Capítulo XII

2205 Palavras
Matheus Saí da sala de Marcos me sentindo transtornado, confuso e com uma sensação r**m em meu corpo, de me entrelaçar a tantas mentiras de forma descarada. Brenda, por outro lado, parecia bem relaxada e feliz por nosso plano estar dando certo, sem muitos pesos em sua consciência. Quando eu abri a porta de vidro e segurei em sua mão, a puxando para fora do escritório do nosso chefe, imaginei que as pessoas ao menos fingiriam que não estavam lá nos espionando, mas bem, não foi isso que aconteceu. Todos os olhares se viraram para nós, como os de cachorros abandonados, todos pareciam muito animados para serem informados de fofocas. Respirei fundo quando encontrei Tuane no meio de todo aquele povo, parecia até uma daquelas reuniões importantes da empresa, as que tantos funcionários são convocados que precisamos usar a recepção, porque nenhuma das salas de recepção conseguiria receber e acomodar todos nós, de maneira confortável. A garota que me fez criar todas aquelas mentiras não parecia nem um pouco feliz com todas as novas revelações feitas por nós, ao nosso chefe, e com certeza escutadas pelos funcionários, através do telefone. Me encolhi em meus ombros, mas continuei segurando a mão de Brenda, quando percebi que todos os olhares não só nos cercavam, eles nos sufocavam em busca de informações, explicações, fofocas, não sei. —O que está acontecendo aqui? —eu perguntei para todos, me fazendo de desentendido, fingindo que eu não fazia ideia do motivo pelo qual toda aquela multidão de pessoas estava ali, aglomerada nos arredores da sala de nosso chefe. —Oh, nada, nada. Os outros banheiros estão sendo lavados, então viemos todos para cá, usar os daqui. —Vontade de fazer xixi coletiva? Ou é coisa pior? Precisam tomar cuidado com a quantidade de café com chocolate que tomam, todas as manhãs— Brenda falou, se fazendo de sínica. —Eu falei para Marcos que não era uma boa ideia colocar aquela máquina na copa e deixar que os funcionários tomassem à vontade, agora ele vai precisar dobrar o número de funcionários da equipe de limpeza— eu falei, também, entrando em sua onda. —Onde está a minha madrinha? —ouvi a voz de Mariana e a garota começou a abrir espaço por entre a multidão de pessoas que se aglomerava em volta de nós— Finalmente achei vocês— ela respirou fundo, teatralmente— Raíssa está esperando vocês dois na sala dela! Depois que saírem de lá, Fernanda quer falar contigo, Madrinha. Ah, João Pedro pediu para te avisar que quer almoçar contigo— a jovem aprendiz falou, diretamente comigo— E minha mãe precisa de uns papéis sobre a alta daqueles funcionários— falou, discreta. Acenei com a cabeça, tentando acompanhar todas as informações. —Vamos até o departamento de recursos humanos, então? É bom que eu já fico por lá, tenho muito trabalho para fazer, por hoje— falei com Brenda. —Ei! Vocês não nos devem explicações? —ouvi Edgar, Publicitário Senior e segundo maior fofoqueiro de nossa empresa, atrás apenas de Tuane, nos questionar, em tom de voz alto e curioso. —Explicações sobre o que? —Brenda perguntou. —Sobre vocês dois, horas! —Estamos namorando, escondemos de vocês por meses, nos amamos, fim da história! —Brenda disse, prática, e o queixo de Edgar ameaçou cair. —O que está havendo aqui? — a voz de Marcos surgiu atrás de nós— Vocês todos não tem trabalho a se fazer e, deveriam estar o fazendo? E Brenda e Matheus, para o departamento de recursos humanos, já. Raíssa já deve estar criando raízes, de tanto tempo que está na espera de vocês dois, meses de espera, na verdade! —Marcos— fingi o repreender educadamente, em baixo tom de voz. —Mariana! Que bom te ver—ele fugiu do assunto— Preciso de sua ajuda com uns relatórios, não consigo enviar eles por e-mail de jeito nenhum, será que são pesados demais? Pode me ajudar com isso? —É claro— a afilhada de Brenda disse, entrando no escritório de nosso chefe, enquanto o resto da multidão começava a se dispersar e seguir para seus locais de trabalho, para enfim colocarem a mão na massa. —Vamos? —perguntei para a minha falsa namorada, segurando em sua mão mais uma vez e caminhando com ela em direção ao departamento onde eu e Raíssa trabalhávamos, que foi também onde a