Um Gesto de Amor

1627 Palavras
Blade O ar ao redor de Nayla pareceu congelar. A mão do rapaz se esticava com o pacote, o sorriso torto convidativo e sinistro. Aylla, em seus braços, tossia de novo, um som fraco que era um golpe no peito de Nayla. É agora. Ou isso, ou ela. No instante em que seus dedos estavam prestes a tocar o plástico preto, uma sombra imponente cobriu a viela. Não era a sombra da noite que caía, mas a de um homem que irradiava perigo e autoridade Blade. Ele surgiu de repente, como se tivesse brotado do concreto, seus olhos varrendo a cena. Não havia expressão em seu rosto, mas o ar ao redor dele ficou pesado, eletrizado. Seus homens, que Nayla nem havia notado que estavam por perto, pararam a poucos metros, quietos como estátuas. O rapaz de cabelo descolorido, que antes estava tão confiante, empalideceu. O sorriso sumiu, substituído por um olhar de terror. Ele encolheu a mão com o pacote, como se tivesse levado um choque, e deu um passo para trás. Blade não disse uma palavra. Seus olhos, que antes haviam se encontrado brevemente com os de Nayla no mercado, agora estavam fixos nela, e depois em Aylla, que tremia de febre no colo da irmã. Havia uma intensidade que gelou Nayla até os ossos. Era o olhar de um predador, sim, mas também algo mais profundo, algo que ela não conseguia decifrar. Uma dor antiga, talvez. Uma lembrança. O silêncio era esmagador, quebrado apenas pela tosse fraca de Aylla. O tempo pareceu parar. Nayla sentiu o desespero e a humilhação misturados com um estranho alívio. Ela estava salva do seu próprio erro, mas agora estava à mercê dele. De repente, Michel moveu-se. Não em direção a Nayla, mas ao rapaz com o pacote. Ele não precisou tocar nele. Apenas um olhar. Um olhar que dizia mais do que mil ameaças. O rapaz tremeu violentamente. — Vaza, Blade rosnou, a voz grave, quase inaudível, mas cheia de uma autoridade que não se contestava. “E se eu te pegar oferecendo essa merda pra ela de novo, ou pra qualquer um perto da casa dela, você nunca mais vai andar por aqui.” O rapaz nem sequer hesitou. Virou-se e sumiu pela viela como um fantasma, o pacote de plástico sumindo com ele. Blade voltou-se para Nayla, que ainda estava paralisada. A febre de Aylla parecia ter piorado com a tensão. A menina choramingou baixinho. Blade viu a respiração ofegante de Nayla, o suor frio em sua testa. Ele não gostava de espetáculo, mas aquela cena o atingiu de uma forma que ele não esperava. — O que ela tem?”, a voz de Michel era baixa, áspera, mas não havia raiva. Havia uma exigência. Nayla levou um tempo para responder, a garganta seca. — Febre… não baixa. Precisa de um médico de verdade. Remédio.” Blade assentiu, um movimento quase imperceptível. Ele notou a fraqueza de Aylla, a forma como Nayla a segurava, quase em colapso. O peso em seu peito se intensificou. Não era seu problema. Ele não se envolvia com os civis, não assim. Mas a imagem de Anellyse, enferma, indefesa, projetava-se na figura de Aylla. Ele fez um sinal para um de seus homens, um gigante chamado Jefinho, que se aproximou. — Leva elas no Dr. Souza. Agora. E diz que é ordem minha. Sem fila. E que ele tem que cuidar dela direito.” Blade tirou um maço de notas do bolso de sua calça e entregou a Nayla. Não era uma quantia pequena. Suficiente para o médico, os remédios, e talvez para algumas semanas de comida. Nayla olhou para as notas, depois para Blade, atordoada. Era caridade? Ou um pagamento? Um aviso? — Blade… eu não…”, ela começou, a voz falhando. — Pega”, ele interrompeu, o tom mais firme. “E cuida dela. Não quero problemas no meu território por causa de criança doente.” Era uma desculpa, uma justificativa esfarrapada para o que, para ele, era um gesto que o expunha de alguma forma. Jefinho se aproximou e, com surpreendente gentileza para seu tamanho, pegou Aylla dos braços de Nayla, ajeitando-a em seu próprio colo musculoso. Aylla, que estava fraca demais para reclamar, apenas se aninhou. — Vamos, mocinha. O tio aqui vai te levar pro doutor”, Jefinho murmurou, e começou a caminhar, com Nayla o seguindo, cambaleante. Ela lançou um último olhar para trás. Blade ainda estava lá, parado na viela. A luz fraca dos postes revelava seu rosto, uma mistura de dureza e algo indomável que ela ainda não conseguia compreender. Ele não era um salvador. Era o Blade. Mas, naquele momento, em seu desespero mais profundo, ele havia estendido a mão. Nayla não sabia se aquilo era o começo de sua salvação ou apenas a primeira corrente que a prenderia ainda mais ao perigoso mundo de Michel Maia. Mas, ao ver Aylla nos braços do gigante, respirando com