SAFIRA NARRANDO
Saí da frente da escola da Abigail tremendo. Eu sei que não preciso ter medo desse cara, mas é que muitas coisas estranhas tem acontecido nos últimos dias. Tenho recebido cartas anônimas de um homem alegando que o pai da minha filha, o pai biológico dela, é um homem perigoso e está atrás dela, e quer matá-la. Agora, esse meu paciente maluco que ameaçou o médico na minha frente, aparece na frente da escola da minha filha... Eu preciso ir embora para Nova Iorque o mais rápido possível. Já era meu plano, ir como missionária da nossa igreja para lá, mas eu adiei as coisas porque tudo ia tão bem aqui... Acho que no final das contas, eu devia ter ido no começo desse ano, como eu havia pensado.
Cheguei em casa tremendo, e liguei para meu trabalho dizendo que estava com um problema e não poderia aparecer. Meu pai estava lendo a bíblia na sala, tranquilo.
— Pai! — Eu falei, indo até ele. — Eu preciso te contar uma coisa, muito importante.
— Fala, filha. — Ele disse, abaixando a bíblia e me olhando assustado. — O que aconteceu?
— Pai, eu preciso sair do país. — Eu disse, olhando para baixo. — Tem muita coisa acontecendo e... — Ele arregalou os olhos.
— O quê? Como assim? Você não havia desistido de ir para os estados unidos? — Eu concordei com a cabeça e ele se levantou.
Comecei a chorar e então, tirei as cartas que havia recebido do meu bolso. Mostrei para ele, que leu assustado.
— O pai da nossa Abigail é um homem poderoso que quer matar você e sequestrar ela? — Ele disse, assustado. — Isso é... Meu Deus... Isso é realmente assustador.
— Eu sei. Filha, você já está com tudo pronto para ir pra Nova Iorque, o meu amigo pastor irá te receber na casa dele, você sabe que é só você dizer que quer ir. — Ele disse.
— Então eu acho melhor ir e proteger a Abigail, pai. Eu estou muito preocupada... Você já me viu faltar no trabalho? É a primeira vez que faço isso em anos! Eu estou com vontade de ir pra escola, buscar a Abigail e ir embora imediatamente. — Eu respirei fundo, com os olhos cheios de lágrimas.
Meu pai não sabe que além disso, tem aquele tal do Rafael seguindo a gente. Só Jesus na causa...
— Filha... Se você acha que é o melhor para você e para a Abigail, tudo que eu posso fazer, é dar meu apoio. Eu te disse que quando você escolheu adotar essa menina, isso poderia te levar a caminhos de abnegação e que, talvez, você teria que fazer escolhas difíceis. Essa é uma delas. Você irá se afastar de tudo pela Abigail, de todos, e vai para outro país... Eu só espero que você consiga ser feliz lá. — Ele disse, com os olhos cheios de lágrimas. — Eu vou sentir tanta saudade de vocês duas...
Naquele momento, eu soube que eu e meu pai estávamos nos despedindo. Eu realmente iria embora do país, fugindo do pai da Abby. Lembro-me de quando a mãe biológica me entregou aquela menininha e disse que o pai dela era perigoso, e que ela precisava sumir com essa criança...
Lembrar disso me dá um frio na barriga. Eu devia ter ido embora antes, porque assim, o pai da Abby sequer saberia da existência dela e se soubesse, eu já estaria longe. Eu não posso perder minha filha e farei de tudo para protegê-la desse homem perigoso que nem sei quem é.
Na hora do almoço, com as malas já prontas e passagens compradas, eu fui buscar minha filha na escola. Ela achou muito estranho eu ir no horário do almoço, afinal, ela estuda em período integral.
— Mamãe, vamos passear? — Ela perguntou, confusa, enquanto eu a colocava na cadeirinha.
— Sim, meu amor. Nós vamos passear de avião. — Eu disse. Meu pai no banco do passageiro, respirou de forma profunda.
— Vai ser muito divertido, querida. — Ele disse. — Você vai amar.
— Você vai também, vovô? — Abby perguntou.
— Não, meu amor. Eu preciso ficar aqui. Vocês vão... Mas tenho fé que irão voltar em segurança, em breve. Tenho fé. — Disse.
Fiquei com vontade de chorar, mas me contive para que a Abigail não entendesse a seriedade do que estava acontecendo ali.
Depois de chegarmos ao aeroporto, eu comprei um lanche para ela, e fomos para a área de embarque. Aguardamos juntas, e meu pai estava ao nosso lado, com ela no colo. Abby estava se divertindo muito com a situação e ainda ganhou balões da companhia aérea.
— Que horas vamos entrar no avião, mamãe? — Ela perguntou.
— Em meia hora, querida. Quer alguma coisa? Ir ao banheiro ou comer mais alguma coisa? — Perguntei. Ela negou com a cabeça e continuou pulando pra lá e pra cá, com os balões que havia ganhado.
Tudo parecia bem tranquilo para a viagem. Nosso avião chegou, e eu e Abby nos despedimos do meu pai. Foi uma despedida dolorosa... Nunca fiquei mais que alguns dias longe dele.
— Vou sentir sua falta. — Eu disse, controlando a emoção.
— Eu também vou, preciosa! — Disse. — Você sempre será minha princesa, Safira. Vá com Deus e em segurança.
Vi meu pai se despedindo de Abby e o velho não se segurou. Ele chorou, abraçado na netinha.
— Vovô, eu já volto. É rapidinho. — Ela disse, com sua inocência infantil. — Eu te amo! Já já estou de volta.
Meu pai, emocionado, beijou o rosto de Abby e a abençoou. Eu a peguei pela mãozinha e entramos para embarcar no avião.
No avião, Abby não entendia muita coisa, mas por ser uma criança muito linda e simpática, todos ao redor pareciam se divertir ao falar com ela. Ela é uma garotinha encantadora, mesmo. Uma idosa, que sentou ao nosso lado, começou a puxar conversa e minha filha mostrou as palavras que sabe em inglês: Todas as cores. Ela é uma menininha esperta.
— Que joia rara você tem, mamãe. — A senhorinha disse.
— Obrigada. — Falei.
Se ela soubesse que Abby foi rejeitada pela própria mãe, por ser filha de alguém perigoso, ficaria impressionada. Abby é um presente de Deus para mim e para a terra, porque por onde ela passa, arranca sorrisos.
— E que cor é essa, pequena? — Ela apontou para um chaveiro azul em sua bolsa.
— "Ajul". — Ela disse, e depois continuou. — Blue!
Senti um alívio preencher meu coração. Era como se eu estivesse deixando para trás todos os problemas. Me senti em fuga, sequer pedi demissão do trabalho, não avisei nenhum amigo... Apenas fui embora. E eu faria tudo de novo, se isso fosse proteger minha menininha.
Algum tempo depois, Abby acabou adormecendo no meu colo, e eu fiquei olhando seu pequeno rosto adormecido. Posso não ter gerado essa menina no meu ventre, mas com certeza, o amor que sinto por ela é um amor materno. Aquele amor que Deus compara com o dele na bíblia... Amor de mãe.
Beijei sua cabeça, encostei meu rosto ali e senti o cheirinho de perfume infantil. Acabei tirando um cochilo também, tranquila, apesar de não saber o que me espera em Nova Iorque. Eu confio em Deus e sei que ele fará o que for preciso para que nós duas possamos ser felizes!