Capítulo IV

1725 Palavras
Matheus Quando Raíssa entrou em minha sala, me afirmando com todas as letras que tinha a solução para os meus problemas, de primeira pensei que ela estava muito doida, porque era impossível ter alguém vivendo a mesma situação que eu, debaixo do mesmo teto. O que me convenceu a expulsar João Pedro e Marcos (esse mesmo, meu chefe) da sala para que eu pudesse conversar com a mulher, foi o simples traço de personalidade que carrego comigo e que me faz odiar viver de favores. Me deixava extremamente incomodado prejudicar e atrapalhar a vida de alguém, apenas para que ela pudesse me ajudar em algo. Por isso, quando ouvi traços de uma proposta de ajuda mútua, consegui voltar para a minha zona de conforto. Eu preferia fazer mais, me doar mais, abrir mão de mais, do que ao contrário. E sei disso, não é um pensamento saudável para um psicólogo nutrir dentro de si, é por isso que nós também precisávamos de muita análise e terapia. Eu achei, entretanto, que Raíssa me daria mais detalhes logo naquele momento. Assim que os dois saíram da sala, eu pude fazer os meus questionamentos, até mesmo sobre Brenda, um nome falado pelos corredores, mas que nunca esteve diante de mim. A mulher parada diante de mim, porém, não me deu respostas. Primeiro ela me questionou se eu estava disponível para almoçar com ela e Brenda no dia seguinte, sábado. Depois que eu confirmei, ela me perguntou sobre os meus planos para o Natal e quando eu disse que não tinha nada certo, ela abriu um sorriso e me enviou um endereço, por mensagem, para que eu as encontrasse no tal do restaurante. No sábado de manhã, até pensei em fazer o meu trajeto caminhando. Eu morava no Grajaú e o local escolhido por Raíssa ficava na Tijuca, bairro vizinho. O primeiro dia de dezembro, porém, havia chegado trazendo as mais altas temperaturas e para não causar uma péssima primeira impressão para a tal de Brenda, que eu ainda não conhecia pessoalmente, decidi tirar o meu Virtus branco da garagem e me tornar um preguiçoso que faz até trajetos curtos de carro. Eu saí de casa com uns minutos de antecedência, já que não sabia com exatidão a localidade do restaurante, porém uma batida, no meio do caminho, causou um engarrafamento e eu demorei mais do que o previsto para chegar. Raíssa tinha me enviado uma mensagem, naquela manhã, me avisando para encontrá-las ao meio-dia, se passava quinze minutos, do horário marcado, quando eu finalmente consegui chegar. Não foi difícil encontrá-las, quando adentrei ao estabelecimento. Raíssa, por si só, já era um evento a parte, ela era extrovertida e radiante, conseguia contagiar até as pessoas mais fechadas. Era alta, tinha a pele n***a retinta, cabelos trançados até o meio das costas, corpo gordo e sempre usava roupas estampadas. Ela parecia uma modelo e eu ainda tinha minhas dúvidas se ela não fazia uma grana extra com propagandas publicitárias. Olhei para as pessoas, sentadas nas mesas em volta de mim, e reparei que eu não era o único a olhar para a mesa das duas mulheres. Não, não porque elas eram espalhafatosas ou porque estavam sendo escandalosas, mas porque pareciam tão elegantes e ao mesmo tempo tão espontâneas e despojadas, que ao menos parecia fazer sentido. Tão bonita quanto a sua amiga, a presença de Brenda me encantou de longe. Ela tinha longos cabelos loiros, praianos, queimados de sol, levemente ondulados, sua pele era branca, mas bronzeada em alguns pontos, rosada/avermelhada em outros. Ela se levantou, caminhando até o balcão do bar, e nessa hora, pude reparar que usava um short jeans, top preto, que parecia um pouco com um biquini, uma roupa aberta por cima, um kimono, talvez, e vans nos pés. Era uma roupa simples, nada demais, mas parecia combinar tanto com ela, parecia fazer tanto sentido. —Você já está apaixonado ou você é só um baita de um bom ator? —Raíssa me questionou, assim que fiz meus pés trabalharem e caminhei em direção à sua mesa. —Estava só observando o ambiente, nunca estive aqui! —Tentei a engambelar. —Uhum, tá. Vou fingir que acredito que você já não se encantou pela loirinha ali. —Que loirinha? —Não sabia que era sínico, Matheus— ela piscou um olho, apontando para uma cadeira vazia, na ponta da mesa retangular de seis lugares. —Estamos esperando mais alguém? —perguntei, apontando para os três lugares vazios. —Não, está na ponta porque você vai pagar a conta— riu sozinha— Estou brincando, é para ficar entre nós duas. —Isso é melhor ou pior, que a primeira opção? —Brinquei, também. —Você sabe que é muito melhor! —Então eu finalmente fui chamada na sala do psicólogo? —Me virei, acompanhando a voz atrás de mim. —Bem, acho que alguém aqui é responsável pela demora da sua convocação— Respondi, olhando para Raíssa. —Eu não acredito! Raíssa! —brigou com a amiga, antes de colocar a bebida que