Contar pra alguém que você tem câncer é uma experiência i****a.
Não porque seja simples.
Justamente porque nenhuma frase parece certa.
Eu fiquei quase vinte minutos tentando decidir como começar.
“Galera, seguinte…”
Parecia anúncio de trabalho em grupo.
“Preciso contar uma coisa.”
Dramático demais.
“Eu tô com câncer.”
Direto demais.
No fim, quando vi Igor, Malu e Nico vindo em direção à praça, percebi que eu não tinha preparado nada.
Clara já estava comigo.
Sentada no banco, mexendo no cadarço do tênis.
— Você tá respirando estranho — ela falou.
— Isso ajuda muito.
— Tô observando.
— Para de observar.
— Não.
Igor chegou primeiro.
— Qual é o anúncio misterioso?
Malu veio atrás.
— Se você estiver namorando escondido, eu vou ficar muito irritada.
Nico apontou pra mim.
— Eu falei que tinha alguma coisa.
Igor sentou no encosto do banco.
— Fala logo antes que eu crie uma teoria pior.
Eu olhei pros três.
Depois pra Clara.
Ela não falou nada.
Só ficou ali.
— Saiu o resultado da punção.
O sorriso de Igor desapareceu.
Malu parou de mexer na mochila.
Nico ficou sério.
— E? — ele perguntou.
Respirei.
A frase que eu passei vinte minutos tentando montar saiu sozinha.
— É câncer.
Silêncio.
Não aquele silêncio bonito de filme.
Um silêncio desconfortável.
Igor me encarava.
Malu piscou várias vezes.
Nico abriu a boca e fechou.
Clara continuou perto.
— c*****o — Igor falou por fim.
Malu bateu no braço dele.
— O quê? Eu não sei o que falar!
— Então não fala merda.
— Eu só falei “c*****o”.
— Exatamente.
Eu comecei a rir.
Não porque tivesse graça.
Talvez porque fosse muito a cara deles.
Igor olhou pra mim, perdido.
— Você tá rindo?
— Tô.
— Posso rir também?
— Pode.
Ele riu nervoso.
Malu não.
Os olhos dela ficaram cheios.
— É sério mesmo?
Assenti.
— Carcinoma medular da tireoide.
Nico franziu a testa.
— Isso é na tireoide?
— O nome entrega um pouco.
— Desculpa.
— Tá de boa.
Malu sentou ao meu lado.
— E agora?
A pergunta de todo mundo.
Eu já conhecia.
— Cirurgia. Ainda estão vendo exatamente como vai ser. Apareceu um linfonodo suspeito também.
A expressão dela mudou.
— Espalhou?
— Não sabem ainda.
Igor desceu do encosto.
— Mas tem tratamento, né?
— Tem.
— Então pronto.
Malu virou pra ele.
— Igor.
— Eu não quis dizer “pronto” de pronto.
— Cala a boca.
— Tô tentando ajudar!
— Você tá piorando.
Eu levantei a mão.
— Para.
Os dois calaram.
— Eu contei porque não quero ficar inventando desculpa pra consulta, exame, falta na escola. Só isso.
Nico me olhou.
— Só isso?
— É.
— Você tá com câncer, Beni.
— Eu sei. Eu tava lá quando falaram.
— Não, eu quero dizer…
Ele passou a mão no rosto.
— A gente pode fazer alguma coisa?
Essa pergunta me pegou.
Porque era exatamente a mesma pergunta que meu pai fazia o tempo inteiro, só que de outro jeito.
— Podem continuar normais.
Igor apontou pra si mesmo.
— Eu nunca fui normal.
— Então você já tá preparado.
Ele sorriu, mas os olhos estavam vermelhos.
⸻
Depois da primeira pancada, a conversa ficou menos estranha.
Malu quis saber se eu ficaria careca.
Eu falei que não era quimioterapia naquele momento.
Nico perguntou se eu perderia o ano.
Eu disse que nem sabia quantos dias ficaria afastado.
Igor ficou quieto por quase cinco minutos.
O que nele era praticamente um coma.
— Fala — eu disse.
— Não tenho nada pra falar.
— Tem sim.
— Não tenho.
— Igor.
Ele respirou fundo.
— Eu tô com medo.
Aquilo me desmontou mais do que eu esperava.
— Você?
— É.
— Por quê?
Ele fez uma cara de irritação.
— Como assim por quê?
— Sei lá.
— Porque você é meu melhor amigo, seu i****a.
Ninguém falou.
Ele continuou:
— Eu fico fazendo piada porque se eu parar, eu vou pensar que você pode…
Parou.
A palavra ficou faltando.
Morrer.
Eu sabia.
