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1401 Palavras
COCA NARRANDO Estou no avião para ir para Nova Iorque, com meus documentos falsos. Até que eu gostei do meu nome: Agora me chamo Rafael Oliveira. Demorou uma semana pra tudo ficar pronto, mas foi o mais rápido que consegui. Aqui no avião, estou mexendo na última carta que recebi e observando a assinatura de quem me entregou a carta: "G." Quem será essa pessoa que assina como "G"? Por que ela escolheu me atormentar depois de tanto tempo? Às vezes acho que essa pessoa quer me tirar do morro para enfraquecer os nossos negócios no tráfico. Mas ao mesmo tempo, penso que talvez isso seja prepotência minha, porque o Sorriso sempre trabalhou bem sem mim... Sinceramente, não sei o que pensar. Comecei a me lembrar de Jéssica. Como ela pôde esconder que tínhamos um bebê? Será que ela está realmente morta? Ela sempre foi uma perturbada da cabeça, mas nunca imaginei que ela pudesse chegar ao ponto que chegou, de esconder um filho e doá-lo. Cheguei em Nova Iorque e fui direto para o hotel que aluguei. Estava cansado da viagem, e assim que me joguei na cama, senti o cansaço vindo ainda mais para o meu corpo. Respirei fundo e pensei que estou ficando velho. Trinta e dois anos... Parece que foi ontem que fiz dezesseis... Quando acordei, já eram seis da tarde. Eu peguei meu celular e as informações novas que sorriso conseguiu me deixaram animado. Estava tudo no meu email, e eu fiquei chocado ao ver quantas crianças poderiam ser meu filho ou filha. Eles selecionaram as crianças que nasceram no hospital que Raíssa pariu, e conseguiram os nomes. Sorriso foi tão bacana que conseguiu inclusive uma pista, pois um garotinho de três anos foi doado uma semana depois que nasceu pelos meios legais. O nome dele é Lorenzo, tem três anos e está aqui nos estados unidos de férias com os pais. Tudo bate! Talvez esse seja meu filho. Eu saí para jantar, animado, enquanto esperava por mais respostas. Fui em um McDonalds bem perto do hotel, e naquele momento, eu achei que estivesse alucinando. Juro por Deus, achei mesmo que estivesse tendo uma visão ou ficando louco. Lá estava ela, sentada em uma cadeira do restaurante, e a filhinha dela sentada em um cadeirão. Safira, a garota que tem me atormentado mais do que eu gostaria. Eu definitivamente não esperava vê-la por aqui. Parece que o destino insiste em me juntar a ela, mesmo que eu não queira. Safira fazia aviãozinho com uma batata frita na boca da filha, que comia alegremente. As duas estavam sozinhas, e ver aquela cena me fez perder a fome. Eu me escondi por alguns instantes, mas então, Safira acabou me vendo. Ela arregalou os olhos, pegou a filha com pressa e fez menção de sair do restaurante, mas eu fui mais rápido. Fui até as duas e segurei o braço de Safira. — Ei, calma! Por favor, não quero atrapalhar o lanche de vocês. — Eu disse. — Isso só pode ser algum tipo de brincadeira. Você tá me perseguindo? — Ela disse, muito brava. Puxou o braço com tudo e me olhou com ódio. — Não! Safira, eu sei o que parece, mas eu não estou te perseguindo! A garotinha se encolheu nos braços da mãe e escondeu o rosto. — Não é o que parece? Primeiro, você aparece na porta da escola da minha filha. Agora, você está em Nova Iorque, no mesmo bairro que eu, no mesmo restaurante que eu, no mesmo horário que eu? Eu vou chamar a polícia! — Ela disse e, mais uma vez, eu a segurei pelo braço. — Safira, pelo amor de Deus. A sua filha está assustada. Eu não te fiz nada! Ao ver o estado da filha, que quase chorava, Safira cedeu e respirou fundo. Colocou de novo a garotinha no cadeirão e se sentou à mesa, cruzando os braços com as sobrancelhas cerradas, em raiva. — O que você quer comigo? — Eu suspirei ao ouvir o que ela disse, e ao ver que finalmente ela iria me