melhor amiga de Brenda descobriu sobre todos os meus problemas com Tuane e teve a brilhante ideia de me juntar com Brenda nessa farsa enorme e desconfortável. Pelo menos eu e Brenda estávamos nos dando bem, porque isso era uma preocupação gigante nutrida por mim. Como um fã de romances contemporâneos, eu já tinha lido mais livros de relacionamento falso do que eu podia contar nos dedos e, na grande maioria deles, os personagens começam a história se odiando, não conseguindo olhar um para a cara do outro nem pintados de ouro e acabam se amando, sem conseguir viverem longe um do outro. A prova de que conosco tudo aconteceria de maneira bem diferente é que (além do óbvio, isso não é um livro de romance, é a realidade. Uma realidade que eu nem sabia que existia, porque se me perguntassem, eu diria que namoros falsos não aconteciam do lado de fora das páginas dos livros ou das telas de cinema) além de nós dois termos começado em termos bem diferentes da maioria dos livros, conseguindo unir nossos planos e ter uma boa convivência que provavelmente, depois que nosso trato fosse concluído, evoluiria para algum tipo de amizade, nós com certeza não acabaríamos essa história envolvidos como namorados, apaixonados, amantes ou algo do tipo, com uma relação física, emocional, carnal e/ ou s****l, entre nós. A prova de que o final seria diferente para nós dois era justamente essa: começamos de maneira diferente. Além de claro, esse grande ponto de nossa vida ser bem real, não um livro de romance disponível em plataformas de leituras virtuais. Caminhamos até a sala onde Raíssa trabalha e ela nos recebeu com um brilhante e radiante sorriso no rosto, sorriso esse que só poderia ser dado pela pessoa responsável por criar os planos de nosso relacionamento falso, por ela mesma. Nos sentamos nas duas cadeiras de frente para a mesa dela, prontos para preencher toda uma papelada de um relacionamento que nem existia. Talvez aquilo fosse como uma espécie de contrato, para o nosso namoro falso. Mas é claro que não poderíamos deixar de assinar, Deus me livre algum funcionário procurar pelo arquivo e descobrir que ele não existe! Raíssa não teceu nenhum comentário ácido sobre a nossa situação, como eu imaginei que seria do feito dela fazer, apenas ficou quieta, nos encarando enquanto comparávamos todas as informações de nossas fichas, para termos certeza de que estávamos preenchendo tudo em sincronia, mesmo que tudo aquilo estivesse sendo feito por mera burocracia. Quando terminamos de preencher tudo aquilo, já estávamos atrasados para os nossos respectivos compromissos de trabalho, então apenas seguimos os nossos diferentes rumos. Um pouco mais tarde, ainda naquela manhã, enviei uma mensagem para Brenda, avisando que estaria almoçando com Marcos e com João Pedro, já que ela havia me dito que iria ao shopping, com Fernanda, Mariana e Raíssa, no horário de almoço. Tive tempo, durante o almoço, para partilhar um pouco dos meus sentimentos com os meus dois amigos. Os contei sobre como me sentia, sobre inseguranças relacionadas a esse plano maluco e sobre as minhas expectativas, tanto para o que viria em benefício próprio, quanto para a parte em que eu ajudaria Brenda. Falei sobre a viagem que faríamos no próximo fim de semana e sobre o quão bem eu deveria me preparar para ela, já que estaria lidando com as pessoas que mais conhecem Brenda no mundo, que sabem como ela demonstra sentimentos, como ela fica quando está apaixonada, que conseguem identificar se ela está estranha não e que querem que alguém bom, legal e que aparente estar tão apaixonado por ela quanto, esteja ao seu lado. Falei um pouco sobre o que ela me contou, sobre seus irmãos, como um deles pode ser um pouco ciumento, pegando algumas dicas com os meus amigos, para encontrar a melhor forma de lidar com a situação. Ouvi João Pedro reclamar por Fernanda não lhe dar confiança e nos contar que Mariana tinha o dito que mexeria seus pauzinhos para fazer com que ele virasse seu padrasto. A garota parecia querer ser o próprio cupido, já que foi ela quem deu a ideia do relacionamento falso, para a sua madrinha. Mariana era inteligente e muito madura para a sua idade, mas eu tinha certeza de que ela aproveitava