Capitulo 4 O DIA EM QUE O CÉU DESABOU

772 Palavras
Aquelas palavras ecoaram dentro do meu crânio como tiros de fuzil num beco sem saída, disparos secos que ricocheteavam nas paredes da minha consciência, misturando-se ao zumbido persistente do álcool caro e ao som rítmico, quase infernal, da chuva que insistia em desabar sobre a metrópole. Aquela água gelada não estava ali para purificar; ela parecia lavar a minha glória, transformando o triunfo bilionário que eu celebrara horas antes em algo sujo, viscoso e absolutamente imperdoável. O instinto de autopreservação, uma fera alimentada por anos de uma arrogância blindada por camadas espessas de notas de cem dólares, começou a sufocar qualquer resquício de moralidade que eu ainda pudesse abrigar naquela alma de gelo, moldada para o lucro e para a destruição de qualquer obstáculo. Olhei para o corpo ali, jogado como um fardo, um entulho humano que o meu para-choque de fibra de carbono uma maravilha da engenharia alemã tinha acabado de fabricar em um microssegundo de desatenção. A raiva começou a ferver sob a minha pele, uma raiva cega, injusta e defensiva, queimando mais do que o uísque de dez mil dólares que ainda circulava como um veneno nas minhas veias, entorpecendo o pouco que restava do meu bom senso corporativo. — Por que você tinha que atravessar agora, p***a?! — rosnei entre dentes, a voz embargada pela bebida e por um desespero que eu me recusava terminantemente a admitir como medo. Eu o transformava em fúria contra a vítima, a única forma que eu conhecia de não desmoronar. — Garota burra... Você se enfiou na frente! Eu não tive culpa! Você que é uma suicida de merda que não sabe olhar para onde caminha, que não entende que a p***a do mundo para quando eu decido passar! Eu precisava acreditar naquela mentira com cada célula do meu corpo. Cada fibra do meu ser gritava que a culpa era dela, um erro de cálculo, uma variável aleatória que não deveria estar ali. Eu precisava que ela fosse a culpada para que o peso nos meus ombros, cobertos pela seda mais fina do mundo, não me esmagasse. Eu precisava que ela fosse a vilã da própria tragédia para que o meu universo de cristais, coberturas triplex e contratos que moviam nações não desmoronasse por causa de uma "ninguém" que decidiu aparecer no meu caminho justo na noite da minha maior vitória. Ajoelhei-me mais perto, sentindo a lama fria da sarjeta penetrar no tecido impecável da calça do meu terno, uma peça que custava o preço de um rim no mercado n***o e que agora estava sendo arruinada pela realidade mundana de um atropelamento. Meus dedos trêmulos hesitaram antes de tocá-la, como se a pobreza e a tragédia daquela situação fossem doenças contagiosas que poderiam manchar a minha conta bancária. A luz do poste falhava acima de nós, num piscar doentio e rítmico, uma pulsação elétrica agonizante que fazia a cena parecer um filme de terror onde eu, Sebastian Crowe, era o vilão supremo. As sombras dançavam no asfalto molhado como garras pretas, tentando agarrar meus calcanhares de verniz e me puxar para o inferno junto com aquela massa inerte. O rosto dela estava colado ao asfalto úmido, e foi então que eu vi o rastro escuro. Sangue. Muito sangue. Ele escorria da testa dela, grosso, denso e terrivelmente quente, desafiando a frieza da chuva e criando uma poça escarlate que parecia se expandir em direção aos meus joelhos como um organismo vivo, uma criatura sedenta por vingança. Parecia que o sangue dela tinha vontade própria, que queria me marcar, me rotular, pintar o meu nome de vermelho para que o mundo inteiro visse a sujeira que eu estava tentando esconder por trás do meu status de magnata intocável. — Ei... — minha voz saiu como um rascunho de som, o sussurro de um rei vendo o seu império ser tragado pelo ralo do esgoto. Com o coração martelando na garganta, pronto para pular para fora e me abandonar à própria sorte, eu a segurei pelo ombro e a virei com uma lentidão torturante. O corpo dela parecia leve demais, desamparado, como uma boneca de porcelana que eu, no ápice da minha prepotência, acabara de estraçalhar só porque podia, só porque eu estava rápido demais, grande demais para me importar com o que estava no chão. Quando o rosto dela finalmente ficou exposto sob a luz pálida e moribunda do poste, o ar abandonou meus pulmões como se eu tivesse levado um soco de um boxeador peso-pesado. Ela estava completamente desmaiada, entregue ao silêncio, com a vida pendurada por um fio de cabelo que eu estava prestes a cortar com a minha covardia.
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