A pele, de uma palidez cadavérica que me causou uma náusea instantânea, contrastava violentamente com o sangue que jorrava de um corte profundo em sua têmpora. O líquido quente e denso escorria pelo seu supercílio, invadindo a cavidade dos olhos que permaneciam fechados em uma agonia muda e invisível, descendo pelas bochechas até atingir o chão num fluxo que parecia não ter fim. Não havia consciência ali. Apenas uma respiração tão rasa, tão sofrida e irregular, que eu tive que me inclinar sobre ela, sentindo o cheiro de chuva, metal quente e morte iminente, para ter certeza de que aquela garota ainda estava viva. Eu conseguia ouvir o som do pulmão dela lutando, um chiado agônico, um protesto da vida contra o metal, que me dava vontade de gritar para ela calar a boca e parar de me atormentar com a sua sobrevivência incômoda.
Eu não conseguia desviar o olhar daquela destruição que eu mesmo orquestrara com a ponta dos meus dedos no volante e a sola do meu pé no acelerador. O rosto dela, que provavelmente era cheio de planos medíocres e sonhos de gente comum, agora era apenas uma máscara de choque. O corte na testa parecia uma boca aberta rindo da minha desgraça iminente; o vermelho vivo brilhava sob a luz artificial, manchando minhas mãos, tingindo os punhos do meu terno feito sob medida em Londres, uma peça exclusiva agora profanada por uma vida barata. Eu estava sujo. Eu estava marcado. E o ódio por ela só crescia dentro do meu peito como um tumor. Como ela ousava morrer ali? Como ela ousava me dar esse trabalho monumental de limpar essa bagunça humana?
— Não... — murmurei, o pânico subindo como ácido sulfúrico pela minha garganta, ameaçando me fazer vomitar ali mesmo, sobre a evidência do meu crime. — Por favor, não morra aqui, sua i****a! Acorda! Eu não posso ter um cadáver no meu histórico! Eu tenho um império para gerir, tenho reuniões bilionárias amanhã, tenho uma vida que vale milhões de vezes a sua! Você é só um erro de cálculo, uma falha no sistema que eu preciso deletar!
Passei a mão pelo meu próprio rosto, sentindo a chuva gelada se misturar ao suor frio da covardia mais abjeta, tentando organizar os pensamentos que o uísque insistia em embaralhar. A visão dela ali, entregue à morte por minha causa, por um microssegundo quase me quebrou. Quase. Mas então, o brilho dos faróis do meu carro aquele símbolo fálico de status, dinheiro e poder absoluto refletiu na poça de sangue aos meus pés. O motor ainda roncava baixo, como um predador rosnando na escuridão, me lembrando que eu era o dono daquela máquina e daquela p***a de cidade.
Lembrei-me de quem eu era. Ou de quem eu me tornei para chegar no topo dessa pirâmide de merda onde o ar é rarefeito e só os monstros respiram com facilidade.
O Sebastian Crowe não podia ir para a cadeia por causa de uma pedestre qualquer que não tem onde cair morta. O Sebastian Crowe não estampa capas de tabloides como um assassino bêbado que destruiu uma vida numa noite de gala. O Sebastian Crowe é o império, é a p***a do futuro da Crowe Enterprises, é o cara intocável que os outros olham com uma mistura de inveja e pavor. Eu sou o topo, c*****o! E o topo não cai por causa de um tropeço no asfalto úmido e uma vida insignificante.
Olhei para o rosto dela uma última vez, as pálpebras seladas pelo sangue que já estava começando a secar apesar da garoa insistente, a imobilidade absoluta de quem não tinha mais defesa contra o mundo e muito menos contra a minha ambição devoradora. O remorso tentou me segurar pelo calcanhar, uma pontada de humanidade que eu logo esmaguei com a sola do meu sapato de verniz de três mil dólares. O medo de perder o trono foi infinitamente mais forte do que qualquer decência básica. O medo de virar só mais um número num presídio estadual, sendo humilhado por gente que eu desprezo, me deu a coragem de monstro que a situação exigia.
— Eu sinto muito... por você ser tão azarada e por eu ser tão importante — menti para o silêncio cúmplice e escuro daquela rua, com uma frieza que congelaria o próprio núcleo da terra.
Levantei-me de um salto, tropeçando nos meus próprios pés e no vazio imenso da minha alma que agora estava condenada à escuridão eterna. Corri para o carro, o som dos meus sapatos caros batendo no asfalto molhado soando como o veredito final da minha covardia extrema. Cada passo era uma facada na moralidade, mas eu não estava nem aí. Eu precisava que aquele momento deixasse de existir nos registros da realidade.
Entrei no cockpit, bati a porta com uma violência que fez o vidro blindado vibrar, e o cheiro de couro e luxo agora me sufocava como um laço de carrasco, mas eu ignorei a sensação de asfixia. Minhas mãos, manchadas com o sangue dela, agarraram o volante de couro costurado à mão por artesãos que nunca saberiam o que eu acabara de fazer. Não olhei pelo retrovisor. Não olhei para o lado para ver se o mundo tinha testemunhado a minha queda. Eu apaguei aquela garota da minha existência como se deletasse um arquivo corrompido que ameaçava o meu sistema operacional.
Engatei a marcha com uma raiva cega e acelerei. Senti o solavanco do pneu contra algo no chão um impacto seco, abafado, que indicava que eu tinha passado por cima de novo talvez o braço dela, talvez a perna, talvez o que restava da minha própria humanidade que ficou jogada naquela sarjeta imunda. Mas eu não tirei o pé do acelerador. Pelo contrário, pisei até o fundo, sentindo o torque me empurrar contra o banco de luxo. O motor rugiu como um demônio liberto da gaiola, os pneus fritaram no asfalto molhado e eu fugi para a segurança da escuridão, deixando para trás o rastro de sangue, o silêncio da morte e uma vida que eu decidi que não valia mais que o meu sucesso financeiro.
Eu era o Sebastian Crowe. E se o preço da minha coroa era o sangue de uma desconhecida e a minha alma apodrecida, que assim fosse. Eu ia limpar o carro, ia limpar as mãos com notas de cem dólares e ia continuar sendo o dono da p***a toda. O mundo que se explodisse, desde que o meu reino continuasse de pé e inabalável. A noite estava longe de acabar, e o meu crime estava apenas começando a ser enterrado sob o peso da minha arrogância bilionária.