Capítulo XI

1739 Palavras
Brenda —Marcos, nós... —tentei entrar no teatrinho e me justificar, mas o meu chefe, para a minha surpresa, parecia e se portava com um ótimo ator. —Eu achei que você era meu amigo, Matheus. Você sabe que eu não tenho problema algum com relacionamentos entre funcionários, não entendo por que esconderam isso de mim por tanto tempo. Estou me sentindo traído— ele até colocou a mão na cabeça, dramaticamente. —Nós... Marcos, você precisa entender o motivo de tudo isso, não foi uma simples decisão e, quando começamos a nos envolver, não sabíamos se ia dar certo. Somos pessoas diferentes, de culturas diferentes, com gostos diferentes, não tínhamos como saber se seria uma aventura passageira, se iríamos nos apaixonar e principalmente se iríamos conseguir levar esse amor para frente, se a gente conseguiria combinar junto, estar na mesma, ter os mesmos planos, desejos, aspirações futuras— eu falei, enquanto Matheus parecia pensar no que dizer, meio perdido. —Me parece injustificável. Se eu fosse outro, me pareceria injustificável como chefe, como patrão de vocês, principalmente. Mas o que me deixou triste é pela nossa amizade, Matheus, somos amigos, ou pelo menos deveríamos ser. Eu saberia separar as coisas, eu sempre soube! Quero estar feliz por vocês, porque sei que são duas pessoas maravilhosas, sei que combinam em suas diferenças, sei que têm uma sincronia, mas eu apenas estou muito surpreso pela forma como as coisas se desenvolveram bem debaixo do meu nariz. —Nós não contamos justamente por não termos certeza do que aconteceria, no fim das contas, Marcos— Matheus finalmente começou a falar— A gente não sabia, não tinha como a gente saber, se daria certo. Se te contássemos, se a gente falasse sobre isso com você, não teria jeito, teríamos que passar pelo RH, teríamos que preencher toda a papelada, porque independente de você ser o melhor amigo do mundo, você é nosso chefe e nós precisamos seguir as regras da empresa, inclusive a de informar, previamente, sobre qualquer envolvimento entre funcionários. Você falaria algo como “Legal, tomem seu tempo para resolverem o que querem, sem pressa, sem pressão, só peço que preencham a papelada com o RH, para no caso de vocês realmente começarem a ter algo sério, já estar declarado. Ou então, para se tudo der errado, isso poupar vocês de um pouco de drama no ambiente de trabalho” —Ele está certo, Marcos. Não falamos porque queríamos... Burlar as regras, nenhum de nós dois parecia interessado em chegar no RH e preencher alguns papeis dizendo que estávamos ficando sem compromisso e começando a nos apaixonar um pelo outro, mas que não sabíamos se estávamos sendo correspondidos. Pensa na humilhação, seria demais para mim! Seria demais para nós dois, na verdade! —Vocês falam tanto do departamento de Recursos Humanos que, só me resta fazer uma pergunta: Raíssa, sua melhor amiga, Brenda, mas também a chefe do departamento de RH, a pessoa responsável por “distribuir a papelada de relacionamento” para os funcionários, ela sabia que vocês estavam juntos? —Sabia— falei baixo, encolhendo os ombros como se tudo que estivesse acontecendo naquela sala fosse de verdade, não só um teatro muito bem armado. —E porque ela poderia saber, mas eu não? —Porque ela segue ordens, você dá as ordens— Matheus respondeu, arisco. —E ela descobriu, ela descobriu muito sem querer. Eu fui viajar uma vez e deixei uma chave do meu apartamento com ela, para que ela pudesse molhar as plantas para mim, você sabe, eu não queria deixar que as coitadas morressem e eu ia passar bastante tempo fora e— comecei a me embolar na minha fala, dar muitos detalhes, tudo para fingir que estava nervosa e me atrapalhando para narrar a história e provar que ela era verdadeira. A propósito, eu nem tinha plantas, quer dizer, o meu apartamento era bem verdinho, tinham plantas falsas em todos os cômodos, praticamente, mas eu não tinha tempo, disciplina e muito menos memória boa para me lembrar de cuidar daqueles seres que não conseguem se fazer presentes por meio da voz, que não vão te lembrar que estão com sede. Sem falar que eu sempre viajo, então não daria certo, não daria certo de jeito nenhum— Raíssa nunca me devolveu a chave do meu apartamento— voltei a falar— Às vezes, quando ela quer fazer algo no sábado de manhã, mas sabe que eu estou dormindo, ela só aparece por lá e, quando eu abro os meus olhos, ela já está tirando roupas de dentro do meu guarda roupas e jogando na minha cama, por cima de mim. Só que ela passou um tempo sem fazer isso e eu achei que não havia mais perigo, achei que ela tinha se esquecido da chave, na verdade até eu me esqueci daquela cópia. Em uma manhã de sábado, Matheus tinha dormido lá comigo e, quando Raíssa apareceu, para me chamar para fazer qualquer coisa, ela bateu na porta diversas vezes, mas ninguém atendeu. Nós estávamos muito apagados de sono e tínhamos bebido um pouco na noite anterior, também. Como ela começou a ficar preocupada com o meu desaparecimento e falta de resposta, até porque nem