Conde olha sarcástico para Pirata. Ju estremece a cada olhar estranho que o Tanque lançava sobre ela.
- Quem diria! O famoso e temido Pirata todo apavorado! - diz Conde, gargalhando.
- Vai! Deixa de caô e diz o que vai fazer com a gente! - diz Pirata, irritado.
- Só para começar, vou te depenar todinho! Tanque, tira tudo o que ele tiver de valor! - ordena Conde. Tanque vai calmamente até Pirata, que tenta escapar, mas é segurado por dois capangas do Conde.
- Sai de perto de mim! Não mexa nas minhas coisas! - protesta Pirata, furioso. Tanque apenas ri, debochando, enquanto chega e vai
tirando o relógio, a carteira e o dinheiro que estava nos bolsos de Pirata. Depois de tirar tudo de valor que Pirata possuía, Tanque vai até o Conde com as mãos cheias.
- Guarde na minha caixa! - ordena Conde. Tanque vai até o carro do Conde e deixa os pertences de Pirata na caixa de papelão que estava no banco traseiro. Tanque fecha a porta do carro e para, esperando novas ordens do Comendador. Pirata ri da atitude do Conde.
- Relaxe, Pirata! Agora sua dívida comigo já diminuiu um pouquinho... - debocha Conde.
- Acha que só tenho isso, Conde? Tu "tá" muito enganado! - diz Pirata, rindo.
- Como eu disse, Pirata, isso é só o começo! - responde Conde, tranquilamente.
- Quero voltar! Não gosto de ficar aqui com vocês! - protesta Ju.
- Por que a senhorita está apavorada? Não sabia que no nosso mundo é assim? - pergunta Conde, debochado.
- Deixa ela fora disso, Conde! Ela não tem nada a ver! - rebate Pirata. Conde ri.
- Ela tem muito a ver sim! Estava com Cavalo por interesse, para levar a cabo um plano que deu r**m, não foi, senhorita? - pergunta Conde, debochado. Ju olha para baixo, encabulada. Não sabia o que responder. Pirata olha reprovador para Ju.
- Achei que ninguém desconfiaria! - diz Pirata, lamentoso.
- Sabe o que é mais engraçado, Pirata? É que a senhorita aí é sua sobrinha! - diz Conde, sarcástico.
- Como você soube disso? - pergunta Pirata, intrigado. Conde olha aborrecido para Pirata.
- Pirata, achei que fosse mais inteligente... Tenho uma rede de informações em todo o território! - duz Conde, chateado, mas sorridente. Pirata olha debochado para Conde, balançando a cabeça afirmativamente, como se soubesse de algo.
- Então vai fazer o quê com a gente, Conde? Vai blefar como faz com os mandachuvas do morro é?- pergunta Pirata, impaciente. Conde não gostou do atrevimento de Pirata e desmancha o largo sorriso que estava armado em seu rosto.
- Você fala demais... Um corretivo te faria muito bem! - diz Conde, acenando para dois capangas. Eles pegam Pirata e o espancam diante das caras, bocas e gritos de Ju. até que Pirata cai, desacordado.
- Tanque, coloque esse traste no carro, bem como a senhorita delicadinha, e os mande de volta para Vinte Léguas! - ordena Conde, irritado. Tanque e dois capangas do Conde pegam Pirata e o colocam no banco de trás do carro preto. Depois Tanque vai até Ju, que resiste, mas mesmo assim o braço-direito do Conde a pega nos braços dela, forçando-a a entrar no banco de trás, pondo-a sobre Pirata. Tanque e outro capanga entram no carro e saem rapidamente em seguida, sob o olhar frio do Conde. Não convencido, Conde chama um dos seus capangas.
- Tenório, vem cá! - diz Conde, voltando para a sombra da árvore, onde estava quando Pirata e Ju foram trazidos.
- Sim, Conde! - responde Tenório, solicito.
- Essa morena, Ju, é mesmo sobrinha do Pirata? - pergunta Conde, incrédulo. Tenório afirma positivo com a cabeça.
- Achei que ela fosse mais inteligente... Está mais para uma deslumbrada... Coitada... Acho que ela pode me ser útil um dia... - revela Conde, sarcástico, com um sorriso malicioso. Tenório balança a cabeça, afirmativamente.
