O álcool começou a cobrar seu preço, mas de um jeito doce, traiçoeiro e sedutor. O mundo ficou leve, flutuante, como se as leis da gravidade não passassem de sugestões pros outros. Eu estava no topo da cadeia alimentar, e aquele sentimento de superioridade era o entorpecente mais forte que eu já tinha provado. Nada se comparava à sensação de saber que, se eu quisesse, eu comprava aquele prédio e botava todo mundo na rua só pelo prazer de ver o caos.
— Vamos sair daqui — eu disse finalmente, jogando um maço de notas de cem sobre a mesa sem me dar ao trabalho de contar. Se sobrasse cinco mil dólares, que o garçom usasse pra tentar ser alguém na vida. — Este lugar já ficou pequeno demais para o meu tamanho. Eu preciso de vento, preciso sentir que eu sou o dono da velocidade.
Saímos do bar como imperadores sem coroa, cambaleando levemente na soberba que nos cegava. O ar da rua bateu no meu rosto de forma agressiva, frio e carregado de uma umidade que antecipava o desastre. O asfalto brilhava sob os postes como um espelho sujo, refletindo as luzes da cidade que eu tinha acabado de conquistar. Mas eu só conseguia enxergar o meu próprio rastro.
— Tu vai dirigir assim, Sebastian? — Rafael perguntou entre risos, enquanto eu girava as chaves do carro no dedo com uma destreza perigosa. — Tá meio torto, hein, magnata? O uísque tá querendo assumir o controle?
— Eu dirijo melhor travado no álcool do que você em toda a sua sobriedade medíocre, Rafael — respondi com um desdém que cortaria o aço. — O meu sangue é feito de gelo e inteligência. O álcool só serve pra me deixar no mesmo nível de vocês, mortais.
Entrei no cockpit. O couro frio sob minhas mãos, o cheiro de poder que emanava do painel de fibra de carbono. Liguei o motor e o ronco respondeu como um demônio faminto. Pisei no acelerador, fazendo os pneus fritarem contra o pavimento úmido, deixando uma nuvem de fumaça e desrespeito antes de disparar. A cidade virou um rastro de luzes borradas. O rádio tava alto demais, a batida eletrônica explodindo dentro do meu crânio. A mente tava completamente limpa de freios morais e transbordando de uma audácia suicida.
Eu não estava pensando. Não tinha consciência do perigo. Só tinha a certeza i****a de que nada daria errado. Porque na minha vida, o erro era uma palavra que eu tinha deletado do dicionário.
Até que a realidade se rasgou.
Um segundo antes: a estrada parecia um tapete preto estendido pra minha glória. Minhas mãos estavam firmes no volante.
Um segundo depois: o SOM.
Foi um impacto seco, um estalo horrível que não foi alto, mas que ressoou dentro das minhas entranhas como se eu tivesse quebrado meu próprio esqueleto. O mundo parou sem pedir licença. Meu pé travou no freio com uma força bruta. O carro derrapou, os pneus gritando no asfalto molhado num lamento metálico que parecia um grito de morte, até que o silêncio um silêncio pesado, grotesco, que cheirava a tragédia assumiu o controle absoluto.
— Que p***a foi essa? — murmurei, minha voz sumindo enquanto o coração martelava como um tambor de guerra descontrolado. O suor frio começou a escorrer, misturando com o resto do uísque.
Abri a porta do carro com movimentos lentos, como se eu tivesse saído de um sonho r**m. A chuva voltou a cair sobre mim, agora parecendo cinzas de um funeral. E lá, no chão, a poucos metros do para-choque amassado da minha máquina de luxo, eu a vi.
Uma mancha escura e frágil no cinza do pavimento. O cabelo escuro espalhado de forma caótica, como se ela fosse uma boneca quebrada jogada no lixo. Um braço tava numa posição que não fazia sentido. O mundo inteiro, com meus bilhões e meus sucessos, encolheu até virar aquele ponto de sangue e dor.
— Não... — minha voz saiu carregada de uma irritação covarde. Eu tava puto porque aquela cena tava borrando a minha noite perfeita. — Não, não, não... isso não pode estar acontecendo comigo. Logo hoje?!
Aproximei-me com passos que pesavam toneladas. O sangue dela se misturava com a água da chuva, criando fios vermelhos que corriam pras frestas do bueiro. Ela respirava. O som era fraco, um chiado agônico que me deu um soco no estômago, mas que minha arrogância tentou repelir imediatamente.
— Merda... levanta... — falei, como se eu pudesse mandar na vida e na morte com a mesma autoridade que eu mandava nos meus funcionários. — Ei! Levanta agora! Você tem ideia de quem eu sou e do problema que tá me causando?!
Ajoelhei-me no asfalto molhado, sujando meu terno de cinco mil dólares. Toquei seu ombro. Nada. Só o som da chuva e o meu pânico gritando que o meu futuro tava em risco. Eu deveria ter ligado pra emergência. Mas o CEO implacável morreu naquele instante. Só sobrou o covarde que não queria perder o que tinha.
O medo sujo me dominou. O medo de perder o nome, o status, o poder. Olhei ao redor: a rua tava deserta. Ninguém. Nenhuma câmera que eu pudesse ver. O destino tinha me dado uma chance de sair limpo, e minha alma podre não pensou duas vezes.
Ela se mexeu levemente. Um sussurro de dor escapou dela. Foi ali que eu quase fiquei. Mas a voz da soberba, aquela que dizia que eu era importante demais pra cair por causa de uma "ninguém", gritou mais alto.
"Vaza, Sebastian! Se você ficar, o império Crowe acaba hoje. Sua vida vale mais que a dela."