carregava em uma taça na mesa em sua frente e estender a mão em minha direção— Sou Brenda! —Matheus —me apresentei também. —Isso é sério? De nunca ter sido chamada por que ela limpou meu nome? —Digamos que, quando cheguei a empresa, pretendia chamar todos os funcionários, um por um. Raíssa me convenceu de que eu não precisava fazer isso com todos, que ia me desgastar a toa e deveria me preocupar em focar nos “garotos problema”. —E eu me lembro bem de ter usado essa perfeita expressão, porque convenhamos, nossos colegas de trabalho problemáticos parecem que ainda não saíram da adolescência. Mas você sabe disso melhor do que eu— Levantou as sobrancelhas na minha direção, não sei se se referindo a Tuane ou a todos os funcionários que eu atendia semanalmente, isso porque nem tínhamos um quadro de empregados muito grande. —Então você não é um “garoto problema”? —Brenda me questionou, parecendo genuinamente curiosa. —Nunca me considerei um, acho que nem eu, nem ninguém. —Isso é uma grande evolução para os seus padrões, Bê —Foi Raíssa quem disse, com um sorriso malicioso no rosto. O garçom se aproximou de nós, logo em seguida, interrompendo qualquer interação que poderia ter acontecido logo em seguida. Ele recolheu os pedidos das duas e pacientemente esperou até que eu decidisse o que queria comer. Depois que se foi, passei a encarar as duas, sem saber muito o que dizer e observando a sincronia de olhares, que me fazia entender que uma conversa muda acontecia bem diante dos meus olhos analfabetos àquele tipo de linguagem. —Então... Eu já sei parcialmente dos planos de vocês dois e sei que eles batem em vários aspectos, mas eu tenho avaliado que a dificuldade de vocês dois de acharem alguém para firmar um acordo é a falta de conhecimento e de confiança no outro. Então por que vocês não conversam um pouco? Justamente para se conhecerem, verem se suas visões de mundo batem e se vão conseguir fazer um acordo e conviver um com o outro. —Eu achei que ele era o psicólogo, não você! —Eu só sou observadora, ok? Porque você não começa, Bê? Conte um pouco de sua vida para Matheus. —Deus, me sinto em um programa de auditório— ela revirou os olhos— Tenho vinte e cinco anos, nasci em Cabo Frio, mas meus pais e meus dois irmãos mais velhos nasceram em Petrópolis, minha família vem toda de lá. Como já disse, tenho dois irmãos mais velhos e um mais novo, Bento, Benício e Brenno. Você pode ver que meus pais foram super criativos com nossos nomes— foi irônica— Tenho dois sobrinhos e um terceiro a caminho e, antes que pergunte, os nomes todos começam com BE. Meu apelido é Bê, para meus amigos, mas minha família usa outras variações porque basicamente todos somos Bê’s ou Bre’s. Tenho duas afilhadas, Mariana, ela e a mãe dela, Fernanda, trabalham com a gente, então você deve conhecer. —Você tem uma afilhada de tipo, quinze anos de idade? —Tenho! Fernanda é minha amiga de infância, é alguns poucos anos mais velha que eu e engravidou muito cedo. Ela me deu Mariana para batizar quando eu tinha doze anos, tinha acabado de fazer minha primeira comunhão, e ela já tinha 2 aninhos. E esse é outro fato, sou católica. —E a outra afilhada? —perguntei. —É filha da minha tia caçula, ela tem 4 meses. —Sua tia tem filhos mais novos do que seu irmão, então? —Sim e não, levando em consideração que minha cunhada está grávida. Mas tia Stella tem trinta e seis anos, Bento tem 30, então é de se entender o porquê da idade dos filhos deles regularem uma com a outra. —E ela é a sua única tia? —perguntei, porque desde que Raíssa me perguntou sobre o Natal, desconfiei que o motivo de Brenda querer um namorado falso pudesse ser familiar. —Não, tenho duas tias entre ela e minha mãe. Elas são, digamos que, a parte mais complicada da família. —Apesar de que, para elas, você é a parte mais complicada. Abre o olho— Raíssa disse, brincando. —Ela tem razão— Brenda me disse, dando de ombros em seguida. —E seus pais? —Perguntei, me tocando que ela tinha falado superficialmente sobre eles. —Meu pai é médico, minha mãe é cabeleireira. Os dois surfam no tempo livre e, como pude esquecer de falar disso? Eu surfei profissionalmente durante o fim da adolescência e a faculdade, Brenno ainda segue no profissional. Mas todos nós surfamos. —A sua família inteira surfa? —perguntei, levantando as minhas sobrancelhas, era um tipo de talento genético ou algo assim? —Não, não. Só meus pais e meus irmãos. Minhas tias tem pavor ao surf, principalmente para o que elas chamam de surf de saia. —Mulheres? —É. Tia Sandra e tia Solange acham que é esporte masculino. —Sandra, Solange, Stella. Me deixe adivinhar, o nome da sua mãe também começa com S? —Touché, é Suzanna. Se acostume, a família inteira dela faz isso— Raíssa quem respondeu por ela.
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