Capítulo XIII

2153 Palavras
Brenda —O que houve? —perguntei, quando cruzei com Matheus no corredor, na hora de ir para casa. Ele estava passando a mão pelos cabelos e os bagunçando, enquanto seus olhos estavam vermelhos e ele parecia cansado, desleixado e reflexivo. —Não sei se posso quebrar o sigilo dos pacientes. Na verdade, sei que não posso, só não sei se aquilo foi realmente uma consulta— falou, quando paramos juntos para esperarmos o elevador. Vim de carona com ele e teria que voltar do mesmo jeito— Onde estão as meninas? —Raíssa saiu mais cedo, tinha dentista. Mariana obrigou Fernanda a ir jantar com João Pedro e, depois, foi para casa. —Você acha que... Rola alguma coisa entre eles dois? —ele perguntou, se referindo a minha comadre e seu amigo íntimo. —Não sei, as coisas são complicadas para Fernanda. Ela ficou viúva muito cedo, tem medo de se envolver por causa de Mariana e, eu não discordo dela, sei que ela tem que viver uma vida e que ter uma filha não a faz menos mulher, ou ter menos necessidades fisiológicas. Mas no mundo em que vivemos, é difícil se vincular dessa forma quando se tem uma filha adolescente, que parece um para-raios para possíveis abusadores. — fiz uma pausa, para entrarmos no elevador que tinha chegado ao nosso andar— Sofri mais assédio em minha adolescência do que em minha vida adulta inteira, acho que é assim com muitas mulheres, por isso Fernanda se fechou tanto, para não dar chance de colocar a filha dela em uma situação como essa. Quando Mari era pequena, era fácil esconder os casinhos, mas conforme ela cresceu e, principalmente, trabalhando no mesmo ambiente que a mãe, fica mais difícil. E ela ainda é ingênua, apesar de muito madura, ainda acredita no amor de conto de fadas e se a mãe dela aparecer namorando, ela vai idolatrar o padrasto. Se não dá certo, são três corações partidos, não dois. Sei da índole de JP e acho que, justamente por ser quem é, ele pode passar a confiança necessária para quebrar as barreiras de Nanda e deixar ela se permitir, se apaixonar novamente, mas não posso dizer que não entendo os receios dela, a privação em que ela se colocou, para proteger a filha dela. Ela não deveria precisar fazer isso, mas no mundo em que vivemos, você sabe, todo cuidado é pouco. Caminhamos por entre os carros parados no estacionamento, depois de paradas do elevador em alguns andares, que fizeram com que o trajeto até a garagem demorasse um pouco mais do que o normalmente previsto. —Eu entendo, realmente entendo. Acho muito louvável o cuidado em que ela tem, até de se privar de viver certas experiencias, sendo uma mulher muito jovem e solteira, para não expor a filha a riscos. É muito nobre da parte dela! Imagino que ela só queira um relacionamento se for algo sério, saudável, confiável, que vá agregar não só para ela, mas para Mari também. Não a conheço para me meter, mas conheço João Pedro melhor do que a mim mesmo e tenho certeza de que ele está disposto a viver tudo isso com ela, no tempo dela. —Ele é intenso, desse jeito? —Ele é apaixonado por ela há muitos anos. Mas não conte para ninguém que eu te falei isso— ele disse em tom de voz baixo, piscando um olho logo em seguida. Entrei no banco de carona do seu carro e passei o cinto de segurança pelo meu corpo. —Eu não fazia ideia. Se bem que... Se eu parar para pensar, faz bastante sentido! Ele sempre demonstrou uma grande admiração por ela, isso é fato, mas demorei para vincular tudo isso a algum sentimento romântico. Achava que ele era encantado pela história de vida de Fernanda, pelas batalhas que ela enfrentou. Não a desmerecendo como mulher, se há alguém que merece um amor puro e genuíno, é Fernanda. Além de linda, não conheço outra pessoa tão inteligente, doce e forte como ela. —Ele precisou viver as fases dele, acho que sempre teve consciência de que só deveria tentar com Fernanda no momento em que quisesse algo sério, que decidisse sossegar. Mas querer, admirar, nutrir sentimentos, isso não é de hoje. A