o seu tempo livre lendo bons livros de romance (o que eu realmente não julgo, pois faço o mesmo). Quando o nosso horário de almoço chegou ao fim, voltamos para o prédio da empresa e a secretária me avisou que uma funcionária tinha perguntado se eu podia atendê-la, mesmo sem marcar horário prévio, porque ela havia tido uma crise de ansiedade. Obviamente concordei em mudar um pouco da minha agenda do dia, para prestar meu serviço a quem mais precisava da minha ajuda, no momento, mas me surpreendi quando liberei a sua entrada e dei de cara com Tuane, parada na porta da minha sala. Ela me pareceu... Bem normal, mas ainda assim, abri a porta para que ela entrasse e pedi para que se sentasse, como era o meu procedimento padrão. —Por que não começa me explicando o que aconteceu, o que te trouxe até aqui, hum? —A questionei. —O que me trouxe até aqui? Faça-me rir, Matheus. O que me trouxe até aqui foi você, que um dia sai comigo e no outro aparece aqui, de mãozinha dada, dizendo que está namorando. Você não tem responsabilidade afetiva? —Tuane, você está aqui porque teve uma crise de ansiedade e precisa de atendimento psicológico ou está aqui para resolver problemas pessoais, eu preciso saber disso, antes de decidir como devo prosseguir— falei, com toda a calma que consegui manter dentro de mim. —O que você acha? A crise de ansiedade foi uma farsa, obviamente. Eu não podia te falar tudo o que quis dizer, na frente de todo mundo, se não era capaz de me arrancarem desse escritório pelos cabelos. Foi por isso que você quis manter o que aconteceu entre nós em segredo? —Tuane, nós saímos uma única vez, há cerca de seis meses. Era para ser um encontro de trabalho, mas você interpretou como algo romântico. Quando tentou me beijar, eu não deixei e te disse que estávamos ali a trabalho. —Você deu entender que, naquele dia, exclusivamente, estávamos ali a trabalho, mas e depois? —Não, Tuane. Se a minha fala fosse somente em relação àquele dia, eu com certeza teria te chamado para sair, depois disso. Pelas semanas seguintes, eu te disse várias vezes que éramos apenas colegas de trabalho e que eu não estava interessado. —Você estava se fazendo de difícil, Matheus. Eu sei bem como os homens agem, é assim com todos os caras. —Eu não faço joguinhos, Tuane. Eu fui bem direto, te falei várias vezes que não estava interessado. Eu me expressei da melhor forma possível, mas não cabe mais a mim, controlar a forma como você decide interpretar as coisas. Acho que dizer “Podemos ser amigos, Tuane. Hoje, somos colegas de trabalho, mas eu realmente não estou interessado em manter qualquer tipo de relacionamento amoroso, no momento” foi uma forma bem nítida de dizer que não queria sair contigo. Sem falar que, na semana passada mesmo, eu te disse que estava namorando. Não finja que eu não te contei, sei que foi você que espalhou para todos do escritório, ainda achando que eu seria capaz de inventar uma mentira para me livrar de você, quando eu só estava dizendo a verdade. —Por que, então, quando você decidiu ter um relacionamento amoroso, você não me procurou? —Porque essas coisas acontecem naturalmente, Tuane. Não planejei ter um relacionamento amoroso com Brenda. Aconteceu, nos interessamos um pelo outro, deixamos rolar e nos envolvemos, sem planejamento. —E você não foi capaz de “deixar rolar” comigo... —Isso não quer dizer que há algo de errado com você, eu não ter me interessado diz muito mais sobre mim do que sobre você. Não há nada de errado em não “conseguir despertar o interesse” de todo mundo, pelo contrário, é a coisa mais normal. —Você jogou sujo comigo, Matheus. —Não, Tuane, eu não joguei. Sempre fui sincero, nunca te prometi algo que não podia ou não queria cumprir. Sempre tentei criar barreiras entre nós, porque vi você tentando se aproximar mais do que deveria. Você derrubou todas essas barreiras e, ainda assim, tentei ser cuidadoso para não te frustrar. Acho que você deveria se amar mais, se priorizar e se respeitar mais. Se humilhar para conseguir algo ou alguém não é a maneira mais saudável de lidar com as emoções. —Você não me entende, Matheus. —Eu juro que estou tentando te entender!
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