabe? Então mandou meu irmão me buscar de Uber! - responde Martiniel, embarcando em seguida. Zaroio apenas sorri, irônico. O dono do mercadinho apenas observa, atônito, o carro indo embora. Mais adiante, Martiniel, mais aliviado, procura pelo seu celular.
- Perdi o celular no mangue, Zaroio! - diz, perplexo.
- Martiniel, você escapou de Capitão, de Pirata, de Cavalo e até da polícia e vai se preocupar com o celular? Se toca, cara! - rebate Zaroio, revoltado. Martiniel cai em si.
- Tem razão, Zaroio! - responde Martiniel, conformado.
- Agora "tô" devendo o Uber! - diz Zaroio, desconfortável.
- Ficou devendo a quem? - pergunta Martiniel.
- Ao Isidro, meu vizinho! Eu disse que era para buscar uma namorada! - revela Zaroio.
- Mas você não tem namorada ainda, Zaroio! - diz Martiniel.
- Só assim para ele ser convencido! Ele ficou tão feliz que nem fez questão de me cobrar, mas vou pagar assim mesmo! - devolveu Zaroio, decepcionado. Aproximando-se da comunidade Vinte Léguas, o motorista para.
- Por que paramos aqui? - pergunta Martiniel.
- Foi onde pedi o Uber! Ele não pode subir o morro sem autorização você sabe de quem, né? - responde Zaroio.
- Ah, é, eu tinha me esquecido... - conforma-se Martiniel. Descem do carro. Sobem a encosta do morro em um ponto longe do Barracão. Chegam até uma casa em ruínas no meio da mata.
- Fique aqui! Vou ver se posso trazer um rango "pra" você! - diz Zaroio.
- Obrigado, Zaroio! Te devo essa! - diz Martiniel.
- Tu "tá" me devendo muito mais do que essa, Martiniel! - rebate Zaroio. Martiniel concorda. Zaroio sai rapidamente. Enquanto isso, os homens de Pirata e Cavalo estavam se aproximando de onde Martiniel estava escondido. Eles não sabiam que Martiniel estava por ali perto. Também não viram Zaroio sair, porque os caminhos eram diferentes.
- Tem uma casa abandonada ali, na mata. Decerto, os pivetes podem ter se escondido lá! - raciocina Pirata.
- Acho que o moleque não seria doido para tanto! Ele está sendo perseguido por meio mundo, não viria aqui tão cedo! - objeta Cavalo. Pirata raciocina. Cavalo apenas observa os seus homens se espalhando pela mata.
- Tu "tá" certo, Cavalo! O pivete não é doido de vir aqui, mas foi doido o suficiente para traçar tua mina! - debocha Pirata. Cavalo se irrita com a piada e aponta uma arma na direção dele.
- Olha o respeito, Pirata! - rosna Cavalo.
- Brincadeira, Cavalo! Relaxa, homem! - ironiza Pirata. A muito custo, Cavalo baixa a arma.
- Vamos logo terminar com isso! - diz Cavalo, irritado.
- Tu que manda, Cavalo! - resigna-se Pirata, fazendo um sinal e os homens avançam morro acima. Um sentinela camuflado de Capitão solta fogos de artifício e os pipocos se sucedem. Os homens de Pirata e Cavalo são cercados por todos os lados. Martiniel, ouvindo os pipocos, arrisca-se a olhar o que estava havendo. Percebe a guerra acontecendo, mas não tinha nada a fazer. Estava sem celular e não tinha para onde correr. Resolve apenas aguardar.
- Tu disse que seria fácil, Pirata! - reclama Cavalo, vendo seus homens sob fogo cerrado.
- Não sei o que aconteceu!Até parece que ele sabia que a gente vinha "pra" cá! - rebate Pirata, perplexo. As baixas dos dois lados se sucediam até o limite do suportável.
- Vamos recuar! - decide Pirata. Ele faz uns sinais e alguns homens se retiram, ainda atirando para todos os lados. Pirata e Cavalo tentam uma saída estratégica se separando. Passando perto da saída que dava na passagem secreta, Pirata é agarrado pelo pescoço por alguém forte.
- Fica quieto ou quebro o pescoço! - diz Dente-de-Onça, Pirata percebe o quanto encrencado estava. Cavalo não o viu ser capturado, até porque a mata era densa o bastante para alguém ser ocultado a pouca distância.
- Tu sabe o que "tá" fazendo, cara? - pergunta Pirata.
- Vamos indo! - retruca Dente-de-Onça, arrastando Pirata para outra passagem, a que levava para o Barracão. Enquanto isso, Zaroio, já perto da comunidade, ouvia os pipocos ao longe.
- Espero que Martiniel esteja bem! - pensa consigo Zaroio, apressando-se. No Barracão, Capitão escutava os pipocos com apreensão.
- Estavam vindo "pra" cá, Catraca! - diz Capitão, surpreso. Catraca, preocupado, olha o celular.
- Nenhum aviso ainda! Quer que eu desça para ver? - sugere Catraca.
- Não! Fique aqui até eu dizer o que fazer! - retruca Capitão. Pouco depois chega um dos homens de Capitão.
- Pegamos o Pirata! - diz o homem. Todos os que estavam no Barracão ficam surpresos.
- Agora sim! Vamos nivelar o jogo! - comemora Capitão.
- Vai fazer o quê com ele, Capitão? - pergunta Catraca.
- Espere e verá, Catraca! - responde Capitão, triunfante. Pouco depois alguns homens e Dente-de-Onça aparecem com Pirata capturado. Pirata sorri debochado.
- E aí, Capitão? Como "tá" tua perna? - pergunta Pirata. Capitão apenas o fita com ódio.
- Pirata! Agora que "cê" tá na minha mão, vamos negociar! - diz Capitão, irônico.
- Não tenho o que negociar com você, Capitão! - rebate Pirata, rancoroso. Capitão ri.
- Tu não sabe o que está rolando, né? - ironiza Capitão.
- Tu pode fazer o que quiser comigo, Capitão! Cedo ou tarde o meu pessoal vai virar este teu muquifo de cabeça "pra" baixo e tu não vai poder fazer nada! - ameaça Pirata. Capitão olha sério para Pirata, depois volta-se para Dente-de-Onça.
- Cadê Cavalo? - pergunta Capitão.
- Ele escapou, Capitão! - responde Dente-de-Onça.
- Ele vai voltar, Capitão! Vai se vingar do que o teu pivete fez com a mina dele! - brada Pirata. Capitão olha debochado para Pirata.
- Acho que não, Pirata! Eu tenho a prova de que o pivete é inocente! - rebate Capitão. Pirata gargalha debochadamente.
- Tu não tem é nada, Capitão! - devolve Pirata, rancoroso.
- Aguarde então! - diz Capitão pegando o celular.
- Quem fala? - pergunta Cavalo.
- Cavalo, é o Capitão! "Tô" com Pirata aqui! Também tenho prova do que aconteceu com tua mina naquela noite! - responde Capitão.
- Certo, Capitão, que quer que eu faça? - pergunta Cavalo, tenso.
- Vem aqui "pra" gente trocar umas ideias! - responde Capitão, desligando em seguida. Pirata engole em seco enquanto Capitão sorria raivosamente para ele.
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