o celular eu atendia, porque eu obviamente estava dormindo, Raíssa procurou a chave, a achou em sua bolsa com coisas infinitas, entrou no apartamento, viu vinho derramado no tapete branco da minha sala, achou que alguma coisa poderia ter acontecido, se desesperou e entrou gritando no meu quarto, me procurando. No final ela encontrou uma cena bem constrangedora e, com isso, não tinha mais como esconder dela o que estava acontecendo. Me assustei com a confusa complexidade da história que eu tinha acabado de inventar e que demorei alguns minutos para narrar, pausadamente, com detalhes e paciência para que ela se fizesse entendida. Olhei para trás, pelas janelas de vidro da sala de Marcos, flagrando uma estranha movimentação por ali e a sua secretária mexendo no telefone fixo, como se para garantir que ele estivesse no modo viva a voz. —E ela não ameaçou denunciar vocês dois para o RH? —Meu chefe questionou. —Para o próprio departamento dela? — ri baixo, aquilo seria engraçado até se a nossa história inteira fosse verdadeira. —Raíssa ficou muito feliz por nós, na verdade. Ela me ligou naquela noite e me deu várias dicas do que eu deveria fazer para conquistar Brenda, me contou várias coisas que me ajudaram muito, nesse processo. —Na verdade, Matheus imaginou que você também ficaria bem feliz por nós, Marcos. Sendo seu amigo, imagino que ele deva estar um pouco decepcionado pela sua reação, agora. Planejamos esse momento por semanas, fingimos estar solteiros por muito tempo, nos esbarramos nos corredores fingindo que nem nos conhecíamos, que nem sabíamos os nomes, um do outro. Pensamos em cada detalhe do dia em que contaríamos para você e assumiríamos o nosso relacionamento para toda a empresa! —Pensando bem, algo faz sentido— Marcos colocou a mão no queixo, como se estivesse pensando— Quando Tuane veio contar para todos os funcionários que Matheus estava fingindo estar em um relacionamento, eu achei aquela história muito estranha. Matheus não mente, ainda mais sobre um assunto tão sério quanto esse, algo realmente me pareceu bem errado, naquele momento. Mas eu achei que ela pudesse ter interpretado a fala de Matheus de forma errada, afinal, eu sabia que ele não mentiria, mas também achei que, se ele estivesse namorando, teria me contado. Agora posso entender que ele realmente não mentiu e que foi isso mesmo que disse para Tuane, que ela não entendeu errado e que ele está mesmo namorando. —Marcos, não precisa falar de mim como se eu não estivesse aqui. Você sabe que eu jamais mentiria, por isso decidi apenas omitir a verdade, por todo esse tempo! —Faz sentido, não posso mentir e dizer que não fiquei chateado por não terem me contado, mas acho que posso entender o lado de você e me acostumar com o fato de que me esconderam isso por tanto tempo. Mas agora me contem tudo, a quanto tempo estão juntos? A quanto tempo estão mantendo esse segredo? Como as coisas evoluíram entre vocês dois? —Estamos juntos a alguns meses. Na verdade, tudo foi fluindo de forma muito natural. Acabamos por descobrir muitos pontos em comum! Estamos indo devagar, já falamos um com a família do outro muitas vezes, mas ainda não nos conhecemos pessoalmente, por exemplo! —Você sabe, a minha família está no Líbano, então esse encontro vai ter que esperar até o ano que vem, para acontecer. Mas eu vou para Angra dos Reis com Brenda, seus pais, seus irmãos, sua cunhada e seus sobrinhos, nesse fim de semana. Vou conhecê-los todos eles, antes de partirmos para Petrópolis para o Natal. Aí sim, vou conseguir conhecer toda a sua família: avós, tias, os maridos de suas tias, primos, os possíveis e respectivos namorados de seus primos, todo mundo! —Imagino que você esteja um pouco nervosa com todos esses encontros, Brenda! —Minha família é barulhenta, reparadeira, exigente e inconveniente, na maior parte do tempo. m*l posso esperar para levar um namorado em casa, depois de tantos anos, vai ser ótimo ver minhas tias tentando remover o estomago dele pela boca, fritando e servindo na ceia de Natal. —Nossa, elas me parecem tão... Agradáveis, para não dizer o contrário. —Uma delas realmente é, a outra depende do momento e das companhias, a outra é... Complicada. —Bem, por terem escondido isso de mim por tantos anos, a única coisa que posso pedir como recompensa é que, quando forem se casar, me chamem para ser padrinho. Eu prometo levar um presente muito bom! —Casamento? — Matheus questionou, parecendo assustado. —Posso sentir de longe que isso vai levar ao altar. Talvez se casem ainda antes de mim, olha que eu é que estou noivo e em um relacionamento de anos. Posso sentir que isso é a coisa certa, que finalmente estão com as pessoas certas um para o outro. Tive um pequeno surto quando percebi que estavam escondendo de mim por tanto tempo, mais como amigo do que como chefe, mas preciso dizer que fiquei muito feliz por vocês, que vocês dois são pessoas boas e que espero que sejam infinitamente felizes, que vivam a melhor face de um amor!
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