MAYA:
Ignoro sua presença, tudo que eu menos queria agora era falar com ele.
Se é que era possível aqui, com ele sendo meu chefe.
Kelly se aproxima de mim com o rosto franzido, captando o cheiro de uísque que exala dos meus poros antes mesmo de eu abrir a boca.
— Maya, você bebeu?
ela sussurra, preocupada.
— Bebi. Mas estou bem, Kely. Relaxa.
dou um sorriso forçado, a máscara de frieza voltando para o lugar.
— Eu só... comemorei. Aluguei um lugar pra ficar.
É a maior mentira que já contei, e olha que eu sou especialista nisso.
— Vê se controla isso, fiquei sabendo que o Dono vai aparecer hoje.
— Eu tô bem, vai precisar mais do que uma garrafa pra me derrubar. Relaxa!
O pub começa a lotar.
Um encontro de motoqueiros transforma o lugar em um mar de jaquetas de couro, barbas e risadas graves.
Circulo entre as mesas, servindo doses e ignorando os elogios machistas que voam na minha direção.
Aquilo nem me atinge mais, sou feita de asfalto e cicatrizes.
Quando volto ao balcão com a garrafa vazia, Oliver está sentado com um homem que nunca vi.
O cara tem um olhar clínico, observador.
— Maya?
Suspiro fechando brevemente os olhos, só pra armar meus controles, muros e proteções.
Virei pra eles.
— Maya, este é o Kauan. O proprietário desse lugar,
Oliver diz, a voz carregada daquela autoridade.
Fingir indiferença, afinal.. aquele então era o chefão?
— Prazer, Maya. Gostando do trabalho?
Olhei pro homem com barba bem feita, olhar claro.
— Não tenho do que reclamar, gosto muito.
— Fiquei sabendo que você é ágil com as bebidas.
Olhei brevemente pro Oliver.
O que ele andou falando de mim?
— Posso preparar algo. Vai beber alguma coisa?
pergunto, profissional.
— Um uísque cairia bem.
Kauan responde, me medindo com os olhos.
Ele contou alguma coisa pra ele..
Tava na cara!
não, não... Homens que nem eles não trocariam esse tipo de assunto, do que aconteceu de manhã? Trocariam?
Sirvo os dois sob o olhar atento do Oliver.
— Fiquei curiosa quando recebi elogios sobre a garota que conhece de bebida. Já trabalhou com isso?
Kauan pergunta.
Elogios? Sério?
— Não oficialmente...
respondo, sentindo o peso da mentira da manhã me cutucar.
Porque disse que minha mãe era uma viciada e por isso sair de casa.
— Mas tive bastante acesso. Conheço quase tudo só pelo cheiro.
Kauan solta uma risadinha cética. Oliver me encara, os olhos brilhando com um desafio perigoso.
— Essa eu pagaria pra vê.
O homem fala como um desafio, levantando brevemente seu copo e bebendo a dose.
Oliver vira para mim.
— Não deveria mentir, logo pro dono do lugar.
— Não estou mentindo.
Digo com um olhar serio.
— Você não me conhece pra dizer que estou mentindo.
Ele me olhou com um olhar tão avaliativo, levando o copo até a boca e dizendo antes de beber.
— Não conheço... Ainda.
E bebe aquela bebida me olhando.
Mas o que era isso?
Ainda estava sentindo o efeito anestesiado da bebida. E ele vai ficar em provocando?
Ele não sabe o que está fazendo, nem com quem esta mexendo. Não sabe mesmo.
— Releve o meu amigo, é que é um pouco difícil de acreditar, não me leve a m*l.
Kauan diz inclinando o copo, encho de novo e o Oliver levanta da banqueta.
— Fecha os olhos.
— O que está fazendo?
— Quero que adivinhe o que o Malcon vai servir.
Olhei ele me desafiar na cara dura.
Ele vai mesmo fingir que nada aconteceu?
Olhei pra ele mais seria, e o olhar dele continuou como se eu tivesse fazendo drama.
Reviro os olhos levemente e entro no seu jogo.
— Isso é um desafio?
provoco, encostando as mãos no balcão.
— Se quiser ver assim... pra mim é um teste, vamos saber se não é uma mentirosazinha.
Olha que filho de uma mãe!
— E o que eu ganho com isso?
