22. Carolina

1493 Palavras
O problema de acompanhar casos de saúde é que, quando uma etapa termina, quase nunca vem descanso. Vem outro pedido médico. Outra autorização. Outro protocolo. Outro prazo que, para quem está sentado atrás de uma tela, é só prazo. Para quem está esperando saber até onde um câncer chegou, é outra coisa. Na manhã seguinte, Helena me encaminhou a solicitação para a avaliação do linfonodo cervical. Levei menos de um minuto para entender por que Vicente me ligaria assim que lesse. Ele levou quarenta segundos. — Outra punção. Nem bom-dia. — Bom dia, Vicente. — Carolina, ela quer furar o pescoço dele de novo. — Eu li o pedido. — Não dá pra saber isso na cirurgia? — Essa pergunta é pra Helena. — Já fiz. — E o que ela respondeu? Silêncio. Sorri sozinha. — Vicente? — Que o resultado pode ajudar no planejamento cirúrgico. — Então você já tem a resposta. — Eu não gosto dela. — Isso não muda a resposta. Ouvi algum barulho do outro lado. — Benício sabe? — Sabe. — E o que ele acha? — Disse que quer fazer logo. — Então temos médico explicando, paciente concordando e pedido formal. Qual exatamente é o problema? — Eu. A resposta foi tão direta que parei. — Pelo menos você identificou. — Não começa. — Você que ligou. Ele soltou o ar. — Protocola no plano. — Já estou fazendo. — E se demorarem? — A gente trabalha com o que acontecer. — Essa frase devia ser proibida. — Você já tentou proibir coisas demais na vida. Sobrevive a essa. Ele desligou reclamando. Mas não interferiu. Eu estava começando a reconhecer progresso onde antes só via teimosia. ⸻ No meio da manhã, recebi uma mensagem de Benício. Você tá ocupada? Respondi: Sou advogada. Essa pergunta é perigosa. Ele mandou uma figurinha rindo. Depois: posso te perguntar uma coisa sem meu pai saber? Parei de digitar. Pode. Desde que não seja algo que eu precise legalmente ou por segurança comunicar. Demorou um pouco. cirurgia no pescoço deixa cicatriz muito feia? Respirei. Eu podia ter dado a resposta fácil. “Isso não importa.” “Você vai ficar bem.” “Cicatriz é marca de vitória.” O problema era que nada disso respondia ao que ele realmente tinha perguntado. Liguei. — Alô? — ele atendeu baixo. — Onde você está? — Escola. Intervalo. — Seu pai sabe que você está me transformando em consultório estético? — Não conta. — Benício, eu não sou cirurgiã. — Eu sei. — Então eu não consigo te dizer tamanho, aparência final ou como sua cicatriz vai ficar. Silêncio. — Tá. — Mas consigo te dizer que você tem todo o direito de perguntar isso pra Helena. — Parece meio i****a. — Por quê? — Porque eu tenho câncer. Aí fico preocupado se vai ficar feio. — Uma coisa não cancela a outra. Ouvi vozes ao fundo. — Clara falou isso também. — Clara continua subindo no meu conceito. — Meu pai vai achar frescura. — Seu pai está preocupado em manter você vivo. Às vezes isso deixa os adultos burros para o resto. Ele riu. — Posso citar você? — Não. — Pena. Depois ficou sério. — Eu tenho medo de olhar no espelho e só ver isso. A frase me atingiu. — A cicatriz? — O câncer. Fiquei alguns segundos calada. — Então talvez a questão não seja só como ela vai ficar. — É. — Você já conversou com alguém além dos seus amigos sobre isso? — Tipo psicólogo? — Tipo alguém que saiba te ajudar a lidar com uma doença que chegou sem pedir licença. — Não quero ficar fazendo terapia e falando dos meus sentimentos. — Você acabou de me ligar pra falar dos seus sentimentos. Silêncio. — Golpe baixo. — Argumentação técnica. Ele riu de novo. — Pensa nisso. — Tá. — E pergunta à Helena tudo o que quiser sobre a cicatriz. — Mesmo? — Principalmente se isso estiver te incomodando. Antes de desligar, ele falou: — Carolina? — Oi. — Obrigado por não falar que cicatriz é marca de guerreiro. Eu fechei os olhos. — Você não precisa virar símbolo de nada só porque ficou doente. Ele demorou um pouco. — Valeu. ⸻ A autorização para a punção saiu sem negativa. Quase comemorei. Quase. Depois lembrei que uma operadora simplesmente cumprir uma solicitação médica não devia parecer evento extraordinário. Mandei a confirmação para Vicente. Ele respondeu: Quando? A clínica oferece amanhã às 9h. Confirma com Helena. Três minutos depois: Confirmado. Era