O coração quer o que quer

2651 Palavras
A porta de vidro dupla da sacada estava aberta deixando a brisa da noite entrar e também era um convite a um certo alguém. Nesse ponto eu estava só de uma simples camisola de domir de algodão que ia até os meus pés. Iker morreria em saber que estou recebendo homens no meu quarto, mas Kai não é mais um homem e isso há muito tempo. Eu respirei fundo. Dane-se o Iker. Ele mesmo não é mais das puritanas das pessoas, o maldito não pode me cobrar nada e sem dizer que ainda nem casamos ou ficamos noivos aindaporque ele quer esperar o maldito papel e a maldita coroa estarem na minha cabeça. Esqueci de como ele é ganancioso e só faz algo visando seu próprio bem. E sem dizer que ela ainda estava desconfiado de que o seduzi porque sabia sobre sua pretendente. Kai. Kai. Kai. O chamei na minha mente três vezes como as crianças faziam no mundo de onde eu vim e com a lenda urbana da Blood Mary. Eu morava em Salém, se eu já tentei isso? Nunca. A cidade das bruxas já me causava medo por ser das bruxas. Acho que ele não vem hoje. E está frio. É melhor eu fechar a porta e ir dormir. Mal terminei esse pensamento e levantei da cama para fazer conforme meu pensamento pedia, ele estava ali parado na minha frente. E o cabelo estava molhado. Hoje a lua rubra e agourenta não aparecia. Em compensação as nuvens densas deram lugar a uma chuva furiosa. Eu peguei um dos lençóis de seda na cama e o cedi a ele para que usasse como toalha. Ele pegou rindo de algo, como se dissesse que o frio não o incomodava, mas se enxugou mesmo assim. Então me sentei na cama e o convidei para fazer o mesmo. Kai retesou, desviou o olhar e disse: — Não é prudente que eu me sente junto a vossa alteza. Ah, blá blá blá... A droga do protocolo real i****a. Sinceramente, eu já estava exausta de tudo isso. Soltei um suspiro. — Pois fique em pé, i****a teimoso. — Resmunguei realmente cansada de todos eles. Então eu evitei olhá-lo e com a ponta do meu dedo contornei o desenho de fênix bordado com fios dourados no tecido que revestia a cama. — O que acha das minhas escolhas? Estão sendo inteligentes ou muito burras? — Está viva, tem direito ao trono, é uma princesa e está prestes a se casar com o seu amor e salvar Kalahan do seu destino c***l pelas mãos do seu tio. — Ele apontou quase me elogiando. Eu sorri meio que sem querer. — Mas ainda temos Serper. E o fato de Alexander ter matado seu pai. — Se para viver aqui é preciso que Alexander viva, que seja, Kai. — Eu me vi falando e dei um suspiro. — Posso deixar ele viver se isso significa que as pessoas que amo estão bem. A honra do meu pai não significa nada agora e eu nem o conheci. Mas conheci você, Iker, Kalahan, Gaia e Wereck. — Ilustrei um pensamento. Kai assentiu. No fim, ele sentou-se na minha cama ao meu lado e cheirou meu cabelo. — Sarah então? — Questionou-me como se para ter certeza. Confirmei, depois de um longo suspiro. Seus dedos vieram ao meu cabelo. Tirei meus sapatos e deitei-me com a cabeça em seu colo. — Sabe que quando te conheci, eu só conseguia pensar... quem é esse cara magnífico? Porque eu já tinha te visto numa visão antes, sabia que era o rei dos deuses da carnificina só que não sabia de fato quem você era. Mas quando você se materializou naquela guerra e queimou um dos soldados de Alexander mesmo chovendo... nossa! Meu coração bateu rápido. Você parecia lindo em meio a chuva e falando todo imponente e sinistro. — Confessei deixando que Kai continuasse a mexer no meu cabelo. Os dedos dele pararam em meus fios e nossos olhos se encontraram. Ele me cedeu um charmoso sorriso