Arqueio a sobrancelha.
Kauan entra na brincadeira, divertido.
Não sei se devo tomar liberdade com esse cara, ele pode me demitir em dois tempos.
— Você escolhe, garota.
Oh... Isso é perigoso, eles não fazem ideia do que eu posso escolher e eu não vou ter dó.
Nem um pingo de pena desse brutamontes, primata.
— Você não devia dizer isso para uma mulher como eu.
olho fixamente para o Oliver.
— Porque é ele quem vai pagar.
Oliver inclina o corpo para frente, o magnetismo dele tentando me atropelar.
— Peça o que quiser.
Sinto a euforia do álcool misturada com a raiva da manhã.
Sou astuta. Sei que ele tem grana.
E vai ser a coisa mais fácil que vou ganhar na vida.
— Se eu acertar... você me dá um carro, eu sei muito bem que você pode.
Kauan solta uma gargalhada e dá um t**a no ombro do amigo.
— E aí, Oliver? Vai arregar agora ou vai sustentar a banca?
Oliver sustenta o meu olhar.
O desafio está lançado e o ego dele é maior que o bar inteiro.
— Eu pago pra ver. Mas você vai fazer isso direito.
Ele pega um lenço limpo no balcão e se levanta.
— Sai daí, não vai rolar trapaça.
— Trapaceiro aqui é você.
Ele sorri.
— Vamos ver Ferinha...
O que ele me chamou? De fera? Esse cara vai me pagar.
Ele quer brincar? Vamos brincar!
Sai da bancada e fui com eles até os bancos espaçosos. Kauan fez um sinal pro Malcon.
— Pelo cheiro né? Vamos vê.
Oliver para atrás de mim e vira meu rosto, passando o lenço pelos meus olhos.
Tudo se torna escuridão. Não consigo ver mais nada, só sentir seu corpo Perto do meu e seu ego gigante.
— Isso não vai prestar.
Kauan comenta, rindo.
— Ela disse que conhece pelo cheiro.
Oliver murmura perto do meu ouvido, enquanto aperta o nó da venda.
— Quero ver se é tão boa sem olhar.
Toquei a venda sobre os olhos, não conseguia ver nada. Nem mesmo as luzes vermelhas do lugar.
— Vem, senta aqui.
Manda eu sentar no banco de couro da mesa de canto.
— Malcon, trás uma dose de cada.
Kauan diz e senta do outro lado, assistindo ao show.
Sinto a presença do Oliver ao meu lado, o calor do corpo dele colando no meu.
Malcon chega com as garrafas, o som do vidro batendo na madeira soa como tambores de guerra.
— O que vai rolar aqui?
Malcon pergunta.
— Ela está abusando da marra dela.
Oliver responde, a voz vibrando perto do meu pescoço.
— Essa eu não perco por nada.
Malcon completa.
Eu vou adorar pisar nesses caras...
To pronta pra ganhar o carro, mas fácil da minha vida.
Escuto tudo com uma atenção sobrenatural. O som dos gelos estalando, o clique das tampas abrindo, a respiração pesada do Oliver ao meu lado. Até ouvir a voz da Kelly aparecer, confusa.
— O que é isso? Por que ela está vendada?
— Eu vou ganhar um carro, Kely!
zombo, sentindo a adrenalina subir.
— O chefinho vai me dar. Vai perder pra mim em uma aposta.
Nem precisava ver, eu sei que ela ficou em choque.
— Você ficou louca?
Kely pergunta, mas eu já não vejo mais nada.
— Se você ganhar, leva o carro.
Oliver diz, a voz baixa, quase um segredo só nosso.
— Mas se eu ganhar, eu também vou querer algo. Vou pensar no meu prêmio até o fim do desafio, porque eu sei que você vai cair do cavalo, ferinha.
Eu sorrio por debaixo da venda.
Ele não tem ideia. De alguma coisa tem que valer o maldito vício da minha mãe. Todos aqueles anos identificando o que ela bebia para saber o nível da crise, todas as garrafas que escondi...
Todas que bebi depois dos abusos.
Eu vou fazer o Oliver engolir cada palavra.
— Pode servir, Malcon.
digo, confiante.
— E já vai escolhendo a cor do meu carro, Oliver.
Eu nunca perco, nunca.
....