impressionante. Para esperar decisão judicial ele parecia um homem prestes a derrubar parede. Para agendar procedimento médico, era mais rápido que qualquer secretária. Renata apareceu à porta. — Boa notícia? — Autorizaram. — Sem briga? — Sem briga. — Você parece decepcionada. — Meu cérebro já está condicionado. Ela entrou. — E a ação? — Cumpriram a parte da decisão referente ao que já estava prescrito. Estamos acompanhando. Mas o ponto mais importante agora vai ser a cirurgia. — Quando sair o pedido. — Exato. Renata sentou. — E você? — Eu o quê? — Tá começando a parecer parte da família. Olhei pra ela. — Sou advogada. — Eu sei. — O Benício me procura porque confia. — Eu também sei. — Então qual é o problema? — Nenhum, desde que você saiba onde termina a confiança pessoal e começa a atuação profissional. Cruzei os braços. — Você tá preocupada com Vicente. Ela não respondeu. Não precisava. — Não existe nada. — Eu não disse que existe. — Mas pensou. Renata sorriu. — Carolina, eu te conheço há onze anos. — Péssimo hábito. Ela levantou. — Só lembra que doença aproxima gente em estado de vulnerabilidade. Todo mundo fica mais intenso. A frase ficou comigo depois que ela saiu. Talvez porque tivesse razão. ⸻ À noite, fui até o Morro do Horizonte levar pessoalmente uma cópia da decisão e alguns documentos que Vicente tinha que assinar. Poderia ter mandado digitalmente. Eu sabia. Ele também. Mesmo assim, fui. Celina abriu a porta. — Entra, minha filha. O cheiro da comida me acertou antes da sala. — Não vou ficar. — Já ouvi essa mentira antes. Benício apareceu no corredor. — Carolina! — Oi. — Perguntei pra Helena. Demorei um segundo. — Sobre? Ele apontou o pescoço. — Cicatriz. Vicente estava sentado no sofá e olhou imediatamente. — Que história é essa? Benício revirou os olhos. — Tá vendo? Entrei. — Vendo o quê? — Eu falei que ele ia achar frescura. Vicente levantou. — Eu não falei que é frescura. — Sua cara falou. Parei diante dele. — Ele está preocupado com a cicatriz da cirurgia. Vicente olhou para o filho. — Beni, se tiver que fazer… — Eu sei que tem que fazer. — Então… — Então eu também posso não querer ficar com uma cicatriz enorme no pescoço! A voz dele saiu rouca e mais alta. O ambiente mudou. Vicente ficou parado. Benício continuou: — Todo mundo fala de cirurgia como se eu fosse dormir, acordar e pronto. É meu pescoço. Minha cara vai estar em cima dele todo dia. — Eu sei. — Não, pai. Você tá aprendendo. Silêncio. Celina parou na porta da cozinha. Eu não interferi. Vicente respirou fundo. — Tá. Benício pareceu surpreso. — Tá o quê? — Você tem razão. Ele demorou. — Só isso? — Não acostuma. Benício sorriu. A tensão diminuiu. Vicente então perguntou: — E o que a Helena falou? — Que vai explicar o tipo de incisão quando fechar a cirurgia. Que vai fazer o necessário, mas também pensa no resultado funcional e estético. — Então beleza. — Beleza? — É. Benício me olhou. — Acho que trocaram meu pai. — Não comemora cedo. Vicente apontou pra mim. — Você não ajuda. Celina apareceu com um prato. — Carolina, senta. — Dona Celina… — Você veio até aqui. Vai comer. Olhei para Vicente. Ele deu de ombros. — Aqui você não manda. — Finalmente um lugar onde somos iguais. Ele sorriu. E foi rápido. Só um instante. Mas Renata voltou à minha cabeça. Doença aproxima gente em estado de vulnerabilidade. Sentei à mesa. Benício começou a contar alguma coisa sobre os amigos. Celina reclamou que ele não estava comendo direito. Vicente corrigiu que ele tinha repetido o almoço. Por alguns minutos, ninguém falou de câncer. Até meu celular vibrar. Era Helena. Abri a mensagem. Li uma vez. Depois outra. Vicente percebeu imediatamente. — O que foi? Levantei os olhos. — Ela conseguiu antecipar a avaliação do linfonodo para amanhã. E quer conversar com vocês logo depois do procedimento sobre o planejamento da cirurgia. O sorriso desapareceu do rosto dele. Benício ficou quieto. Celina apertou o terço que carregava no bolso. Mais uma etapa. Mais uma resposta esperando do outro lado de uma agulha. E eu começava a perceber que, naquela família, cada dia comum precisava ser protegido antes que o próximo exame viesse buscá-lo.
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