Capítulo XIV

1735 Palavras
Matheus O tempo no Rio era estranho, acho que apenas os cariocas eram capazes de entender. Eu vivia aqui a muitos anos, mas parecia difícil para mim, entender como a cidade te induzia a pensar que vinte graus era uma temperatura bem fria, sendo que, se pararmos para analisar friamente, os termômetros marcavam essa média em uma boa parte do ano. A verdade é que em abri a temperatura começava a ficar incerta, dias de bastante frio, dias de muito calor. Se seguia assim até, não sei, junho. E então nós tínhamos 2 ou 3 meses em que realmente era difícil ver os termômetros subirem. E então, de setembro a novembro, mais ou menos, voltávamos aquela escala de dias tão calorentos quanto o verão e tão frios quanto o inverno. E finalmente, de dezembro a março, vivíamos o verão intenso. Acho que na verdade, o fluminense em um geral, porque imagino que isso não acontecia só na cidade do Rio de Janeiro, mas também no resto da Região Metropolitana e na Região dos Lagos, pelo menos, focava tanto no calor que esquecia que o frio não era raridade. Não era um frio absurdo, mas ele existia, por um período até que grande de tempo, pelo menos nos últimos anos. E talvez fossem todos apaixonados pelo calor e pelo verão, mesmo àqueles que juram de pé junto que preferem o inverno (e que passam o inverno inteiro reclamando de que estão com a sinusite atacada). E a atmosfera carioca, nos dias quentes, era completamente diferente. As pessoas brilhavam, a alegria se espalhava, a vibe era sensacional, a sensação de que estávamos sempre em período de fim de ano, férias escolares ou carnaval se fazia presente, as pessoas aparentavam estar mais felizes e acho que, na verdade, estavam mesmo. A cidade era estruturada para o calor, então mesmo para aqueles que não gostavam das temperaturas altas, ficava fácil de entender que as coisas funcionavam melhor quando o sol aparecia e queimava a cidade. Seja porque não se vendiam casacos suficientemente quentes ou porque parecia que o frio sugava todas as energias dos trabalhadores, porque eu mesmo, se fizesse menos de vinte graus, não queria me levantar da cama e ir trabalhar e fazia isso por pura necessidade. Viver no Rio de Janeiro, pouco a pouco, faz com que a carioquice se torne uma parte de seu ser. Não tem como fugir e, na verdade, não entendo o porquê de alguém querer fugir, porque a cidade maravilhosa não ganhava esse título só por sua beleza física (que para muitos só existia em algumas partes da cidade), mas era pelo povo, pela cultura, pela atmosfera que nos fazia feliz, que me fazia sentir em casa. E naquele dia, bem, naquele dia eu acordei feliz. Obviamente, alguns luxos tornavam a vivência na temporada do calor mais tranquila, pensei nisso enquanto desligava o ar-condicionado do meu quarto, mas pensei também que enfrentar o frio para aqueles que não tinham onde morar ou o que vestir, poderia ser muito mais desafiador do que enfrentar o calor. No fim das contas, pontos positivos e negativos estavam atrelados às quatro estações do ano, mas a minha preferida estava prestes a se iniciar, apesar de sua temperatura ter chegado antes de seu início, no dia vinte e um de dezembro. Tomei um banho com a água em temperatura morna, preparei um café da manhã leve e saudável com torradas, patê salgado caseiro e uma vitamina de frutas. Por fim, voltei para o meu quarto para escolher o que vestir e, bem, nessas horas, tudo o que eu queria era que fosse socialmente aceitável que homens usassem vestidos, porque manter as minhas pernas de fora e usar uma sandália aberta, para ir trabalhar em um dia de calor, me parecia um sonho de consumo. Apesar da reclamação, eu trabalhava em um ambiente que nos permitia sermos criativos e menos formais. Apesar disso, minha função era específica e pouco ligada com a criação em si, mas somente de não precisar usar um terno como advogados precisam ou até mesmo roupas mais formais utilizadas por psicólogos clínicos, eu já me sentia feliz. Optei por utilizar uma calça de linho bege, por se tratar de um tecido fresco, leve e, nesse caso, de cor clara, o que ajudaria o meu corpo a não reter o calor para si. Escolhi uma blusa de malha branca, era de manga, mas seu material era bem fino. Por fim, separei o par de meias mais fresco que eu tinha, porque passar o dia inteiro de sapato fechado sem utilizar meias era algo que estava fora de cogitação. Calcei meus tênis brancos e peguei a minha mochila, ajeitando as coisas dentro dela. Penteei meu cabelo, passei um perfume diurno próprio para aquela estação do ano e olhei as minhas mensagens em meu celular, vendo se Brenda já estava me esperando, lá embaixo, para me dar carona. Quando ela me respondeu que sim, eu já estava pegando uma garrafa de água na geladeira e seguindo para a porta. A tranquei e entrei no elevador, rumo ao térreo do prédio onde