Pré-visualização gratuita A Marca da Lua e do Céu
Há algo me observando.
Sinto antes mesmo de abrir os olhos. Um peso no peito, como se mãos invisíveis apertassem meu corpo, roubando o ar, esmagando meu peito. Tento me mexer. Não consigo. Tento gritar. Nada.
É como estar viva... dentro do próprio túmulo.
O quarto inteiro parece encolher, como se as paredes se curvassem sobre mim. Um cheiro estranho preenche o ar — não é exatamente cheiro... é como ferrugem misturada com terra molhada e algo mais doce. Doce demais. Quase podre.
E então... sinto.
Ela está aqui.
Uma presença. Feminina. Fria. Antiga.
Não a vejo, mas sei que está ao lado da cama. Sei... porque a sombra dela se estende, se arrasta até meu colchão, como cabelos longos e negros escorrendo pelo chão, subindo pelas paredes, tomando conta de tudo.
Seus olhos estão em mim. Eu os sinto. Queimam. Atravessam minha pele, meus ossos, minha alma.
Ela sabe quem eu sou.
Sabe... até mais do que eu mesma.
Minhas mãos tremem, mas não se movem. Tento abrir a boca. Vazia. Muda. Só resta a voz que não sai pela garganta... mas ecoa na alma:
— Pai nosso que estais no céu...
As palavras são pensamento, são sussurro da alma, são apelos desesperados.
— Santificado seja o vosso nome...
Algo range. Uma porta? Não. É ela. Movendo-se. Aproximando-se.
— Venha a nós o vosso reino...
De repente... o peso alivia. Como se ela tivesse sido arrancada dali, sugada de volta para algum lugar que meus olhos não alcançam. O ar entra nos meus pulmões de uma vez, rasgando, pesado, frio.
Acordo.
Engasgo.
Sento na cama, segurando o peito, arfando, como quem emerge de um pesadelo... ou de um afogamento.
— Só mais um sonho... — minto para mim mesma. — Só mais um sonho... ou não.
Meus olhos percorrem o quarto. Tudo no lugar. As prateleiras lotadas de livros, a planta torta na janela, a luz pálida da lua vazando pela cortina.
Tudo... exceto pelo espelho.
Algo me obriga a olhar.
Lá, na moldura de madeira, uma mancha. Não... não é uma mancha. É uma sombra. Fixa. Parada.
Uma silhueta.
Cabelos longos. Tão longos que parecem pingar pelas laterais do espelho.
Ela não se move. Mas está lá.
Pisco. E desaparece.
O frio sobe pelos meus braços, pelas pernas, até as raízes dos meus cabelos. Minha pele inteira arrepia como se milhares de formigas caminhassem sobre mim.
Levanto. Cambaleio até o espelho. Nada. Apenas meu reflexo.
Apenas eu.
Apenas... ela.
Meus dedos deslizam até o ombro esquerdo, puxando a alça da blusa. E lá está.
Sempre esteve.
A marca.
Uma lua crescente, entrelaçada a um par de asas douradas, gravada na pele como se fosse obra de fogo e luz.
“É só uma mancha de nascença”, disseram minha vida inteira. Mas não é. Nunca foi.
Porque cada vez que esses sonhos vêm... a marca queima.
E ela queima agora.
Engulo em seco. Me obrigo a descer, buscar água, fugir de mim mesma. A casa dorme. Meus pais. Meus irmãos. Todos... pacíficos. Todos... alheios ao que rasteja por baixo da superfície da minha vida.