Acelerei, sentindo o motor vibrar sob o capô como um animal selvagem, uma fera pré-histórica ansiosa para ser solta das correntes da civilização. O ronco daquela máquina de milhões não era apenas barulho; era uma sinfonia de poder absoluto que reverberava no meu peito, preenchendo cada centímetro do vazio que aquela euforia artificial tentava disfarçar. A p***a da cidade de Nova York passava por mim como um borrão frenético, um rastro de luzes de neon e asfalto molhado que parecia se curvar à minha passagem. Eu era o maestro dessa coreografia caótica de cores e reflexos, um deus arrogante que acreditava dominar o destino com um simples e negligente girar de volante. O rádio tava no talo, a batida eletrônica martelando em sincronia perfeita com o meu pulso acelerado pela adrenalina e pelo álcool, enquanto o uísque de mil dólares aquele líquido âmbar que só gargantas como a minha têm o direito de provar circulava livremente em minhas veias, transformando meu julgamento em pura audácia e minha prudência em cinzas que eu soprava com desdém pela janela do cockpit.
Eu não tava apenas dirigindo, p***a. Eu tava reivindicando as ruas, a noite e o próprio conceito de tempo. Naquele momento, eu era o dono de cada centímetro de concreto que meus pneus de perfil baixo tocavam. O mundo era meu playground e o resto da humanidade não passava de figurante barato num filme onde eu sou o único protagonista que importa. Cada poste que eu passava, cada semáforo que eu ignorava, era um lembrete: as leis foram feitas pros medíocres, pros pequenos, pros que têm medo de viver. Eu? Eu sou a própria lei.
Estacionei o carro de qualquer jeito, atravessado sobre a calçada, um f**a-se bem grande pra qualquer regra de trânsito ou etiqueta urbana, bem na frente de um dos clubes mais exclusivos e subterrâneos de Manhattan. Era o tipo de lugar onde a entrada custava o salário anual de um operário e a discrição era o único produto mais caro que o champanhe vintage servido em taças de cristal lapidado à mão. Ao sair do veículo, o ar frio e a chuva fina que começava a cair atingiram meu rosto como um tapa de realidade, mas eu m*l sentia o impacto do clima. Pra mim, aquelas gotas não eram chuva; eram confetes de uma vitória que eu acreditava ser eterna. Eu era o Sebastian Crowe, o cara que tinha acabado de dobrar o mercado financeiro e fazer os gigantes se ajoelharem.
Assim que as portas pesadas de carvalho se abriram, o aroma denso de charutos cubanos e o som de risadas conhecidas me atingiram como uma onda de calor. No fundo do lounge privativo, instalados em uma mesa circular de couro n***o que mais parecia um trono coletivo, eles já estavam lá. Os parasitas de luxo, os sócios que eu tolerava e os puxa-sacos que orbitavam minha fortuna como moscas em volta de um banquete de ouro. Garrafas de cristal decoravam o centro, cercadas por baldes de prata com gelo que refletiam a luz âmbar e suave do ambiente, criando uma aura de divindade mundana.
— Aí está ele! — Rafael, meu braço direito e o cara que melhor sabia quando calar a boca e quando aplaudir, gritou, levantando-se com os braços abertos e um sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo. — O homem que não sabe o significado da palavra "limite"! O novo rei da p***a toda! O magnata que fez Wall Street tremer na base!
Olhei para a mesa, para os rostos familiares daqueles que dependiam do meu brilho pra não viverem no escuro, e depois para Rafael, que mantinha um brilho cúmplice e levemente embriagado nos olhos. Eu sabia que ele tava curtindo a minha glória como se fosse dele, e eu deixava. Afinal, todo rei precisa de um bobo da corte que saiba reconhecer a coroa.
— Rafael, você armou essa palhaçada toda, não foi? — perguntei, com um sorriso de canto, sentindo a adrenalina ainda alta subindo pela espinha como uma descarga elétrica que não me deixava relaxar. — Sabia que eu não ia resistir a uma última rodada de celebração antes de dormir sobre os meus novos milhões.
— Eu não armei nada, Sebastian. Eu apenas antecipei a vontade do soberano — ele retrucou, empurrando um copo já servido com uma dose generosa de malte em minha direção. — A noite está apenas começando, e o asfalto lá fora... bom, ele pode esperar por você. Hoje a cidade é sua cama e o céu é o seu teto.
Peguei o copo. O peso do cristal era familiar, sólido, reconfortante. Era o peso do sucesso. Olhei para o líquido dourado e, por um breve e fatídico segundo, a imagem do meu próprio reflexo no vidro pareceu me encarar de volta com uma arrogância absoluta e impenetrável. Eu era jovem. Rico pra c*****o. Intocável. Um predador no topo de uma cadeia alimentar que eu mesmo tinha redesenhado. E eu estava completamente cego, mergulhado na minha própria soberba, ignorando o abismo que se abria sob meus pés de sapato de verniz.
A comemoração seguiu em um ritmo frenético, quase violento. Mais risos. Mais promessas vazias de impérios que nunca cairiam. Eu era o sol daquele sistema solar de parasitas, e cada elogio destilado era combustível direto para o meu ego, que já tava inflado além da conta. O mundo era meu playground, e eu acreditava piamente que nada absolutamente nada girava fora do meu controle. A empresa estava no topo, o contrato bilionário tava no meu bolso. Eu era o próprio Deus daquela madrugada.
— Mais uma rodada! E tragam a reserva que vocês guardam pros sheiks! — ordenei, sem sequer olhar para o garçom. Eu tratava o serviço como se fosse uma obrigação do universo para comigo. Pra mim, aquela gente de uniforme era invisível, meras ferramentas pra garantir o meu conforto.