Capítulo 18 — O Que Nos Afasta

1180 Palavras
Já fazia uma semana. Sete dias desde que Luca saíra da fortaleza dizendo que precisava trabalhar. Mas ele não estava trabalhando. A casa onde estava hospedado ficava afastada da cidade, isolada entre colinas e silêncio. Não havia reuniões. Não havia negociações urgentes. Apenas distância. Distância dela. Luca estava sentado na varanda de madeira, o copo de uísque intocado ao lado, observando o horizonte sem realmente vê-lo. O vento frio da tarde não era suficiente para esfriar o que o consumia por dentro. Ele não entendia. Repassava a noite fracassada pela milésima vez na cabeça. O que tinha feito para que ela tivesse tanto medo? Ele nunca levantara a mão para ela. Nunca a ameaçara. Nunca a forçara. Ao contrário, tinha parado. Tinha saído. Tinha se afastado. Mesmo assim, ela tremia. Talvez o erro tivesse sido o casamento precipitado. Talvez o erro tivesse sido deixar o ciúme possesivo conduzir uma decisão que deveria ter sido estratégica. Ele queria protegê-la, mas também queria possuí-la. E misturar as duas coisas fora perigoso. Passou a mão pelos cabelos, irritado. Ele não sabia lidar com aquilo. Conquistar territórios era simples: força, estratégia, lealdade. Conquistar a confiança de uma mulher que um dia parecera desejar seus beijos e, ao mesmo tempo, o temia… era um campo de batalha que ele não conhecia. Pegou o celular pela terceira vez naquela tarde. Nenhuma mensagem. Ou melhor… quase nenhuma. Porque, na fortaleza, Beatrice estava tentando ser forte. Durante aquela semana, ela organizou cada canto da casa. Estudou a rotina dos funcionários. Aprendeu os horários de segurança. Fez questão de conhecer os detalhes do império que agora também era dela, e de tudo o Luca gostava ou não gostava. Tentava se convencer de que o medo precisava ser vencido. Não podia permitir que aquilo definisse seu casamento. Ela o queria. Queria aquele beijo de novo. Queria sentir as mãos grandes dele em suas costas. Essa era a parte mais difícil de admitir. Queria o toque dele. O olhar intenso. A maneira como a segurava pela nuca quando a beijava. Mas queria que fosse devagar. Queria aprender sem sentir que estava prestes a ser consumida. Sentada na cama naquela noite, o celular nas mãos, encarou a tela por longos minutos antes de digitar: “Precisamos conversar. Quando você volta?” Releu três vezes antes de enviar. Luca viu o nome dela surgir na tela quase imediatamente. O coração reagiu antes da mente. Precisamos conversar. Ele sabia que aquilo podia significar muitas coisas. Digitou com frieza calculada: “Sem previsão de retorno.” A resposta chegou rápida demais. Beatrice ficou olhando para a mensagem por longos segundos, sentindo algo novo surgir. Irritação. Sem previsão? Como assim sem previsão Agora era ele quem estava fugindo. Digitou novamente, os dedos mais firmes: “Você que me trouxe pra cá. Não pode simplesmente desaparecer.” Ele demorou mais dessa vez. “Estou resolvendo coisas.” Ela soltou um riso sem humor. “Resolvendo o quê? Não podia deixar alguém resolver? Estamos em lua de mel.” Silêncio. Ela respirou fundo. O orgulho começou a falar mais alto. “Eu vou embora.” A mensagem ficou entregue. Visualizada. Sem resposta. O peito dela apertou. Ele não respondeu. Aquela ausência agora não era p******o. Era punição. Beatrice levantou-se abruptamente. Se ele queria distância, ela daria. Abriu o closet e começou a retirar as roupas dos cabides. Movimentos rápidos, quase agressivos. Separou as malas. A respiração estava acelerada. Não era apenas raiva. Era medo de que ele estivesse desistindo. Do outro lado da cidade, Luca encarava a última mensagem. Eu vou embora. Parte dele queria responder imediatamente. Outra parte, a mais orgulhosa, queria que ela sentisse a ausência como ele sentiu o medo dela. Mas a ideia de ela sair da fortaleza… sair da sua casa… sair da sua vida… Não. Ele podia suportar a distância. Não podia suportar perdê-la. Levantou-se abruptamente. Não pensou duas vezes. Não pegou o copo Dirigiu de volta para casa. Na fortaleza, Beatrice fechava a mala quando ouviu o barulho do portão principal se abrindo. O coração falhou uma batida. Passos firmes ecoaram pelo corredor. A porta do quarto se abriu com força suficiente para marcar presença. Luca estava ali. Olhar intenso. Maxilar travado. — O que você está fazendo? Ela ergueu o queixo. — Indo embora. Ele entrou e fechou a porta atrás de si. — Você não vai a lugar nenhum. — Você não pode simplesmente sumir por uma semana e esperar que eu fique aqui esperando. Ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Eu saí porque você não me quer ao seu lado. Você repudia o meu toque. Eu não sei lidar com a sua rejeição. — Rejeição? — ela soltou um riso forçado. — Você que me rejeitou por uma semana, Luca. Eu vou embora! — Não vai! — a voz dele gritou firme. — Você é minha mulher! E não vai sair dessa casa sem a minha autorização! — Devo lembra-lo que eu não sou sua propriedade! — ela gritou mais alto. A tensão quebrou. Ela perdeu a força nas pernas e acabou se sentando no chão, tomada pelo choro que segurara por dias. — Eu não tenho medo de você… — disse entre lágrimas. — Eu estava nervosa, eu estou nervosa! É minha primeira vez. Eu queria que fosse devagar. Eu queria te conhecer… não queria simplesmente casar por casar. Era uma semana inteira de sentimentos represados. Saudade. Orgulho. Medo de não ser suficiente. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele se aproximou, mais devagar. — Então por que parecia que você estava tentando sobreviver? Os olhos dela estavam vermelhos. — Porque eu não sabia se você teria paciência. Ele parou a poucos centímetros. — Eu tive. — E depois foi embora. Ele respirou fundo. — Porque eu não sabia como ficar… sabendo que fiz você tremer. A respiração dos dois estava descompassada. — E eu não sabia como ficar… sabendo que você podia ir embora tão fácil — ela respondeu. A tensão entre eles não era mais feita de medo. Era feita de sentimentos m*l resolvidos. Ele ergueu a mão e segurou o rosto dela com firmeza. — Eu não desisto do que é meu. Ela segurou o pulso dele. — Eu não sou sua propriedade. Um quase sorriso surgiu no canto da boca dele. — Eu sei. E foi ela quem o puxou primeiro. O beijo começou como confronto. Intenso. Arrebatador. Mas diferente. Não havia medo. Havia escolha. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, aproximando-a do próprio corpo. Ela correspondeu, segurando a camisa dele, trazendo-o mais perto. O beijo tinha saudade acumulada. Raiva dissolvida. Desejo contido por dias. Ele a segurou contra a parede ao lado do closet, os lábios descendo pelo pescoço dela, sentindo-a responder sem hesitação. — Você ainda tem medo? — ele murmurou, a voz mais baixa. Ela respirava com dificuldade. — Tenho. Mas quero confiar em você. E dessa vez não era mentira. O medo tinha sido substituído por algo mais forte. Confiança. E o que começou como discussão transformava-se, ali, na primeira escolha verdadeira que faziam juntos.
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