ouvir. — Eu não quero nada, Safira. Juro por Deus. Eu nem ia te incomodar agora, mas você me viu e foi fugir... Não estou aqui por você. Estou aqui pelo meu filho. — Ela recuou ao me ouvir, e desfez a cara de brava. — Ah, você tem um filho? — Eu concordei com ela com a cabeça. — Sim, eu tenho. — Afirmei. — E como ele é? Qual o nome dele? E quantos anos ele tem? — Questionou, cruzando os braços mais uma vez, me olhando como se estivesse tentando me pegar na mentira. Passei uma das mãos em meu próprio rosto. "Como ele é". Eu também gostaria de saber... A verdade é que eu nem sei se é um menino, mas precisava dar uma resposta para Safira. — O nome dele é Lorenzo, ele tem três anos e se parece muito com a mãe. — Falei, finalmente, tentando ganhar tempo. — Ele está de férias aqui em Nova Iorque, então... Eu decidi vir também. — Hm, entendi. — Ela disse. Seu olhar ainda era desconfiado, mas ela parecia mais calma. — E essa princesa, como se chama? — Eu disse, levando minha mão até o rosto da menininha. Ela levantou o rosto enquanto mastigava uma batata frita, e sua bochecha tinha uma manchinha de ketchup. — Deixa eu limpar isso aqui, princesinha. Peguei um guardanapo de papel e limpei o rosto da menininha. A mãe dela observava todos os meus movimentos como se me avaliasse. — Abigail. — Respondeu, finalmente. — Mas ela gosta de ser chamada de Abby, acho que é mais facil pra ela de entender e falar. — Disse, olhando para a filha. Abby pegou uma batata e ofereceu para mim, e eu peguei, por educação, porque a batata estava visivelmente babada. — Oh, obrigado por dividir comigo, Abby. Sua mãe te ensinou a ser muito educada. — Eu disse, sorrindo. — De nada. — Disse, com sua voz infantil e fininha. — Está mais calma agora, Safira? — Perguntei, olhando agora para a mãe de Abby. — Não sei se engoli essa história de filho, mas eu não vejo motivo para você... Eu não sei, me perseguir. Eu sequer denunciei você para o hospital e quando o médico foi reclamar sobre ter sido ameaçado, eu disse que não vi nada e que as reclamações do paciente eram válidas. — Você disse isso? — Eu falei, rindo. — Aquele médico merecia umas coronhadas, isso sim. Mas eu sou cristã, não posso incentivar a violência, então, fiquei quieta. — Falou. Eu soltei uma risadinha e neguei com a cabeça. Ficamos em silêncio por um instante e ela finalmente voltou a comer também, como a filha. — Eu te dei meu telefone, por que não me ligou? — Quebrei o silêncio ao perguntar. Essa era uma pergunta que eu realmente queria a resposta... — Porque eu não quis. — Respondeu, seca. Eu dei uma risada irônica. — Não quis por quê? Se acha melhor que eu, Safira? — Perguntei e ela bufou. — Não... Não é isso. Eu não estou interessada em um namorado agora, tenho uma filha pra criar e acho que deu pra ver que você e eu somos muito diferentes. — Agora sim, eu ri com deboche e neguei com a cabeça. — E o que te faz pensar que eu namoraria você, Safira? Achei que pudéssemos ser amigos, mas não sei o motivo de ter pensado isso. Você é realmente uma pessoa arisca. — Eu acho que eu não sirvo para ter amigos, então. — Ela virou o rosto para a filha, e questionou. — Terminou de comer, meu amor? — Sim. — Respondeu a pequena. — Então já está na hora de irmos. — Safira disse. — Só me responde uma última coisa... — Eu falei, enquanto ela se levantava com a garotinha no colo. — Por que você acha que nós somos "diferentes", hm? É porque eu tenho um monte de tatuagens e você não? Ou porque eu tenho cara de bandido e você tá com medo? — Eu já disse, Rafael. Eu sou cristã, vivo enfiada na igreja, ou cuidando da minha filha, ou trabalhando... Só o fato de você ter uma arma já me faz pensar que nós somos de mundos diferentes. Nessa parte ela tem razão.
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