de lado, mas me afastou do seu colo, me fazendo sentar novamente e deu de ombros: — Eu só usei o fogo naquele dia. Não é nada demais considerando minha espécie. — Ele comentou amargurado, sem me olhar e focado na saída. Eu neguei com a cabeça. — Você salvou Iker, salvou Fedrer e salvou a mim naquele dia. — Eu consegui dizer com gratidão, eu queria ter dito isso ao Kai que eu conheci, mas por agora esse Kai também servia para compreender o quanto eu estava realmente agradecida. — Se não fosse por você, eu não sei o que seria de nós. Eu só consegui meu trono, graças a você, Kai. Quer dizer, majestade. Devo te chamar de majestade aqui? — Eu estava realmente curiosa sobre isso. Kai tocou meu rosto, deu um longo suspiro e negou com a cabeça e respondeu: — Pode me chamar só de Kai, Sarah. Eu sorri para ele, estava aliviada que ele entendesse que o protocolo real me irritava. E novamente, nossos olhos se encontraram e eu desviei incapaz de sustentar a intensidade dele. Soltei um profundo suspiro. E de repente, estar assim com ele me deixou constrangida como nunca antes. A dona aranha subiu pela parede... comecei a cantarolar mentalmente em inglês e ele riu. — Belo jeito de distrair sua mente, Sarah. Cantigas do mundo em que esteve e que eu não conheço o significado.— Ele apontou, sarcástico, e roçou o nariz no meu. Ofeguei incrédula. Por um momento desejei ser homem para ser objeto de seu desejo. Kai apenas deixou os olhos violetas pairaram em mim e me encarou de cima abaixo e eu engoli em seco com o coração batendo rápido. Eu o beijei quando identifiquei o que podia ser cobiça em seus olhos, mesmo que fosse um pouco. Kai não reagiu. Óbvio que não reagiu, até porque ele não puxa para esse lado. Eu apenas parei o beijo com um pedido de desculpas já formulado no meu coração e na minha mente, mas ele apenas colocou o indicador sobre os meus lábios e fez que não com a cabeça. — Desculpa. — Falei mesmo assim. — Desculpa. Eu não sei o que deu em mim, eu só... Eu sei que você gosta de homens, não precisa nem me dispensar e... Kai tomou um profundo suspiro. Ele tocou meu rosto. — O príncipe draconiano terá sorte em tê-la como esposa dele. — Constatou c***l. Eita. Qual a desse tom? Ele me analisou sombriamente e passou a unha pelo meu pescoço. Sem querer um gemido escapou dos meus lábios. Eu esqueci de como Kai pode ser sensual. — Posso? — Ele questionou se fazendo de i****a. Eu apenas arqueiei a sobrancelha. — Quero dizer, posso morder você? Estou com muita sede e não quero que um inocente daqui para meu reino sofra as consequências. — Ah tá. Isso você pode sim. — Deixei. Não tinha problema ele beber de mim. Fechei os olhos por algum motivo. Esperei a mordida dele. E antes que eu percebesse seus lábios estavam na minha boca. O que no Inferno? Meus braços passaram por seu pescoço e eu correspondi trêmula ao seu beijo e o deitei na minha cama. Eu abri os olhos me perguntando se isso era um sonho erótico. — Sonha assim comigo? — O maldito jogou. — Não devia sonhar assim com seu futuro marido? — Questionou no meu ouvido. — Vá embora agora! — Gritei saindo de cima dele. Ele foi até à porta. — Devo aparecer amanhã, Sarah? — Questionou-me com um sorriso de canto nos lábios que não me ajudava a raciocinar. — Não, nem amanhã e nem nunca mais seu maldito i****a. Acha que pode brincar assim com os meus sentimentos? Eu ia gritar mais, mas Kai já tinha sumido. ... No pátio de treinamento de Fenit ao ar livre e com o sol escaldante, eu apenas observei a flecha nos meus dedos e analisei o alvo. Posicionei o cotovelo, ergui o queixo e puxei para trás o nock