vontade estava ali a muito tempo, acho que ele não tentou antes porque sabia que não daria certo, que eles estavam em momentos diferentes e que ele acabaria estragando tudo. —Isso é bem admirável, saber encontrar o timing certo para conseguir realizar nossas ambições pessoais... As vezes sinto que muita coisa não deu certo na minha vida justamente porque as busquei no tempo errado. —Penso da mesma forma, Brenda. Apesar disso, não posso reclamar muito, consegui a maioria das coisas que desejei, outras, posso até não ter conseguido, mas meus sonhos mudaram e me contentei com o caminho que segui, com a direção que a vida me levou. Hoje, m*l consigo pensar e lembrar de algo que quis e que não consegui. —Sorte a sua! Gosto de pensar que as coisas acontecem da forma como tem que acontecer e que, se pudéssemos voltar no tempo e mudar as coisas, não teríamos como absorver as lições que aprendemos. —Respirei fundo, desabafando— Mas a verdade é que eu queria ter dado mais uma chance para o surf, queria ter conciliado ele como parte indispensável da minha vida profissional, também. Acho que deveria ter fechado mais os meus ouvidos para que os outros diziam, achavam ou pensavam. —As vezes nossos sonhos não são nossos, são importados de sonhos alheios. Da mesma forma, nossas desistências também são moldadas por pensamentos de terceiros, é bom e r**m, ouvir opinião não é sempre a pior escolha, mas acho que devemos ter uma lista muito privada com nomes que realmente nos dão opiniões importantes, que contam para nós. —Matheus me disse, de forma sucinta. —É o que dizem, se conselho fosse bom, não era dado, era vendido! —Exatamente, Brenda! Nem todos querem o nosso bem, acho que deveríamos ouvir aqueles que sabemos que não só desejam o melhor para nós, mas entendem o que nós vemos, queremos e desejamos como a melhor opção. —É, as vezes sinto que minha tia Sandra cortou as minhas asas com relação ao surf por pensar que não era o melhor caminho para mim. Da mesma forma, com essa história da necessidade de um namorado, entendo que ela fala porque pensa que está me ajudando e me incentivando a buscar o que é o melhor, mas não necessariamente o que ela acha que é o melhor para mim, realmente é! —Falei, focando mais uma vez na minha relação familiar. —Porque ninguém se conhece tão bem como você, ninguém te entende tão bem como você. Você deve sim levar em conta as opiniões daqueles que te querem bem, mas a palavra final, a decisão, deve ser sempre sua, afinal de contas, só você sabe o que passa em sua cabeça! —Você tem razão, Matheus. Acho que acabo esquecendo de priorizar as minhas vontades! —É normal, mas devemos estar sempre atentos quanto a isso. É como a balança da vida, o equilíbrio é sempre importante! —Você é bom nos conselhos! —Me pagam para isso— ele brincou, voltando a piscar um olho. Ri baixo, reparando na estrada pela primeira vez desde que entrei no carro. Já não estávamos muito longe da minha casa, a conversa tinha me distraído. —O dia foi pesado? —Agora que estamos fora da empresa, me sinto seguro de falar. Acho que estou sendo um pouco desleal em quebrar o sigilo, mas aquilo não foi bem uma consulta, além do mais, preciso desabafar com alguém e acho que o que foi dito é importante para o nosso trato. —Ai meu deus, porque sinto que o nome de Tuane está envolvido? —É porque está! —E o que ela fez, dessa vez? —Depois do almoço, a secretária me disse que um funcionário tinha tido uma crise de ansiedade. Ela perguntou se eu poderia o atender, eu prontamente mudei a minha agenda do dia, para encaixar essa pessoa. —Era Tuane, não era? —Era. E a crise de ansiedade nunca existiu, ela admitiu que mentiu, para conseguir falar comigo. —Ela é obcecada? —Hoje tive ciência de que sim. Ela falava de uma forma, como se tivesse sido traída. Expliquei, várias vezes, que nunca tivemos nada. Relembrei, vários momentos, em que disse para ela que podíamos ser amigos. Falei que já tinha contado para ela que estava namorando, que