Brenda
Passei a semana seguinte me preparando para uma grande investigação. Eu mandava mensagem para todos os caras com quem tinha o mínimo de i********e, buscando saber mais detalhes de suas vidas pessoais, naquele momento, como questionar se estavam namorando. Não é como se fosse uma lista infinita de nomes e, eu admito, nunca houve interesse amoroso com a maioria deles, mas situações extremas necessitam de medidas igualmente extremas. Então, para aqueles que estavam solteiros, consegui marcar encontros (não românticos) e despretensiosos, durante os dias seguintes. As desculpas eram sempre as mesmas, “saudades de nossa velha amizade”, eu me sentia péssima por usar de falsos pretextos e argumentos, mas não pretendia levar as coisas dessa forma por muito mais tempo: assim que encontrasse o homem certo para o meu plano, falaria a verdade e lhe faria uma proposta para embarcar comigo nessa loucura.
Acho que a vida nos trás um conceito e definições muito complexas sobre mudança. Por isso marquei aqueles encontros, mesmo com alguns caras que jamais seriam colocados em minhas listas de possíveis namorados (não que eu tivesse uma). Eu sabia que as pessoas mudavam, amadureciam, mas eu também sabia que nem todas eram capazes da mudança, que nem todas queriam mudar e conseguiam enxergar um motivo plausível para o fazer. Então, posso afirmar que, boa parte daqueles nomes, só estavam ali pelo meu desespero com a situação.
E eu me doei, tempo, dinheiro, horas de sono, descanso, me doei para dar bons momentos àqueles que toparam marcar de me ver, me doei para ser agradável e conseguir conquistar os meus objetivos. Um tempo depois, estávamos quase chegando em dezembro, quando eu finalizei a minha temporada de encontros.
Nesse tempo todo, descobri que metade dos idiotas que tinham tido solicitados mudaram um pouco, alguns para melhor, outros para pior. A outra parte apenas continuou da mesma forma, em minha superficial análise baseada em duas horas de conversa e observação.
Os caras legais, bem, alguns pareciam legais e justos demais para se enfiarem em uma situação de mentiras como essas. Um deles me contou dos planos de Natal de sua família, outro disse que viajaria para fora do país, o outro contou que planejava pedir a ficante em namoro, antes do fim do ano. E bem, a minha pequena grande lista não me apresentou nenhuma solução para os meus problemas.
Risquei, um a um, os nomes de todos da lista, a maioria eram colegas dos tempos de faculdade. Eu sabia que alguns deles (os idiotas) topariam esse plano louco em troca de alguma coisa, que não duvidasse que seria física, mas se meu intuito era mostrar para a minha família o quão bem e feliz eu estava, não parecia muito jogo levar um “garoto problema” para a casa de meus avós.
Eu me cansei dos encontros e ao menos cheguei no ponto de apresentar uma proposta para algum deles. Acho que isso, no final das contas, foi algo bom, assim, se achar alguém que aceite fingir estar comigo, saberei que apenas um seleto número de pessoas em quem confio sabe da farsa.
Em paralelo a isso, eu tentava bolar algum outro plano que soasse menos humilhante do que chegar à casa dos meus avós dizendo que terminei um relacionamento e precisar ouvir, durante toda a temporada de festas de fim de ano, da boca das minhas tias que eu estava fingindo ter alguém, para esconder a minha “triste solidão”.
Eu não era triste, nem solitária, nem ficava triste ou solitária por estar solteira. Sempre que eu queria estar com alguém, eu estava. E eu não namorava porque não queria, mas isso não parecia entrar na cabeça delas.
Eu tinha três tias, todas irmãs da minha mãe, a situação familiar era, digamos que, complexa. Mamãe era a filha mais velha e eu gostava de pensar que, excluindo-a, meus avós foram se aperfeiçoando nas outras filhas, que elas nasceram em ordem: da pior para a melhor (sem contar com a minha mãe, é claro).
