MAYA
Aluguei a diária em um Hotel qualquer de estrada, precisava de tempo pra procurar um lugar fixo.
O quarto cheira a mofo e desinfetante barato, o oposto do loft tecnológico daquele cara.
Mas é aqui que eu pertenço.
Essa aqui era minha realidade.
Jogo a mochila num canto, abro a garrafa de uísque que comprei no caminho e bebo direto no gargalo, sentindo o fogo descer anestesiando o que sobrou do meu juízo.
Que vida de m***a.
Acendo um cigarro, deixo a fumaça invadir meus pulmões e ligo o rádio no volume máximo.
Preciso de barulho para não ouvir meus próprios pensamentos.
Começo a dançar sozinha, balançando o corpo de um jeito desleixado, tentando sacudir o nojo que sinto da minha própria pele.
Aquele cara... ele acha que é o salvador da pátria? Ele é igual a todos os outros.
Canalha, tava me olhando dormir... E que m***a, eu gostei. Eu provoquei aquele movimento, me expondo.
Eu quis sentir mais, porque eu sou uma m***a de uma doente que se atraiu pelo que mais sentia medo.
Medo da vigília, por ser olhada.
Eu quis aquele olhar, eu senti minha pele queimar, porque não senti medo.
Eu não... Eu não senti medo desse vez.
Mas se eu desse a mínima chance, ele seria só mais um a me usar e me descartar quando a diversão acabasse.
Homem nenhum presta.
Eu aprendi isso cedo demais.
Bebo mais, mas o álcool parece não fazer efeito. Minha mente traiçoeira me leva de volta para aquela noite, o estopim da minha fuga.
Baforo a fumaça do cigarro quando minha mente volta aquela maldição que me fez sair de casa.
A bebida, o cigarro ou qualquer d***a que eu usasse, podia entorpecer meus sentimentos, me anestesiar, mas quando fecho os olhos, o som da água caindo volta. Sempre volta.
"A Memória dos 16 Anos"
Eu me lembro da cozinha cheia de fumaça de cigarro. Minha mãe estava lá, com os olhos vermelhos, segurando um copo que nunca esvaziava.
— Mãe... eu vi ele. Ele estava me olhando pela fresta da porta do banheiro. De novo. Mãe, acredita em mim, O Jorge ... Ele não é bom, ele é um desgraçado!
As palavras saíram pequenas, trêmulas. O silêncio que ela me deu foi pior que um grito.
Minha mãe virou o copo, bateu na mesa e o estalo da mão dela no meu rosto veio antes que eu pudesse respirar.
Olhei pra ela em choque, minha mão sobre o rosto quente.
— Você quer acabar com minha vida!?
Meus olhos se enxergam, quentes, as lágrimas molhando meu rosto.
— É isso que você quer?
ela rugiu, a voz embargada.
— Você quer que eu morra, Maya?
— Não, não mãe...
— Então para de mentir. Ele sempre fez tudo por você, por nós! Ele te deu tudo garota, essa casa, a tua comida, as roupas...
Ela puxa minhas roupas me debatendo.
— Para mãe.. para.
— As tuas roupas foi ele quem comprou!
Ela me soltou me deixando a tremer.
— E você mentindo desse jeito, o Jorge é um homem bom!! Muito mais do que seu pai foi. Aquele desgraçado nos abandonou, e você fica mentindo pra me separar do Jorge!?
Neguei sentindo tudo em mim queimar.
— Eu me mato! Se você tirar ele de mim, eu juro que me mato!
Abracei meu próprio corpo, sentindo toda a impotência. Ela ... Ela acha que estou seduzindo ele? Que a culpa é minha?
Ela me olhou, depois do t**a, e me deu aquele abraço sufocante. Ela chorava no meu ombro, o cheiro de álcool impregnando minha camiseta.
— Não mente assim, filha...
ela soluçava, apertando meus braços.
— Ele é tudo que a gente tem. Ele ama você. É como um pai. Olha tudo o que ele faz por nós... Ele é um homem bom. Não destrói a nossa família.
Nossa família...
Que grande m***a.
E eu me culpei, por tanto tempo.
Me escondia em roupas largas, não ficava em casa quando ela saia, procurava qualquer lugar. Qualquer um menos perto dele.
