2. Benício.

1710 Palavras
Celina não esqueceu. Eu descobri isso às sete e três da manhã, quando abri os olhos e dei de cara com ela parada na porta do meu quarto, já vestida, bolsa no ombro e aquela expressão que normalmente significava que discutir só ia fazer tudo demorar mais. — Bom dia pra você também — resmunguei. — Levanta. Puxei o travesseiro por cima da cabeça. — Ainda tenho vinte minutos. — Hoje você não vai pra escola agora. Tirei o travesseiro. — Como assim? — Como eu falei. Levanta. Sentei na cama. — Vó, pelo amor de Deus. Eu tenho prova de Matemática. — Desde quando você ficou tão preocupado com Matemática? — Desde que descobri que faltar prova dá zero. — Sua escola não vai acabar porque você chegou mais tarde. Olhei pra ela. Depois pra bolsa. Depois pra roupa que ela estava usando. — A senhora tá falando sério? — Desde ontem. Passei a mão pelo pescoço. Foi automático. O negócio ainda estava lá. Aquilo me irritou mais do que assustou. Eu tinha ido dormir praticamente negociando com o próprio corpo. Acordaria, tocaria o pescoço, não encontraria mais nada e Celina teria que admitir que tinha exagerado. Não aconteceu. — Continua aí? — ela perguntou. — Acho que sim. — Acha? — Eu acabei de acordar, vó. Ela entrou no quarto. — E a voz? Abri a boca. — Que que tem? Saiu rouca. Mais rouca que no dia anterior. Merda. Celina não falou nada. Isso era pior. — É garganta — tentei. — Eu gritei muito. — Tá doendo? — Não. — Tem tosse? — Não. — Coriza? — Não. — Febre? — Não. Ela cruzou os braços. — Então você tá rouco, tem um caroço no pescoço, não tá gripado e quer que eu ache normal. — Eu quero que a senhora pare de falar “caroço”. Parece que eu tô com uma bola de tênis aqui. — Benício. — É pequeno. — Pequeno também merece ser visto. Revirei os olhos. — Tá. A gente vê depois da escola. — A gente vê agora. — Eu tenho prova. — E eu tenho sessenta e seis anos. Você acha que eu cheguei até aqui discutindo com adolescente? Não consegui evitar o sorriso. — Isso nem fez sentido. — Levanta. Ela saiu. Assunto encerrado. ⸻ No banheiro, fiquei um tempo demais olhando pro espelho. A luz branca não ajudava. Inclinei a cabeça pra um lado. Depois pro outro. O volume não parecia grande. Talvez se eu não soubesse que estava ali, nem visse. Toquei outra vez. Firme. Eu já estava começando a odiar aquela sensação. Não de dor. De presença. Era como quando você percebe um barulho de goteira de madrugada e, depois disso, não consegue mais deixar de ouvir. Peguei a escova de dentes. Meu celular vibrou na pia. Igor: morreu? Respondi: quase. sequestrado pela minha avó Ele mandou três risadas. Depois: e a voz de locutor de rádio? pior kkkkkk manda áudio Gravei: — Vai tomar no… Parei no meio. Minha voz realmente estava horrível. Apaguei. não A resposta veio imediatamente. agora eu quero mais ainda Bloqueei a tela. Quando saí do banheiro, Celina estava no meu quarto arrumando minha cama. — Vó, eu tenho braços. — Engraçado. Nunca vi usar pra esticar um lençol. Peguei uma camisa. Ela me observou vestir. — Engolir tá incomodando? Parei. — Por quê? — Ontem você fez uma cara estranha no café. Eu devia ter imaginado. Celina via tudo. — Não tá doendo. — Não foi o que eu perguntei. Suspirei. — Às vezes parece que a comida desce mais devagar. O rosto dela mudou. Dessa vez eu percebi na hora. — Desde quando? — Sei lá. — Benício. — Uns dias, talvez. — E você não falou? — Porque não é nada. — Você não sabe. — A senhora também não. Ela ficou em silêncio. Aí respondeu mais baixo: — Justamente por isso a gente vai descobrir. Aquilo tirou um pouco da minha vontade de discutir. ⸻ A clínica ficava fora do morro. Nada demais. Recepção gelada, televisão ligada num programa de manhã, gente mexendo no celular e um cheiro estranho de álcool que parecia existir em qualquer lugar onde alguém usasse jaleco. Celina preencheu minha ficha como se estivesse assinando documento pra compra de apartamento. — Eu sei meu CPF, vó. — Ótimo. — Posso preencher. — Já terminei. Sentei. Cinco minutos depois levantei. — Vou ali. — Onde? — Banheiro. — Você foi em casa. — Meu corpo fabrica xixi. Ela me lançou o olhar. Sentei de novo. — Eu tô brincando. — Eu sei. — Então ri. — Não achei graça. Eu estava nervoso. Só não queria admitir. A gente faz umas coisas idiotas quando está nervoso. Fala demais. Faz piada r**m. Olha pro celular sem ler nada. Eu fazia os três. Uma mulher saiu de uma sala chamando outro paciente. Meu estômago apertou. — Vó. — Hum? — Meu pai sabe? Ela demorou meio segundo demais pra responder. — Ainda não. — Não fala. Celina virou o rosto. — Por quê? — Porque não precisa. — Se precisar? — Aí fala. — Ele é seu pai. — Exatamente. Ela franziu a testa. — O que