Pré-visualização gratuita O Dono do Complexo
Blade
O sol m*l tinha rasgado o céu, e o Complexo de Israel já pulsava vida. Não era o brilho dourado das novelas, nem a calmaria de um bairro rico. Era o sol invadindo as vielas apertadas, refletindo nos becos molhados da chuva da madrugada, onde o cheiro de barro misturado com pólvora ainda pairava no ar.
Michel Maia, o Blade, estava de pé desde cedo. Não porque queria, mas porque no morro, descanso era luxo. Vestia sua bermuda preta, camiseta regata e um cordão grosso pendurado no pescoço. Seu olhar era o mesmo de sempre: duro, atento, mas carregando o cansaço de quem já viu e perdeu demais.
— Michel, os alemão tão dando papo no grupo. — avisou Cadu, seu braço direito, encostado na porta do barraco.
Michel não respondeu de imediato. Estava com um cigarro aceso entre os dedos, olhando para o movimento lá embaixo. Mulheres subindo com sacolas de feira, crianças correndo descalças, trabalhadores passando com os olhos baixos. Era a vida acontecendo em meio ao caos. E no meio desse cenário, era ele quem segurava as rédeas.
— Fica de olho, mas manda ninguém se adiantar. Hoje eu quero silêncio. — disse ele, soltando a fumaça devagar.
— Fechou, chefia. — Cadu sumiu na mesma agilidade que apareceu.
Michel sabia que um dia calmo no morro era como um fio de pólvora prestes a acender. Qualquer vacilo, qualquer olhar torto, e tudo explodia. E ele não podia se dar ao luxo de mais perdas. Já tinha perdido Beto, já tinha perdido Anellyse. Agora, qualquer deslize seria o fim.
Ele desceu pela laje, os olhos atentos, cumprimentando os moradores com um aceno de cabeça. Ali, ele era temido, mas também era respeitado. Não era só o traficante. Era quem pagava o gás da Dona Jurema, quem bancava o remédio do Seu Léo, quem não deixava as crianças passarem fome.
Mas naquela manhã, algo diferente aconteceu.
Do outro lado da entrada principal do Complexo, um carro antigo, batido, parou. Era um Fiat Uno, mais velho do que muito morador dali. De dentro, saiu uma jovem, segurando pela mão uma menininha que não devia ter mais de cinco anos. As duas carregavam sacolas simples, e nos olhos da mais velha, um misto de medo e desafio.
Michel, de cima da laje, viu a cena e franziu a testa. No morro, ninguém entra sem ser visto. E aquelas duas não eram dali.
— Cadu, quem são? — perguntou, sem tirar os olhos.
— Não sei, Blade. Mas vão subir. Tão com cara de que não têm pra onde ir.
Michel sentiu algo estranho. Um aperto no peito, como se aquele momento fosse importante, mesmo sem entender o porquê. A menina mais velha, de cabelos escuros presos num coque desajeitado, tinha um olhar que ele conhecia bem: o olhar de quem perdeu tudo, mas ainda não se deu por vencido.
Nayla Machovane puxava a irmã, Aylla, com firmeza, tentando esconder o medo. O coração dela batia acelerado, como se cada passo fosse um grito. Ela sabia das histórias do morro. Sabia quem era Blade. Mas não tinha mais escolha. O asfalto não quis saber da dor delas. Agora, o morro era a única saída.
— Eles vão cruzar comigo mais cedo ou mais tarde… — Michel murmurou, apertando os dedos no parapeito da laje. — E quando cruzarem, quero saber quem são.
Naquele momento, sem que nenhum dos dois soubesse, um fio invisível de destino se esticava, puxando-os para uma colisão inevitável.
A guerra do morro nunca foi só de balas. Às vezes, era uma guerra de corações.
— Segura firme, Aylla. — Nayla disse, apertando a mão da irmã, enquanto subiam a viela apertada.
Os degraus de concreto eram tortos, escorregadios da chuva que ainda escorria pelas paredes do morro. Aylla, com sua mochilinha de corações, tentava acompanhar o passo da irmã, mas a fome e o cansaço pesavam. Nayla sentia o coração disparar a cada olhar atravessado que recebia. Ali, no meio daquele mundo que não era dela, cada pessoa parecia medir seu valor com um olhar.