Todo mundo sabia.
— Pode falar — eu disse.
— Não quero.
— Eu também penso.
Ele me olhou.
— Sério?
— Claro.
— Você não parece.
— Meu pai também fala isso.
Malu enxugou o rosto.
— Eu odeio essa conversa.
— Eu também.
Clara finalmente entrou:
— Então muda um pouco.
Igor apontou pra ela.
— Obrigado.
Ela olhou pra mim.
— Você quer ir embora ou quer ficar?
Pensei.
— Quero ficar.
Então ficamos.
Nico começou a contar uma história da aula que eu tinha perdido.
Malu reclamou de uma professora.
Igor voltou a falar besteira.
E foi estranho.
Muito estranho.
Porque ninguém esqueceu.
O câncer continuava ali.
Mas a conversa não girava mais em torno dele.
Talvez fosse isso que eu quisesse quando pedi pra continuarem normais.
Não fingir que não existia.
Só não deixar que existisse sozinho.
⸻
Quando voltei pra casa, meu pai estava na sala com uma pasta aberta.
Olhei de longe.
— Isso é o processo?
— Não.
— Então?
— Orçamentos e opções de hospital.
Fechei os olhos.
— Pai.
— Eu só tô pesquisando.
— Quantos?
Ele demorou.
— Alguns.
— Quantos é “alguns”?
— Seis.
— Seis hospitais?
— Oito, se contar dois que eu descartei.
Joguei a mochila no sofá.
— Você é maluco.
— Eu quero saber onde tem a melhor estrutura.
— A Helena não vai operar em qualquer lugar que você escolher numa planilha.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
— Benício.
Sentei.
— Conte pros meus amigos.
A pasta perdeu importância na hora.
— E?
— Foi estranho.
— Alguém falou besteira?
— Igor.
— Quem é Igor mesmo?
— Meu melhor amigo.
— O que ele falou?
— “Caralho.”
Meu pai segurou o riso.
— Sensível.
— Muito.
— E a Clara?
Olhei pra ele.
— Você tem uma obsessão com a Clara.
— Só perguntei.
— Ela já sabia.
— Ah.
O “ah” dele veio interessado demais.
— Pai.
— Tá bom.
Ele fechou a pasta.
— Você tá melhor?
Pensei antes de responder.
— Não sei.
Ele assentiu.
Eu gostei disso.
Não veio conselho.
Não veio “vai ficar tudo bem”.
Só aceitou.
Meu celular vibrou.
Era o grupo.
Igor tinha mudado o nome para:
“Benício não virou vaso”
Comecei a rir.
Meu pai olhou.
— O quê?
Mostrei.
Ele leu.
— Não entendi.
— Malu falou uma vez que eu tenho câncer e não virei um vaso.
— Seus amigos são estranhos.
— Você é dono de morro e tá julgando meus amigos?
Ele me olhou daquele jeito.
— Não começa.
Ri de novo.
Então o celular dele tocou.
Meu pai olhou a tela.
O rosto mudou.
— É a Helena?
— Não.
Atendeu.
— Fala, Carolina.
Fiquei prestando atenção sem disfarçar.
Ele ouviu por alguns segundos.
— Repete.
Meu estômago apertou.
Vicente levantou.
— Quando?
Silêncio.
Depois:
— Tá. Me manda tudo.
Desligou.
— O que foi?
Ele olhou pra mim.
— O plano respondeu sobre a próxima etapa.
— E?
— Disseram que precisam de nova análise de autorização pra cirurgia quando o pedido completo entrar.
— Isso é normal?
— Não sei.
— A Carolina falou o quê?
Meu pai respirou.
— Falou pra eu não explodir antes de existir negativa.
Quase sorri.
— Sensata.
Ele ignorou.
— A Helena quer fechar a estratégia cirúrgica depois da avaliação desse linfonodo.
Toquei meu pescoço.
— Então ainda falta.
— Falta.
Olhei pra pasta com oito hospitais.
Depois pra ele.
— Você vai continuar pesquisando?
— Vou.
— Pelo menos espera a médica escolher o que precisa.
Ele suspirou.
— Tá.
Sorri.
— Você tá ficando obediente.
— Não exagera.
Subi pro quarto com o celular na mão.
No grupo, Igor já tinha mandado mais seis mensagens idiotas.
Respondi duas.
Depois parei diante do espelho.
Olhei meu pescoço.
Pela primeira vez, não vi só o lugar onde estava o câncer.
Vi o lugar onde provavelmente ficaria uma cicatriz.
E pensei que talvez dali pra frente eu precisasse aprender uma coisa diferente.
Não como voltar a ser quem eu era antes.
Mas como continuar sendo eu depois.