inclusive foi ela quem espalhou para todo o escritório que eu estava mentindo, mas ela continuou se fazendo de desentendida, como se tivesse acabado de descobrir. —Que mulher louca! Nossa, o que vamos fazer? Estou com medo dessa mulher invadir a minha casa e me m***r enquanto eu durmo— falei brincando, ou nem tanto assim. Estava realmente assustada e não duvidava de mais nada nesse mundo. —Fiz algo errado, mas foi o único jeito que achei. Dei a ela um número de telefone, de um amigo psiquiatra. Falei para ela ligar e marcar uma consulta, falei que ele era bonito e a instruí a não faltar, dizendo que de repente ele se interessaria por ela. —Meu Deus, Matheus, isso foi cem por cento errado! —Eu sei, mas acho que ela precisa passar pela avaliação de um psiquiatra e depois começar um tratamento psicológico, em uma clínica especializada, fora do ambiente de trabalho. Só não sei que, ou de que forma, vão conseguir convencê-la disso. Ela estava completamente transtornada. Fiquei assustado, não lidava com nada parecido desde a minha época de estágio, não é o tipo de caso que conseguimos tratar dentro da empresa, então pensei que aquela fosse a melhor escolha a se fazer, para o bem dela, mesmo parecendo meio errada. Até porque eu estou envolvido demais, não posso atende-la, uma vez que sou eu que, supostamente, causo seus problemas. —Meu Deus, isso é muita loucura— falei. —Estou me sentindo um pouco culpado, de ter inventado toda essa mentira de namoro e ter causado esse surto psicótico nela. —Pense assim: você não é afetivamente responsável pelos sentimentos dela, pelo que ela cria, pelo que ela pensa ou deixa de pensar. Você não a traiu, não a deu falsas esperanças, você não foi um filho da p**a com ela, em momento nenhum. Se isso não acontecesse agora, o que quer que ela estivesse pensando que vocês dois tinham, só ia se tornar maior e mais obsessivo, com o tempo. E ai, quando você se envolvesse de verdade com alguém, tudo acabaria sendo muito pior e mais problemático. —Você tem razão! Só sinto muito por não ter conseguido fazer mais e por ter acabado atrapalhando, desregulando algo que já estava desregulado, dentro dela. Me questionei se realmente fui claro com ela, mas tenho certeza que sim. Nunca nem nos beijamos, na única vez em que saímos juntos, eu falei que era um encontro de trabalho, não sei de onde ela tirou que tínhamos algo, não sei como ela pensou que um namoro funcionava desse jeito, que tínhamos estipulado algum tipo de fidelidade um ao outro, se m*l nos falávamos. Odeio ser o cara que faz a mulher sair como a louca da situação, mas realmente não consigo entender onde foi que errei, como essa história se tornou o que se tornou e o que posso ter falado, quão m*l posso ter me expressado. —Algumas pessoas só ouvem aquilo que elas querem escutar, Matheus. E apesar da maioria dos caras pintar as ex-namoradas deles como loucas por pura falta de caráter, realmente existem algumas mulheres loucas, assim como alguns homens. —Acho que nós estamos em maior número, se não, não estaríamos em maior quantidade nos presídios, respondendo por feminicídio, e*****o e coisas do tipo. —É, mas para mim, muito disso ainda é relacionado com a forma de criação recebida pelos homens. Aquilo de “ser macho”, não poder chorar, ter que ser grosso, ogro, m*l-educado, rude, para demonstrar masculinidade. —Penso da mesma forma, Brenda! —Bem, acho que chegamos— falei, quando Matheus estacionou na frente do prédio onde eu morava. —Te vejo amanhã, na empresa? —O perguntei. —Se quiser, posso passar para te buscar, de novo. —Por que não fazemos ao contrário e eu te busco amanhã? Você sabe, a gasolina está custando um rim, não quero me aproveitar de você e da sua boa vontade. —Tudo bem, não vou negar uma carona, então! —Ótimo, me envie o seu endereço por mensagem e eu te aviso a hora em que vou passar por lá. —Parece ótimo! Até amanhã, Brenda. —Até, Matheus! Tenha uma boa noite!
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