Ela carregava duas sacolas, com o pouco que sobrou depois que perderam tudo. O carro velho, o único bem que tinham, agora estava estacionado na parte baixa, com o tanque quase seco e os documentos vencidos. Era a última lembrança da vida no asfalto, uma vida que não existia mais.
— Aonde você vai com essa criança, moça? — perguntou uma mulher, sentada na porta de um barraco, com um cigarro pendurado nos lábios.
— Tô procurando um lugar pra alugar. — Nayla respondeu, tentando manter a voz firme.
— Alugar? Aqui não é assim, não, fia. Aqui tem que saber com quem falar… — a mulher deu uma risada seca, olhando pras outras vizinhas que se aproximavam, curiosas.
Nayla sentiu o rosto queimar de vergonha. Ela não sabia como funcionava aquela realidade. Na cabeça dela, era só achar alguém que tivesse um espaço vazio e pagar um aluguel. Mas no morro, tudo tinha dono, tudo passava pela autorização de alguém. E esse alguém era Michel Maia.
— Vai na venda do Carlinhos, ali na curva da laje azul. Ele sabe quem tá alugando… — a mulher disse, apontando com o queixo. — Mas se prepara, que aqui não tem vida fácil, não.
— Eu já sei como é. — Nayla respondeu, puxando Aylla com delicadeza.
Elas seguiram pela viela, sentindo os olhares nas costas. Nayla sabia que cada passo que dava era uma luta contra o medo. Mas ela não podia recuar. Tinha Aylla ao seu lado, e não havia mais ninguém no mundo por elas.
Quando chegaram na tal venda, um senhor barrigudo, de boné virado pra trás, olhou as duas de cima a baixo.
— Posso te ajudar, moça?
— Tô procurando um barraco pra alugar. Eu e minha irmã. — Nayla disse, com um nó na garganta.
Carlinhos coçou o queixo, pensativo.
— Tem um cômodo ali na viela 17, mas… é pequeno. Só tem um quarto e um banheiro no fundo. A dona morreu tem uns meses, e o neto tá querendo repassar. Mas o aluguel é no dinheiro e tem que ser combinado com o dono do morro.
Nayla franziu a testa.
— Dono do morro?
Carlinhos soltou uma risada sem humor.
— Blade, moça. Aqui ninguém respira sem o aval dele. Mas se você não deve nada, e só quer um canto pra ficar, ele não costuma negar. Só que vai ter que esperar alguém te apresentar.
Enquanto Nayla processava aquela informação, um silêncio pesado tomou conta do lugar. Ela sentiu o ambiente mudar, como se o próprio ar ficasse mais denso. Ao virar o rosto, seus olhos encontraram os dele.
Lá do alto da laje, Michel Maia observava.
Os olhos de Blade eram frios, calculistas, mas naquela fração de segundo, Nayla sentiu algo diferente. Não era só um chefe de morro olhando pra uma desconhecida. Era um homem que, mesmo sem dizer nada, parecia enxergar através dela. Ele viu a exaustão, a dor, a luta estampada no rosto daquela mulher que segurava a irmã com tanta força como se o mundo fosse arrancá-la a qualquer momento.
Nayla desviou o olhar rapidamente, sentindo o coração acelerar.
— Ele já te viu. — murmurou Carlinhos, percebendo o momento. — Agora é esperar. Se você for de verdade, ele vai saber.
Nayla apenas assentiu, sentindo um peso invisível sobre os ombros. Não sabia se aquilo era um começo ou o início de um pesadelo maior. Mas não tinha escolha.
Ela pegou a chave do barraco e seguiu para a viela 17, sem saber que aquele primeiro olhar seria o início de uma história que mudaria suas vidas para sempre.
E, de cima da laje, Michel ainda a observava.
Ele sabia que o morro estava prestes a ganhar mais uma guerra. Mas dessa vez, era uma guerra diferente. Era uma guerra de alma.