Tudo me dava nojo.
Comecei a beber escondido, a conhecer pessoas. Perdi a virgindade sem conto de fadas, eu só não queria que ele fosse o mostro que tiraria ela de mim. Não existia amor, em nenhuma parte.
Mas o Estopim... Esse eu não suportei.
E eu juro que tranquei a porta. O clique da tranca ecoou no azulejo encardido.
Eu não sei como ele abriu, não sei.
Estava sob o chuveiro, os olhos fechados, tentando lavar o corpo que me dava tanto nojo.
A cortina de plástico, amarelada e opaca, era meu único escudo. Eu não ouvi a porta ser aberta.
Não ouvi os passos.
Senti apenas o ar frio invadir o box e, antes que eu pudesse abrir os olhos, uma mão pesada e áspera calou meu grito.
O pânico foi um soco no estômago.
Meus olhos se arregalaram, ardendo com o susto e então eu o vi. Jorge.
O hálito quente de café e mentira no meu ouvido.
— Fica quieta, Maya... sua mãe tá apagada. Ela não vai ouvir.
O nojo subiu pela minha garganta como bile. Cada toque daquela mão no meu corpo parecia uma queimadura de ácido.
A mão áspera descendo pra minha i********e e aquele som nojento do rosnar de desejo daquele doente no meu ouvido.
A impotência era um peso de chumbo. Minha mãe estava a três metros de distância, dopada por ele, que trazia as bebidas malditas, enquanto o monstro que ela chamava de "marido perfeito" me tocava.
Quando ele me envadiu com os dedos, não aguentei.
Eu chutei.
Chutei com toda a força que o ódio me deu. Quando ele dobrou de dor, minha mão encontrou o pote de ferro das escovas de dente.
Eu não pensei, não conseguia.
Taquei aquele pote pesado na cabeça dele. O impacto foi seco. Senti o peso do metal vibrar no meu braço.
Ele caiu. E eu corri. Corri como se minhas pernas estivessem pegando fogo.
Tudo que lembro, foi de pegar minhas coisas, poucas peças de roupas e meu celular, roubando da carteira dele, todo o dinheiro que tinha.
E sair correndo daquela casa.
Entre diárias pagas por hotéis baratos, ele me encontrou, e precisei fugir de novo até parar ali... Naquele bar.
...
Abro os olhos no quarto de hotel, de novo.
Minha respiração está descompassada. Guardo a garrafa e limpo a boca com as costas da mão. O alarme toca.
O alarme que programei pra ter que ir pro trabalho, eu tinha um mês pra pagar agora e a única coisa que me restava era a palavra.
E eu ainda tinha ela.
Tomou um banho e visto as poucas roupas que ainda tinha.
Caminho até o pub sentindo o vento frio da noite tentar limpar o rastro daquelas mãos em mim. Quando entro, a luz baixa do bar me atinge. E lá está ele.
Oliver.
Ele está parado perto do balcão, conversando com o Malcon.
No momento em que meus pés pisam no piso de madeira, ele vira. Um sinal claro do olhar do Malcon.
Os olhos dele, intensos e escuros, cravam nos meus. É um olhar que quer me desvendar, que quer quebrar meus muros.
Eu sinto o magnetismo.
Sinto aquela segurança absurda que ele emana.
Mas junto com ela, vem o medo.
Se ele souber... se ele for mesmo como a Kelly fala, esse seu código de honra inabalável, ele vai destruir o mundo da minha mãe.
E eu vou ter que recolher os cacos do corpo dela no chão.
Engulo o nó na garganta e coloco minha máscara de gelo.
Eu preciso odiar esse cara.
Preciso que ele me ache uma ingrata, uma delinquente, qualquer coisa.
Porque se eu deixar ele chegar perto, ele vai descobrir a verdade.
E a verdade é uma sentença de morte para a única pessoa que eu ainda tento salvar.
...
Passo por ele sem olhar para o lado. O cheiro do perfume amadeirado dele me persegue, mas eu não paro.
E aquele olhar dele me queimando, me tomando.
"Me deixa em paz, Oliver".
penso, enquanto coloco o avental.
"Pelo bem da minha mãe, me deixa em paz."
....