- E o tal do Pirata? Será que ele tem condições de pagar o que te deve, Conde? - pergunta Tenório.
- Aí é que está, Tenório! Talvez sim, talvez não.... Pirata é esperto, mas não tanto... - divaga Conde.
- Quer que eu fale com o pessoal da capital? - pergunta Tenório.
- Ainda não, Tenório! Vamos ver até onde o Pirata vai! Vamos embora!- responde Conde. Tenório abre a porta para o Conde e em seguida entra no lado do motorista e os três carros deixam o local velozmente. Enquanto isso, Martiniel deixava o morro pelo caminho do mangue que já tinha passado quando fugia de Pirata, Cavalo e Capitão. Sai novamente na área nobre da cidade. Segue andando sem rumo certo. Depois de horas de caminhada, quase anoitecendo, consegue identificar um ponto de algum movimento em uma ruela em uma esquina. Vai até lá cautelosamente. Os três caras que estavam no ponto percebem sua aproximação e ostentam suas armas. Martiniel chega devagar, olhando para eles.
- E aí, mano? Que "tá" rolando? - pergunta Martiniel. Os três homens se entreolham. Um deles parecia ter quase a mesma idade de Martiniel. O rapaz sorri desconfiado.
- Chega aí! Vai levar alguma? - pergunta o rapaz. Martiniel sorri, tentando descontrair a situação.
- Não, mano! "Tô" querendo entrar para o movimento de vocês! - responde Martiniel. Os três homens se entreolham desconfiados.
- Por que tu quer entrar no movimento? - pergunta um dos que estavam lá atrás. Martiniel pensa rápido. Um passo em falso e já era.
- Porque "tô" precisando de um trampo! "Tá" difícil hoje em dia, e preciso urgente! - responde Martiniel, tentando passar confiança.
- Espera aqui, mano! - responde o rapaz mais novo. Os três se reunem em um ponto distante de onde Martiniel estava. Decidem falar em tom baixo para Martiniel não ouvir a conversa.
- Que tu acha, Bastião? - pergunta o rapaz mais novo. Bastião olha desconfiado para Martiniel parado na entrada do ponto.
- Sei não, Biro! Pode ser caô dele! - responde Bastião.
- E se não for caô dele? A gente "tá" mesmo carecendo de mais pessoal! Que tu acha, Serrote?- responde Biro. Serrote, o mais velho entre os três, também olha desconfiado para Martiniel por instantes, depois volta-se para os outros dois.
- A gente não decide nada aqui! Tem que levar ele para a chefia! Mas antes vamos espremer ele para ver o que acontece! - responde Serrote. Bastião concorda. Biro olha meio com pena para Martiniel, mas por fim, concorda com os outros dois, até por terem mais tempo de casa. Bastião faz um gesto chamando Martiniel, que se aproxima devagar. Assim que ele chega perto dos caras, Bastião segura-o e Serrote, juntamente com Biro, passam a espancá-lo. Depois de pouco tempo param, largando-o no chão.
- Então tu quer entrar no movimento, mano? - pergunta Serrote. Martiniel se esforça em levantar a cabeça. Sangrava pela boca e pelo nariz.
- S-sim! Quero! - responde Martiniel, com muita dificuldade. Os três caras se entreolham por instantes e concordam em alguma coisa. Levantam Martiniel, Bastião e Serrote o pegam e começam a carregá-lo.
- A gente vai te levar para a chefia, aí, vamos ver no que vai dar! - responde Bastião.
- Biro! Tu fica no ponto! Qualquer coisa sinaliza pra nós! - ordena Serrote. Biro volta para o ponto em que estava. Sobem por uma viela que existiam por trás de algumas casas mais simples comparadas com as demais do bairro. Chegam até uma casa com dois andares, pintada de cinza escuro. Chegam até a porta, batem-na e alguém aparece. Depois entram. A casa estava lotada de homens armados. Adentram o interior da casa, levando Martiniel. Chegam a um cômodo depois do que parecia ser uma cozinha. O que acontecerá com Martiniel?