O motor do carro ainda estalava na garagem, aquele som metálico de agonia enquanto esfriava na escuridão privativa, soando como um cronômetro para o meu julgamento final. Eu subia pelo elevador sentindo o mundo girar num carrossel de náusea e uísque, mas o peso daquela merda toda era o que realmente me esmagava. Meus dedos ainda apertavam um volante imaginário com tanta força que as articulações estavam brancas, quase saltando da pele de tanto estresse. O luxo do mármore italiano no chão e a iluminação suave, projetada por algum decorador de bosta que cobra o olho da cara, pareciam uma ofensa pessoal. Tudo ao meu redor exalava ordem e perfeição, enquanto dentro do meu crânio o caos gritava, rangendo os dentes e pedindo o sangue que eu já tinha derramado no asfalto.
Abri a porta da cobertura de Lorena com uma violência que não fiz a menor questão de esconder. O ambiente cheirava a velas aromáticas caras, lavanda e aquela serenidade artificial de quem nunca teve que decidir entre a vida de alguém e a própria liberdade. Era o contraste perfeito e doentio para o inferno que eu acabara de carregar para dentro daquela bolha de cristal.
Lorena estava jogada no sofá de couro legítimo, lendo algo no tablet com aquela cara de quem não tem um problema real no mundo, vestindo um robe de seda que custava mais do que a maioria desses coitados lá fora ganhava em um ano de suor pesado. Ela levantou os olhos, um sorriso de troféu pronto nos lábios, mas o brilho morreu no instante em que a minha sombra projetou a desgraça no tapete persa de milhares de dólares.
— Sebastian? — Ela se levantou, a testa franzindo numa confusão irritante.
—Achei que a comemoração com o Rafael fosse durar a noite inteira em algum puteiro de luxo.
Eu não respondi. Não tinha fôlego pra conversa fiada ou pra joguinhos de ciúme de namorada que vive na minha aba. Caminhei direto para o bar de carvalho maciço no canto da sala, minhas mãos tremendo de forma incontrolável, como se tivessem vontade própria e quisessem estrangular o ar. O som do cristal batendo no gargalo da garrafa de uísque ecoou como um tiro de revólver no silêncio sepulcral do apartamento.
— Meu Deus, você está pálido... parece que viu o capeta na esquina... e está encharcado — ela disse, vindo na minha direção com aquele andar de quem acha que o mundo é cor de rosa e eu sou o príncipe encantado dela. Quando tentou tocar meu ombro com aquelas mãos de quem nunca lavou uma louça, eu me esquivei com um solavanco brusco, quase derrubando a garrafa de dez mil dólares.
— Não encosta em mim, c*****o! — rosnei, a voz saindo mais grossa e rouca do que eu planejava, carregada de um ódio que nem eu sabia que tinha.
— Sebastian, o que aconteceu na rua? Você está tremendo igual uma vara verde! — Lorena insistiu, a voz dela começando a me dar nos nervos, parecendo uma britadeira perfurando o meu juízo.
Virei a dose de uma vez, sentindo o líquido queimar a minha garganta como fogo líquido, mas aquela queimação era um carinho perto da imagem daquela garota desmaiada no asfalto molhado. O rosto dela, coberto de sangue, parecia projetado em cada parede branca daquela sala de luxo. Eu via o vermelho escarlate em tudo: no vinho da taça dela, no reflexo das luzes, na minha própria consciência apodrecida.
— Sebastian, fala comigo! — Lorena subiu o tom, agora com uma nota de medo genuíno. — Houve algum problema com o contrato? Você bateu o carro, não foi? Eu conheço essa cara de quem fez merda!
A palavra "bateu" me atingiu como um chicote de couro cru rasgando a pele. Virei-me para ela de uma vez, meus olhos injetados de sangue e ódio, a respiração saindo pesada, errática, cheirando a álcool, chuva e pânico. Eu a segurei pelos braços com uma força bruta, não com o carinho que um "magnata" deveria ter com a sua mulher, mas com a urgência de um animal encurralado que sente o chão sumindo sob as patas e decide levar quem estiver perto pro buraco.