— Presta atenção no que eu vou te dizer, Lorena — minha voz saiu baixa, um rosnado de quem tá pronto pra matar pra não cair do pedestal. — Escuta bem, porque eu não vou repetir essa p***a nenhuma vez.
— Você está me machucando, Sebastian... solta! — ela sussurrou, os olhos arregalados, o terror finalmente batendo na porta dela.
Eu não afrouxei o aperto nem um milímetro. Pelo contrário, enterrei meus dedos na carne dela. Eu precisava que aquela futilidade de modelo de i********: desse lugar ao entendimento da gravidade do que estava em jogo. O império Crowe tava por um fio e ela ia ser o meu nó, querendo ou não.
— Se alguém perguntar — comecei, cada palavra saindo como uma sentença de morte pro meu passado —, se qualquer pessoa, seja a polícia, o merda do Rafael ou os seus amiguinhos inúteis de salão, vier com perguntinha sobre onde eu estava hoje à noite depôs do bar... você vai dizer que eu estive aqui. Sai do bar direto para te encontrar.
Ela abriu a boca pra soltar alguma pergunta i****a sobre ética ou sobre o que aconteceu, mas eu a cortei com um olhar tão gélido que faria o inferno congelar. A arrogância agora era a minha única armadura, a única coisa que separava o CEO do ano de um presidiário comum.
— Você vai dizer que eu cheguei logo depois de me despedir no bar dos meus colegas. Que passamos a noite inteira comemorando entre esses lençóis caros. Que eu não saí desse apartamento por um segundo sequer. Escutou bem o que eu falei ou vou ter que desenhar na sua cara de boneca pra você entender quem manda nessa p***a?
— Sebastian, por que você está dizendo isso? O que você fez lá fora? — O pânico dela era visível, as mãos dela começaram a tremer junto com as minhas. — Tem sangue no punho da sua camisa... Meu Deus, é sangue de verdade, Sebastian! Você matou alguém?
Olhei para baixo e vi a mancha escarlate, já secando no tecido de algodão egípcio da minha camisa feita sob medida. Era o sangue dela. O sangue daquela pedra no meu caminho que eu decidi chutar pro lado. Senti um gosto amargo de bile subindo pela garganta, mas engoli junto com o pouco que restava do meu caráter.
— Não interessa o que eu fiz! — gritei, a voz explodindo no apartamento e fazendo ela sobressaltar de susto, quase caindo. Voltei a baixar o tom, colando meu rosto no dela, sentindo o perfume caro dela se misturar com o cheiro de morte e chuva que eu exalava. — O que interessa é que o meu nome é o que mantém esse estilo de vida de rainha que você ama ostentar. O meu nome, a minha p***a de influência, é o que paga por esse teto, por essas roupas de marca e por cada merda de luxo que você preza nessa sua vida vazia. Se o meu nome cair, Lorena, você cai junto. E eu te garanto: o chão lá embaixo é duro pra c*****o e é muito sujo pra alguém como você.
Ela engoliu em seco, as lágrimas começando a formar-se nos olhos de gata. A Lorena que eu conhecia gostava do poder, da joia, do brilho, mas não tinha estômago pra ver a carne moída por trás do sucesso. No entanto, ela não era burra. Ela conhecia o peso de um Crowe e sabia que, entre a verdade e o luxo, ela ia escolher o luxo sempre, como a parasita que é.
— Você esteve aqui o tempo todo, Sebastian. Eu... eu vou dizer isso — ela balbuciou, a voz trêmula, entregando a pouca alma que tinha em troca da segurança do meu dinheiro.
— Repete. Com convicção, como se fosse a única verdade da sua vida, ou eu mesmo te jogo dessa varanda agora.
— Você esteve aqui o tempo todo, Sebastian. Nós... nós não saímos pra lugar nenhum depois que você chegou. Eu juro por tudo.
Soltei os braços dela com um empurrão leve, me afastando e sentindo o peso daquela mentira se consolidar entre nós como uma barreira de cimento armado. O silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio doente, um silêncio de cúmplices de um crime que não tinha volta. Caminhei em direção ao banheiro principal, sentindo cada músculo do meu corpo gritar por uma limpeza que a água nunca ia dar.
— Vá dormir — ordenei, sem olhar para trás, com o tom de quem manda num vira-lata. — E esqueça que viu essa camisa ou que eu cheguei nesse estado de bosta. Amanhã, a gente acorda e tudo volta ao normal. Eu vou resolver essa merda do meu jeito.
Mas enquanto eu entrava no chuveiro de hidromassagem e via a água inicialmente avermelhada escorrer pelo ralo de inox, eu sabia que o "normal" era um conceito que eu tinha acabado de assassinar naquela rua deserta de Manhattan. Eu tinha o álibi. Tinha a mulher comprada pelo medo e pelo interesse. Tinha os bilhões na conta. Tinha a arrogância de sempre.
Mas, pela primeira vez na minha vida meteórica, eu não tinha mais o controle da p***a toda. O fantasma daquela garota, com o braço torto e o sangue no asfalto, tinha acabado de se mudar para o meu condomínio de luxo, bem dentro da minha cabeça de merda. E ele não ia pagar aluguel, ia cobrar juros em cada noite de sono que eu tentasse ter.
Eu olhava para as minhas mãos debaixo da água, esfregando a pele até ficar em carne viva, mas o rastro do impacto parecia tatuado na minha alma. Eu era o Sebastian Crowe, o magnata intocável, o dono do jogo. Mas naquela noite, enquanto a chuva batia no vidro da cobertura, eu me senti o menor verme daquela cidade. E o pior de tudo: eu faria tudo de novo pra não perder a coroa. O império estava salvo, mas o rei agora era um prisioneiro do próprio crime.
Fiquei ali, sob a água quente, tentando ignorar que a cada batida do meu coração, eu ouvia o som do para-choque esmagando a vida daquela desconhecida. Eu era um monstro, e o pior é que eu gostava do poder que esse monstro me dava. Que se f**a a moralidade; no topo, só sobrevive quem tem estômago pra engolir o próprio lixo. E eu ia engolir, ia digerir e ia continuar sendo o rei dessa p***a toda, nem que tivesse que empilhar corpos pra manter a vista da minha janela desimpedida.