isso quer dizer? Olhei em volta. Baixei a voz. — Quer dizer que se o Vicente descobrir que eu tenho qualquer coisa no pescoço, daqui a pouco aparecem três médicos, dois carros e alguém querendo comprar a clínica. Celina tentou segurar o sorriso. — Não exagera. — Eu tô exagerando? Ela não respondeu. — Viu? — Seu pai se preocupa. — Meu pai invade o problema. — É o jeito dele. — É um jeito irritante. — Continua sendo preocupação. Abaixei os olhos pro celular. — Eu sei. Sabia mesmo. Talvez esse fosse o problema. Meu pai não sabia fazer nada pela metade. Nem amar. Nem controlar. ⸻ O médico não ficou apavorado. Isso deveria ter me acalmado. Não acalmou. Ele fez um monte de perguntas. Quando começou. Se doía. Se eu tinha tido infecção recente. Febre. Perda de peso. Cansaço. Histórico de doença na família. Depois pediu pra eu sentar na maca. — Inclina um pouco a cabeça pra trás. Fiz. Ele tocou meu pescoço. Primeiro de um lado. Depois do outro. Pediu pra engolir. Engoli. — De novo. Fiz outra vez. Ele ficou alguns segundos em silêncio. Celina estava numa cadeira, tão quieta que eu quase conseguia ouvir ela pensando. — É o quê? — perguntei. O médico afastou as mãos. — Não dá pra dizer só pelo exame físico. — Mas parece o quê? — Benício, pode ser uma série de coisas. O importante agora é investigar direito. Celina se inclinou. — Que exame? — Vou pedir uma ultrassonografia da região cervical e da tireoide. Dependendo do que aparecer, a gente decide o próximo passo. A palavra me acertou diferente. Tireoide. Eu tinha lido aquilo no celular na noite anterior. Nódulo. Tireoide. Ultrassom. Médico. A sequência apareceu inteira na minha cabeça. — Por que tireoide? — perguntei. — Pela localização e pelo que senti no exame. Mas isso não significa diagnóstico nenhum. A ultrassonografia serve justamente pra entender de onde vem esse aumento. Eu assenti. Celina perguntou mais umas coisas. Eu parei de ouvir direito. Não porque o médico tivesse falado algo assustador. Ele não falou. O problema era justamente esse. Ninguém estava dizendo que era nada. ⸻ Saímos com o pedido do exame na mão. Celina caminhou alguns metros em silêncio. — Não faz essa cara — falei. — Que cara? — Essa cara. — Eu só estou pensando. — Para de pensar. — Ah, claro. Ótima solução. — Ele falou que pode ser um monte de coisa. — Eu ouvi. — Então. Ela parou no meio da calçada. — Benício, olha pra mim. Olhei. — Eu não estou dizendo que é alguma coisa grave. — Mas tá pensando. — Eu estou pensando que você é meu neto e tem uma alteração no pescoço que precisa ser investigada. Só isso. — Só isso. — Só isso. Ela segurou meu braço. — Uma coisa de cada vez. Assenti. Ficamos andando de novo. Depois de alguns passos, perguntei: — Dá pra marcar esse negócio depois? Celina nem diminuiu o ritmo. — Não. — Eu sabia. — Hoje. — Vó… — Hoje, Benício. — A senhora é insuportável. — E viva. Sorri. Minha voz saiu falhada outra vez. Dessa vez, nenhum dos dois fez piada. ⸻ No carro de aplicativo, enquanto Celina tentava achar um lugar que fizesse o exame rápido, eu fiquei olhando pela janela. O morro apareceu ao longe. Casas apertadas. Fio. Laje. Gente subindo e descendo. Minha vida inteira estava ali. E eu estava pensando numa palavra ridícula. Tireoide. Meu celular vibrou. Clara. sumiu de novo Fiquei olhando. Digitei: consulta Ela respondeu quase imediatamente. tá tudo bem? Meu dedo parou sobre a tela. Eu podia escrever que sim. Era fácil. Era o que eu vinha fazendo desde ontem. Só que, pela primeira vez, a palavra pareceu pesada demais pra mandar. Bloqueei o celular. Celina desligou uma ligação. — Consegui pra amanhã cedo. Virei. — Já? — Já. — Como? Ela levantou uma sobrancelha. — Eu também sei resolver algumas coisas. Ri baixo. — Não conta pro meu pai ainda. A expressão dela mudou. — Benício… — Por favor. Ela me encarou por alguns segundos. — Até o exame. Respirei aliviado. — Obrigado. O telefone dela tocou antes que eu terminasse de falar. Ela olhou pra tela. E eu vi o nome. Vicente. Meu alívio durou três segundos. Celina atendeu. — Oi, meu filho. Silêncio. Olhou pra mim. — Tô com o Benício. Meu estômago apertou. Ela escutou alguma coisa do outro lado. — Não. Ele não foi pra escola hoje. Fechei os olhos. Pronto. Do outro lado da linha, a voz do meu pai ficou alta o bastante pra eu ouvir sem entender as palavras. Celina respirou fundo. — Vicente, não começa. Abri os olhos. Ela me encarou. E eu soube, antes mesmo de ela responder, que a promessa de esperar até amanhã tinha acabado de morrer. — Tem uma coisa no pescoço dele — ela disse. Do outro lado, silêncio. Um silêncio curto. Pesado. Depois a voz do meu pai: — Que coisa?
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