da flecha buscando impulso com o arco e atirei. Ouço o zumbido e a flecha alcança seu alvo central, é podia ter sido melhor. Estou fora de forma. Iker, Alexander, Kalahan e Vince me observaram surpresos. É só uma flecha na porcaria de um alvo para quê fazer tanto alarde e essas caras estupefatas? Percebi que não eram só eles me olhando quando notei que eu era a única mulher aqui. Uma versão mais jovem de Godwin ainda se preparando para se tornar cavaleiro e outros homens e jovens que desconheço me analisavam surpresos. Ah é, eu sou mulher. Uma mulher que não sabe bordar, desenhar, jogar a sorte ou pintar. E prefere ficar com os homens do exército que com as nobres. Ah, que porcaria! O beijo com o Kai fica se repetindo e se repetindo na minha cabeça. Eu nem consigo fitar Iker agora. Que merda foi que eu fiz? Não significou nada para o Kai, com toda a certeza. Mas meu coração bateu tão rápido e... Coloquei o arco e aljava sobre a mesa e dei um suspiro, irritada. — Você é boa. Muito boa. — Foi de Vince que eu ouvi isso. Eu apenas forcei um sorriso para ele, que correspondeu e me olhou de um modo interessado e curioso. A pele morena dele refletia com o sol e seu cabelo curto, mostrava que ele não era draconiano que tinham a tradição de deixar o cabelo crescer. Um homem muito lindo mesmo. — Eu aprendi por necessidade. — Confessei sem ar a ele. — Eu não podia usar a espada sempre porque alguns inimigos eram poderosos demais para me aproximar e atirar à distância era a forma certa de não me arriscar. — Expliquei. Vince assentiu parecendo ainda mais interessado. Eu me referia aos deuses da carnificina. — Sabe usar a espada, Sarah? — Alexander que me perguntou sem conter a surpresa e parecendo realmente feliz. — Um pouco. Bordar, tirar a sorte e os outros afazeres da dama não colocavam comida na mesa. Tínhamos que caçar, meu marido e eu— Menti. — Meu marido me ensinou como atirar com arco e flecha e a usar a espada. — Disse outra invernade novamente porque não aprendi a lutar só com Iker, tive Kai, Cafeus e depois Godwin como treinador. E enquanto com Cecily eu aprendia a me tornar uma rainha nos protocolos mais necessários, com Godwin eu terminava de me tornar a maldita da Xena a princesa guerreira. E treinar foi a única coisa que fez com que eu não perdesse o foco além da criança que adotei. — Surpreendente. — Murmurou Kalahan com os olhos verdes cheios de respeito mudo e os lábios retraídos no que parecia quase um sorrisinho encabulado. Um sorriso veio aos meus lábios nesse instante. Ver seus olhos verdes repleto de admiração por mim agora era legal. Acho que ele notou que eu não seria só uma nobre fútil, por mais que ainda me odiasse e parecesse focado em Demetria, m*l sabia ele que ela já estava a sua frente. — Os calos nas minhas mãos não só de enfeite, querido. — Eu disse assim e toquei Kalahan no rosto, sentindo seu calor. Ainda era um menino. Não tinha nem a sombra de barba assim como Iker. Ah, eles ainda são tão jovens. Será que é assim que Kai se sente? Como se olhasse para crianças? Alexander me observou com um sorriso mínimo. E então a Iker com certo desafio. — Será que eu devia entregar minha filha amada como esposa a um de nossa pátria? Kalahan tem boa linhagem no fim. E eu ficaria mais que feliz que ele reinasse junto a minha Sarah quando eu me for. Mais do que deixar um arrogante draconiano ter meu trono. — Sugeriu Alexander como se realmente analisasse. Eu só sei que foi uma provocação de algum modo. Sempre sei quando mentem. Eu sei e Alexander também sabia que Iker só queria meu título como princesa herdeira. E Alexander