um pouco mais de facilidade, ela soube que, pelo menos por agora, elas estavam seguras. E que Michel, o rei do caos, havia feito um gesto de um amor que ele mesmo talvez nem soubesse que possuía. A fresta de luz que se esgueirava pelas telhas de zinco do barraco anunciava um novo dia. Um dia sem febre para Aylla. O Dr. Souza, um médico exausto e calejado que trabalhava na comunidade, havia diagnosticado uma pneumonia leve, prontamente tratada com antibióticos fortes. O dinheiro de Michel havia coberto tudo: a consulta, os remédios caros e até mesmo a farmácia local parecia ter um novo respeito por Nayla quando ela mencionava "o pessoal de cima". Aylla dormia um sono tranquilo e medicado ao lado de Nayla, a respiração regular e sem o chiado assustador. O alívio era uma onda morna que Nayla permitiu-se sentir por um instante. Mas logo, a maré da gratidão e da humilhação puxou-a de volta para a realidade. Ela se levantou, os músculos doloridos pelo colchão no chão, e olhou para o maço de notas que Michel havia lhe dado, ainda intocado na velha cômoda de madeira. Era o preço da salvação de Aylla, e o preço de sua própria alma. Ela, Nayla Machovane, a herdeira da Barra da Tijuca, agora estava em dívida com o Blade, o rei do tráfico do Complexo de Israel. A ideia era nauseante. Nos dias que se seguiram, a vida no morro, antes uma luta solitária, adquiriu uma estranha camada de vigilância. Nayla sentia os olhares. Não eram mais os olhares de pena ou curiosidade dos vizinhos. Eram olhares dos "soldados" de Blade. Discretos, mas presentes. Os mesmos meninos que antes sussurravam propostas de "corres" agora a cumprimentavam com acenos de cabeça respeitosos, ou desviavam o caminho quando a viam com Aylla. Ela notou que alguns deles, os mais jovens, passavam pela viela perto de seu barraco com mais frequência. Às vezes, um pacote de biscoitos ou uma garrafa de refrigerante aparecia na porta, como se tivesse esquecido. Nayla sabia de quem vinha. Blade. Era a "proteção" dele, silenciosa e onipresente, uma teia invisível que se estendia ao redor delas. A humilhação era um gosto amargo na boca. Nayla, que sempre prezou sua independência, agora era, de certo modo, propriedade dele. Ele havia provado que podia alcançá-la, controlá-la, e intervir em sua vida a qualquer momento. E o pior: ela não tinha como recusar. A vida de Aylla dependia disso. Certa manhã, enquanto Nayla tentava acender o fogareiro para o café, a chama falhou. O gás havia acabado. Ela suspirou, sentindo a pontada de desespero familiar. Precisava comprar outro botijão, mas o dinheiro de Michel, que antes parecia um milagre, agora parecia um peso. Usá-lo para algo tão mundano como gás era quase uma profanação para ela. De repente, uma batida na porta. Nayla hesitou. Quem seria? Era Jefinho, o gigante que havia levado Aylla ao médico. Ele segurava um botijão de gás novinho em folha sobre o ombro, como se fosse um brinquedo. — O Blade mandou entregar. Disse que o gás de vocês estava no fim”, Jefinho disse, a voz surpreendentemente suave. Ele não pediu nada em troca, nem sequer olhou para Nayla com curiosidade. Apenas colocou o botijão no lugar e se virou para ir embora. — Espera!” Nayla chamou, a voz trêmula. “Quanto… quanto eu te devo?” Jefinho soltou um riso curto, sem graça. — Não me deve nada, Nayla. O Blade cuida do que é dele. E agora, você e a pequena… são dele.” A frase, dita de forma tão casual, atingiu Nayla como um soco. "São dele." Não como um objeto, mas como uma responsabilidade que ele havia assumido. Ou uma posse. Ela sentiu um calafrio. O "gesto de amor" de Blade não era um ato isolado de caridade. Era o início de uma dependência. Ela estava presa àquele homem, à sua influência, ao seu poder. A liberdade que ela buscava desesperadamente estava sendo trocada por uma jaula de ouro – ou de zinco – no alto do morro. Blade não apareceu pessoalmente. Não precisava. Sua presença era sentida em cada gesto de seus homens, em cada pacote entregue, em cada olhar furtivo. Nayla era a "protegida" do Blade. E enquanto Aylla estivesse segura, ela teria que aceitar. Ela olhou para o fogareiro, acendeu o gás novo. A chama azul crepitava, viva. Ela faria o café, como em qualquer outro dia. Mas nada era como antes. Nayla havia sido arrancada de seu mundo de privilégios. Agora, ela estava sendo forçada a entender as regras do novo, onde a sobrevivência tinha um preço, e a proteção vinha de onde menos se esperava, com uma sombra silenciosa e perigosa. O jogo havia mudado, e ela m*l havia percebido que já estava jogando.
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