eu morava. Cumprimentei o porteiro que ficava por ali naquele horário e saí pelo portão de pedestres, um Jeep Renegade Branco estava parado logo ali na frente e não demorou quase nada para eu identificar a cabeleira loira de Brenda. Dei a volta no carro, entrando no banco do carona e sendo atingido pelo vento gelado do ar-condicionado. —Bom dia—a cumprimentei. —Bom dia, Matheus. Como passou a noite? —Dormi como nunca, e você? —Apaguei, também. Estava morta de cansada. —Andei pensando, acho que só vou conseguir um tempinho para ir ao shopping na quinta-feira, depois do trabalho. Preciso comprar umas coisas para levar para o nosso fim de semana em Angra. —Precisa comprar roupas de verão e de praia? —ela me questionou. —Digamos que, na última temporada de frio, eu estava um pouco viciado em academia, então agora eu tenho umas roupas largas e outras embeiçadas— falei. —Você me parece bem em forma! —Acho que sim— dei de ombros— Mas eu estava tomando suplemento e malhando todos os dias, então estava bem musculoso. —falei. Eu ainda tinha alguns músculos e uma barriga com um discreto e sutil tanquinho, mas nada se comparava ao armário que eu estava virando, no semestre anterior. Percebi, entretanto, que estava me forçando a comer muito e me sentindo menos saudável, por isso diminuí os exercícios e decidi, junto a minha nutricionista, optar por uma alimentação mais leve e flexível. Eu andava correndo três vezes na semana e fazendo musculação outras três, mas com a facilidade da academia no prédio, as vezes eu optava por me exercitar de manhã cedo, outras vezes depois do fim do expediente, as vezes por duas horas, outras por vinte minutos, dependia do meu humor. Tudo isso me fez ter uma relação mais saudável com o meu corpo. Desde que ouvi que todo exercício é melhor que exercício nenhum, tenho me cobrado menos por um padrão alto e dado o meu melhor a cada dia, mesmo que o máximo que posso oferecer varie de acordo com o dia e com a minha mente. —Eu estou tentando buscar um equilíbrio, também. Não paro no fim de semana, passo ele todo em cima de uma prancha, praticamente. Ao mesmo tempo, sei que preciso de uma atividade paralela e diária, porque se não for assim, quando chega no sábado eu não aguento o pique e depois fico chateada por não ter aproveitado as ondas, tanto quanto queria. Antes, eu estava fazendo uma caminhada curta todos os dias, mas desde que o inverno, comecei o meu “projeto verão”. —Por conta do corpo, em si, ou para criar mais resistência para conseguir surfar por mais tempo, durante o verão? —a questionei. Meus olhos correram, inocentemente e sem querer, para as suas coxas grossas e expostas pelo vestido branco de alcinha e com estampas floridas que ela usava, junto com tênis da mesma cor. Seus cabelos estavam soltos e lisos, também. —Para criar resistência. Comecei a fazer um pouco de cardio duas vezes na semana, musculação mais três, além do surf no sábado e no domingo. Senti diferença no meu corpo no mesmo mês, mesmo não sendo esse o meu objetivo principal. —Nosso ritmo de exercício é parecido, então, mas eu faço três dias de cardio e três de musculação, de segunda a sábado. A diferença é que eu não acrescento o surf ou nenhum outro tipo de exercício, nos fins de semana. —Mas então você malha aos sábados, também? —Eu tento. Na verdade, depende da semana. As vezes não malho às segundas e me forço a ir para a academia nos dois dias do fim de semana, as vezes escolho um deles para descansar e malho todos os dias úteis, vou variando de acordo com o que tenho para fazer, naquela semana. Gosto de escutar o que meu corpo precisa, o que a minha mente está pedindo, então tento balancear entre ter disciplina e passar por cima da preguiça e, ao mesmo tempo, não me forçar a nada, não fazer do exercício uma relação tóxica, que só me faria m*l. Por isso decidi diminuir o ritmo, mesmo que isso tenha me feito diminuir os músculos pela metade, também. —Ah, para. Tenho certeza de que você tem um tanquinho por baixo da sua roupa. —Engraçado que penso a mesma coisa de você, Brenda. Não que eu esteja pensando em como você é quando está sem roupas, longe de mim! —Estamos no mesmo ponto, então, Matheus. E inclusive, essa sua blusa é muito fina, então ela já me entregou muita coisa, não é como se eu estivesse pensando sobre ou reparando! —m*l começamos a namorar e você já está reclamando porque eu estou usando uma blusa muito reveladora, Brenda? —brinquei com ela e nós dois rimos da cara um do outro. —Vou te dar um voucher, você tem direito a uma reclamação sobre alguma roupa que eu usar, no período em que estivermos “namorando”. Use com sabedoria, porque as vezes eu faço umas combinações que só eu acho que ficam boas. —Vou guardar para um momento mais oportuno, então! —É uma escolha inteligente a se fazer!
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