Capítulo X

1029 Palavras
Matheus Eu estava nervoso, mas não queria demonstrar isso para Brenda e, muito menos, para Tuane. Ouvi quando ela parou atrás de nós e respirei fundo, suavemente e de maneira imperceptível. Minha falsa namorada parou novamente ao meu lado, depois de apertar o botão que chamava o elevador e, nessa hora, percebi a bufada de ar atrás de mim. Nenhum de nós dois se virou para conferir quem era, ou dar essa moral para a garota obcecada, já que nós sabíamos muito bem de quem se tratava. Quando as portas da caixa metálica se abriram, mais uma vez passei meu braço, de maneira respeitosa, em volta da cintura de Brenda e a guiei para dentro. Pelo reflexo do espelho, conseguimos ver a expressão da mulher, que nos acompanhou para dentro do elevador: cenho franzido e expressão surpresa. Nos viramos para a porta e abri um sorriso fraco, quando a avistei cara a cara. —Bom dia, Tuane— respondi. —Vocês dois? —ela não disfarçou a careta. O sorriso falso cresceu no meu rosto e imagino que no de Brenda também. —O que tem nós dois? —ela questionou a garota mais nova, sendo ligeiramente sínica. —Estão juntos? —Oh! Não era nossa intenção deixar isso transparecer, antes de falarmos com Marcos— Brenda a respondeu, olhei em sua direção, enquanto falava com Tuane, reparando o sorriso tranquilo em seu rosto. Não parecia estar muito afetada por todo o cenário de nossa mentira. —Pensei que estava mentindo, quando me falou que estava namorando, Matheus. —Por que eu mentiria? Não tenho motivo algum para esconder de ninguém. Só, realmente, combinamos que esperaríamos alguns meses para contarmos para nossos colegas de trabalho, por toda a burocracia com o RH. Precisávamos da certeza de que seria algo sério e duradouro— falei com firmeza. Porque o elevador decidiu demorar tanto para subir, logo naquele dia? —Pensei que você e Marcos eram amigos. Não é estranho que demore tanto para contar para alguém com que tem contato fora do ambiente de trabalho? Além do mais, nunca vi vocês juntos, dentro da empresa. —Está querendo insinuar alguma coisa, Tuane? —Brenda a questionou, séria. —Jamais. Apenas estranhei, não esperava ver vocês dois assim, juntos. —Pois se acostume, estamos muito felizes juntos e a escolha de termos sido tão discretos foi somente a coisa mais prudente a se fazer. Se estivesse em nosso lugar, entenderia— foi a minha falsa namorada quem respondeu, novamente. O corte foi sutil, mas não era difícil de entender que Brenda estava dizendo que Tuane não teria jogo de cintura para ser discreta e conseguir manter um relacionamento em ambiente de trabalho, a fofoca e a forma como ela lidou com o fora que eu dei nela, só deixavam isso ainda mais claro. —E não que devêssemos satisfações a você, mas Marcos não sabe por que, apesar de ser um amigo, ainda é meu chefe. Prezo muito pela nossa relação patrão-funcionário e sei que não importa quão bom amigo ou patrão ele seja, tenho sempre que me lembrar que ele é um só e que se consegue cumprir as duas funções, separadamente, eu também devo e consigo. Falei abobrinha, sabia disso, sabia que não tinha feito sentido, mas funcionou para deixá-la calada pelos próximos cinco segundos, até que o elevador finalmente resolvesse abrir as portas e nos deixar no andar solicitado. Grande parte de nossos funcionários estava espalhada pelo hall de entrada, quando chegamos, de mãos dadas. Os olhares se voltaram para nós enquanto caminhávamos, mas por alguns segundos ninguém ousou falar nada, pelo contrário, todo o local parecia em completo silencio. Visualizei Raíssa na outra ponta da sala, perto das janelas, exatamente como combinado. Em voz alta o suficiente para que todos ouvissem, mas não parecesse que estava gritando, ela começou a dizer: —Brenda, Matheus, marquei aquele horário que me pediram, com Marcos! Depois venham assinar seus papéis, comigo. Vai ser uma surpresa muito grande, ter vocês por lá— ela piscou um olho em nossa direção e a mulher ao meu lado riu baixinho— Vão logo, ele já deve estar esperando por vocês e eu estou ansiosa. —Estamos indo, Ray! Já estamos indo— Brenda disse, me puxando pela mão para o corredor que guardava as salas do alto escalão da empresa. O corredor cheio de portas levava até uma recepção, onde suas secretárias ficavam tomando conta de tudo o que acontecia nas salas de reunião e na sala do chefe, todas localizadas ali, após o fim do corredor. —A recepção está vazia, mas eu tenho certeza de que logo metade dos funcionários vai estar aqui, tentando ouvir a nossa conversa— Eu falei em tom de voz bem baixo. —Não duvido que sejam impulsionados por Raíssa. Temos que tomar cuidado com o que vamos falar dentro da sala, pois com certeza alguém tentará nos ouvir— Brenda também sussurrou para mim, enquanto nos aproximávamos da sala de Marcos. —Está pronta? —ela fez que sim com a cabeça. Dei duas batidas fracas na porta de nosso chefe e, quando ouvi o “entra” por trás dela, comecei a abri-la devagar. —Achei que tinham desistido de me contar— Marcos falou, assim que entramos. Franzi o cenho, não entendendo o que ele queria dizer, ou se aquilo já fazia parte da atuação. Ele, então, entregou um post-it na mão de Brenda, para que nós lêssemos. “Deixei o meu telefone ligado, minha secretária pode ouvir tudo o que conversamos da mesa dela e tenho certeza de que ela está fazendo isso agora mesmo”. —Não entendi o que quer dizer, como assim desistir de te contar? —Brenda o questionou, já entrando no personagem. Se aquela conversa estivesse mesmo sendo ouvida, não demoraria nem meia hora até que todos do escritório já soubessem sobre o que foi dito e até sobre o que não foi dito, ali dentro (sem contar as alterações e exageros, porque a fofoca sempre acabava sendo alterada no seu percurso). —Vocês realmente acharam que poderiam me enganar e fingir que não estavam juntos?
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