Tia Sandra era a segunda mais velha e a mais complicada, ela achava que tinha o marido perfeito, a filha perfeita e a vida que todas as suas irmãs invejavam. Cá entre nós, ninguém sentia esse t***o em viver a vida dela, como ela pensava que sentiam. Era ela a responsável pela maior parte das ofensas, me chamava de garota problema durante a minha adolescência, espalhava para todos que eu era lésbica (como se fosse um problema para ela, caso eu realmente fosse), gostava de dizer que eu era “menina macho” e era a primeira a falar que o surf não me levaria a lugar nenhum, além do claro e clássico “É esporte para garotos”. Ela morava em Nova Iguaçu e, por conta disso, acabava precisando vê-la com mais frequência do que as outras duas, ela era quem dificultava a minha vida, quem vigiaria de perto a veracidade do meu namoro, caso eu encontrasse um namorado, e desconfiaria de mim. Até porque, no fim das contas, a mentira só foi criada porque ela, exclusivamente ela, me encheu o saco com todo esse preconceito com solteiros felizes.
Tia Solange era engraçada e jovial, mas essa é uma parte que as pessoas normalmente não contam sobre aquele parente desse estilo: eles tentam competir com você e as vezes são invasivos, além de variarem entre o superlegal e o extremamente chato, dependendo da companhia que os cerca. Ela era assim, mas morava longe, em Brasília, e tinha dois filhos gêmeos que, apensar de estarem na adolescência, eram incríveis. Juntar tia Solange e tia Sandra não era uma boa, elas viravam a sombra uma da outra, quando estavam no mesmo ambiente, e tia Solange podia se tornar tão venenosa quanto a sua irmã mais velha, quando queria. Ela tinha mais crédito por não ser assim o tempo todo, também tinha sofrido poucas e boas com o ex-marido, o que aumentava a nossa tolerância com ela.
Tia Stella era a melhor de todas, ela era apenas 11 anos mais velha que eu (tinha somente 6 anos a mais que meu irmão mais velho, Bento). Ela era minha amiga, verdadeiramente, e era para quem eu pediria ajuda, se precisasse que alguém me acobertasse em minhas mentiras. Sua personalidade era parecida com a minha e, depois que a minha mãe se casou, ela sofreu na mão das suas outras duas irmãs. Tia Stella sempre me defendia, mesmo quando eu estava errada, mesmo quando ela não tinha argumentos cabíveis para salvar a minha pele e se manter ao meu lado. Ela também tinha dois filhos, um de quatro anos e uma de apenas alguns meses (que assim como Mariana, filha de minha amiga Nanda, também era minha afilhada).
Eu tinha pensado mesmo em pedir ajuda para tia Stella, sem contar que ela era a única que ainda morava próximo aos meus avós, então talvez até conhecesse alguém da região que aceitaria fingir estar comigo por algum tempo. O problema era que a minha situação tinha agravantes, além da pessoa já precisar fingir, ele ainda teria que viajar comigo no Natal, passar um tempo longe de casa, tudo isso tornaria mais fácil se ele já fosse um petropolitano, se estivesse na cidade ou já pretendesse ir para lá no fim do ano.
Mesmo assim, decidi não falar com ela. A verdade é que eu não queria encontrar alguém, eu queria achar uma boa desculpa para o meu “perfeito namorado” não aparecer na viagem e, mesmo assim, minhas tias acreditarem em nosso relacionamento. Eu não estava fazendo força para achar alguém, para algum cara ser o certo para a farsa, muito menos para encontrar alguém que verdadeiramente gostava de mim.
Estava prestes a focar em um plano que as convencesse das minhas mentiras, sem precisar ver para crer, quando Raíssa me mandou uma mensagem, um ultimato para a minha situação:
“Encontrei O CARA pra você e pra sua mentira. Nos encontre amanhã, naquele restaurante perto do seu ap”.