Pré-visualização gratuita O encontro que o universo paralelo escondeu
Na região central de Moçambique, na província de Tete, erguem‑se belos planaltos que quase tocam o céu, conferindo‑lhe um clima ameno e fresco — muito embora a presença de empresas mineradoras também marque a paisagem. É uma terra famosa pelos seus gigantescos embondeiros, árvores cujo tronco atinge espessuras impressionantes. Quando chega a época da frutificação, o fruto do malambe beneficia a todos com o seu sumo saboroso, refrescante e reconhecido por ajudar na circulação sanguínea. A região não sofre de extremos excessivos, mas no auge do verão o calor intenso parece ofuscar um pouco a sua beleza natural; ainda assim, permanece um lugar valioso e profundamente apreciado.
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O Alvorecer da Lua nem sempre é acessível ao entendimento humano. Ninguém consegue explicá‑lo de forma simples ou linear, pois ele carrega em si um paradoxo que resiste a definições. É como uma ciência que procura a sua própria razão, que se fecha diante de quem tenta reduzi‑la a uma explicação única.
Lembra a postura filosófica dos engenhosos astronautas: eles observam ponto a ponto, tentam compreender os movimentos que regem cada órbita e os papéis que cada corpo celeste desempenha na harmonia do universo, na sua imensa complexidade. É algo difícil de captar para quem o vê apenas como um pequeno fragmento do saber — um enigma que nos conduz por labirintos, onde nem sempre é fácil encontrar o caminho de saída.
A própria lua marca as épocas e os ritmos; quando bem estudada, revela sabedorias que se vão herdando com o tempo. Muitas vezes m*l compreendida, ela funciona como uma força que impele o conhecimento oculto, levando‑nos a suplicar pelas suas revelações. E quando essas chegam, percebemos que tudo faz parte de uma busca constante por compreender o mundo: a lua não é motivo de perdição, muito pelo contrário — representa a ordem cósmica e universal, acessível apenas a quem se atreve a observar e a querer compreender o curso do tempo.
Ao recordar os acontecimentos que me acompanham desde menino, surge sempre a imagem do meu Avó, já falecido. Lembro‑me de como ele dedicava o seu tempo a transmitir‑me ensinamentos e histórias que, na altura, eram difíceis de compreender. Em resposta, eu apenas o olhava com o brilho puro de uma criança que ainda não podia imaginar o que o futuro lhe reservava. Com o crescimento, vieram os dias de trabalho árduo, na luta para encontrar sentido à vida. Circunstâncias por vezes duras, que o tempo moldou com mão forte, transformaram‑me: de menino orientado pelos seus responsáveis, tornei‑me jovem que aprende diretamente com a vida — e que percebe cedo que alcançar um final feliz não será tarefa fácil, como para alguns parece ser.
Crescer numa região e depois atravessar para outras realidades marcou‑me profundamente; ainda hoje, as minhas andanças prosseguem por lugares diferentes, com abraços que por vezes são acolhedores, por vezes indiferentes. Tão cedo, ainda pequeno e inocente, fui passando de mão em mão, aprendendo que a vida não é apenas um jardim de encantos e belezas — que traz consigo, sim, consequências duras e desafios inevitáveis. E não foi por ter desdenhado dela; pelo contrário: sempre vi e vejo a vida como razão maior de todas as minhas convicções e caminhos. É essa crença que me move: a certeza de que, em algum lugar deste universo, há sempre algo novo e belo para descobrir.
De canto em canto, como um andarilho em busca de sentido, fui vivendo como um nómada, sem uma sombra que fosse minha por tempo fixo. E nessas trocas de lares, via o esperado e o inesperado a cada porta que abria: famílias felizes com pequenas conquistas, tristes com pequenas perdas. Tudo isso me ensinou que as circunstâncias da vida podem ser, na mesma medida e ao mesmo tempo, boas e difíceis.
Hoje compreendo que a vida é uma soma de experiências vividas e por viver, e que os seus valores residem na capacidade de aceitar e compreender o que ainda vamos descobrindo.
Nem tudo pode ser decifrado de imediato: os meus afetos, os meus amores e desamores, os cânticos de alegria e as lamentações da melancolia. Ao longo desta jornada serena, conheci pessoas maravilhosas que já não estão entre nós — que partiram, deixando‑me apenas as suas grandes e pequenas lembranças. Outras permanecem vivas na memória, fazendo‑me refletir sempre que as recordo. E há ainda aquelas cuja partida deixou um vazio imenso no meu coração, que se queixa da sua própria incapacidade de lhes ter dado o amor que mereciam, na medida exata que devia. É doloroso lembrar‑me de figuras tão importantes, que levaram consigo os seus sorrisos, as suas vozes doces e as suas visões cheias de esperança sobre o futuro que desejavam tanto viver...
Num daqueles dias de sol forte, senti a alma ligada ao calor do universo, na imensidão das suas possibilidades quase utópicas. Era um cenário tão vasto que acalmava a mente, tornando‑me momentaneamente alheio aos problemas que enfrentava no dia a dia. Sem dar conta do movimento ao meu redor, senti crescer em mim uma angústia que habitava escondida. Mas para não ficar apenas refém da luz solar, esperava com ansiedade a chegada da noite: era então que erguia o olhar para o alto, para além das nuvens, embevecido pelas constelações — e no meio de toda essa beleza infinita, lá estava ela: a Lua, nascendo e iluminando tudo com uma presença majestosa.
Naquela manhã, linda e brilhante, sombras de alegria desenhavam‑se no chão, ao ritmo de quem caminhava com leveza. Eu corria devagar, procurando refúgio para a alma cansada pelo calor intenso. E foi então que, ao cruzar com alguém que vinha em sentido contrário, vi aquele rosto: belo, suado, desconhecido, mas com a expressão da mais pura e encantadora beleza que alguma vez vira. Os nossos sorrisos encontraram‑se na intensidade certa; os olhares cruzaram‑se, cativantes, ao compasso de cada passo. Até que, distraído demais, acabei por esbarrar‑lhe quase por completo, e ambos estivemos prestes a cair.
Talvez o universo tenha assim decidido: que aquele rosto lindo não fizesse parte do meu mundo de sonhos e imaginações, deixando apenas a possibilidade de um encontro futuro, com outras perspetivas e circunstâncias.
E talvez esse acidente involuntário seja a prova mais clara de que o verdadeiro afeto se constrói na própria incompreensão: na capacidade de gostar sem saber explicar porquê, de não conseguir definir com palavras todas as razões profundas que nos fazem amar alguém.
Por vezes sinto que em mim habita uma necessidade imensa, quase insaciável: olhar para o horizonte incerto e ainda assim conseguir vislumbrar possibilidades perfeitas, acreditando que a melhor forma de estar no mundo é demonstrar que o afeto é sempre o caminho mais forte para vencer as nossas dúvidas e incertezas. É como se o sol e a lua, que nunca se encontram, tentassem um dia unir‑se e trocar as suas funções — algo que, no entanto, seria impossível e desastroso para a harmonia do universo.