parecia querer a paz, só que não queria ceder com tanta facilidade e parecer desesperado por ela. E mexer com ego de Iker o divertia. Não posso culpá-lo em mexer com ego de Iker. Na verdade, era bom ver esse príncipe arrogante baixar a bola. No fim, quando soltei Kalahan, Alexander me tocou no rosto e beijou minha testa. Contive meu asco novamente. Era como entrar no chiqueiro de porcos, a gente se acostuma. Enfim, Iker apenas ignorou a fala de Alexander olhando para os outros homens que treinavam. — Eles são brutos com a espada. — Iker desdenhou. — Parecem broncos segurando uma lâmina. Pérolas dadas para os porcos. — Disse atrevido. Eu não via nada de errado. Eram sim lances brutos e golpes pesados, mas bastante úteis se considerasse a força bruta por trás. A nação de Iker lutava com sagacidade e habilidade. Já em Fenit, lutávamos com força e instinto. E o instinto de sobrevivência pode ser sim mais poderoso do que a estratégia perfeita. Estratégias podem falhar, querer ficar vivo é sempre um forte incentivador. — Ah, como não vamos mais guerrear sinta-se à vontade para ensiná-los algum de seus golpes pomposos, alteza. — Alexander debochou de Iker e eu ri meio que sem querer. Iker apenas bufou de nariz empinado e com as mãos atrás das costas nos estudando com puro desdém e como se fôssemos selvagens, eu revirei os olhos pela pose afrontosa, apesar de poder apreciar sua beleza assim, e Iker apenas fuzilou Alexander com os olhos azuis sinistros que ainda não eram tão frios e psicóticos como quando eu o conheci. Iker sabia ser mais frio que as Montanhas do Inverno Eterno quando o convinha. Eu lembro nitidamente disso. Alexander não se intimidou nenhum pouco. Ah, esse maldito conflito de egos! Sem paciência para isso. Quero Kai. Sentir os lábios de Kai e beijá-lo e... Mesmo seus lábios sendo gélidos e tenha sido como beijar Hella, eu ansiava senti-lo novamente e ofeguei com a lembrança dele em minha cama e seus lábios nos meus. Mesmo ele sendo frio me queimava. Eu me recordo que o joguei na minha cama. Ah, merda. O que eu queria que ele fizesse afinal? Kai curte homens e ponto final. Para com isso. Você vai casar, garota. Eu tremo, incrédula. Não. Não. Não. Que merda é essa? Eu estou pensando num cara que curte homens. Caramba. Que decadência em Demetria. Garota, devo dizer que ter uma paixonite por um cara que curte homens é o ápice do desespero. Quer dizer, Iker curte homens também, nada contra. É só que Kai só curte homens. Como posso pensar em Kai quando Iker está bem aqui na minha frente? Eu engoli em seco analisando meu futuro marido. O que tem de errado comigo pensando num maldito deus da carnificina que só me beijou para debochar dos meus sentimentos por ele? Eu apenas saí do pátio deixando que eles se digladiassem com as palavras e rezei para que o sol fosse logo embora e trouxessem a escuridão que o conduzia a mim. Meu querido Kai. Eu estava contando as horas e o arco e flecha era apenas uma forma de distrair minha mente para o pôr do sol ir embora. Eu apenas queria ver Kai. Eu tenho que pensar numa forma de não entregar meus pensamentos para ele. De lembrar das músicas da Terra e as cantarolar em minha mente e de deixar o draconiano e o fenitense para trás e voltar a pensar em inglês. No fim, agora Iker e eu para todos os efeitos estávamos nos cortejando e eu seria a princesa dele. Sim, é só uma atraçãozinha pelo Kai. Nada demais. Calma. Ele é bonito mesmo. Normal. Atenha-se em seu lindo príncipe e esqueça o deus da carnificina que brincou com os seus sentimentos.
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