Capítulo V

1800 Palavras
Brenda —E porque, exatamente, você está querendo alguém que finja ser seu namorado? —Matheus foi direto em sua pergunta, exatamente por isso, decidi também ser. —Vou ser franca, não acho que para o tipo de acordo que pretendemos criar, sobre espaço para joguinhos. Minhas tias sempre me azucrinaram com relação a namorados, desde a minha adolescência. Primeiro elas pensavam que eu era lésbica, espalharam isso para meio mundo, como se fosse algo r**m. —Credo— ele disse, tampando a boca logo em seguida. —Depois, quando eu comecei a aparecer com um namoradinho aqui e outro ali, virei a p**a da família. Por isso, decidi não levar mais ninguém em casa, até que estivesse em um relacionamento sério. Como faz alguns anos que elas não conhecem nenhum novo namorado meu, começaram a me perturbar sobre o assunto e quando eu, sem querer, admiti que quero me casar e ter filhos, um dia, a perturbação aumentou. Tia Sandra achou que eu estava com inveja da filha dela, a princípio, e aí entrou no modo legítima defesa, dizendo que eu só seria feliz se tivesse com alguém, que eu deveria procurar e deixar de ser encalhada e daí para pior. Tia Solange, como sempre, entrou na onda dela. —Ok, quando você disse que elas eram complicadas, não tinha pensado que seriam tão intransigentes. —Elas são loucas, Matheus. As duas, surtadíssimas— Raíssa deu a sua opinião e eu não pude deixar de concordar. —Só que eu cansei de tudo isso, por isso decidi dizer que estava namorando. Eu queria inventar uma desculpa para que o “grande encontro” não acontecesse, mas com o Natal se aproximando, com os preparativos para as festas de fim de ano e tudo muito em cima da hora, elas estão desconfiando e dizendo, para os quatro cantos do planeta, que se eu aparecer sozinha é porque estou inventando coisas para não me sentir inferior a minha prima. —E essa sua prima? Qual é a dela? —Matheus questionou. —Maria Rita? Hum, uma pamonha— minha amiga respondeu por nós duas. Eu apenas ri. —Tivemos criações muito diferentes. Ela foi criada de forma tradicional, machista. Namora um cara que é quase dez anos mais velho que ela, ainda precisa fingir para a mãe que é virgem, mesmo aos vinte e poucos anos e agora vive cartando que está noiva, como se isso a fizesse melhor que todo mundo. Ela é só um ano mais nova do que eu, o que complica tudo, porque sempre tentou competir comigo. —Então você está fazendo isso tudo para provar para a sua família que conseguiu conquistar o que eles desejaram para você? Porque é mais fácil fazer isso do que conseguir demonstrar que está feliz sozinha. Interessante! —Está me analisando? —Talvez... —Só queria deixar claro que eu genuinamente estou feliz sozinha e o meu intuito não é entrar nas provocações ou nessa competição louca, repleta de rivalidade feminina que a minha prima prega e que minhas tias alimentam. Eu só quero um pouco de paz, quero que eles parem de encher o meu saco. —E elas não falam porque querem o bem de Brenda, Matheus. Elas falam porque gostam de fazer os outros se sentirem m*l e desconfortáveis com quem são, com as escolhas que fizeram ou com aquilo que ainda não conseguiram conquistar. —Raíssa completou. Ela já tinha tido a oportunidade de se reunir com a minha família, algumas vezes, então o que estava falando não era só pelo que eu tinha contado, mas pelo que ela tinha visto com os seus próprios olhos. —É como se elas usassem disso, precisassem e sentissem necessidade de humilhar os outros, para suprir suas próprias carências emocionais? —ele avaliou. Concordei com a cabeça. —Tudo se torna mais complicado com essa bendita viagem. Mais de uma, na verdade. Ao mesmo tempo, sei que não posso levar qualquer pessoa para a casa dos meus avós, assim como sei que nem todos aceitariam, por causa do Natal. —Ou simplesmente porque é uma loucura. Parece uma fanfic e isso aqui não é um romance, é a realidade— Raíssa pontuou, cirúrgica. —Bem, eu acho que você encontrou um louco que se compadeceu com a sua história e pode te ajudar, desde que você também possa me dar uma mãozinha no meu problema— ele sugeriu. Eu ia pedir para que ele explicasse melhor, mas Raíssa interrompeu o meu raciocínio: —Contextualize primeiro, cara. Diga quem você é, de onde veio, o que faz da vida, aí chegamos no seu problema. —Ok, ok— ele soltou uma risadinha fraca, parando para pensar no que falar. Reparei no qual bonito ele era, como parecia inteligente, mesmo tendo uma aparência que o permitia se misturar facilmente com um bando de mauricinhos. Tinha cabelos pretos, barba rala e pele levemente bronzeada, os olhos escuros pareciam expressivos e o seu sorriso era incrível— Eu nasci em Belo Horizonte, tenho 26 anos e venho de uma família luso-libanesa. Meu pai é neto de portugueses e minha mãe nasceu no Líbano, mas se mudou para o Brasil ainda bebê. Inclusive, é por essa razão que não tenho planos para o Natal ou Ano Novo, meus pais e minha irmã, Jade, estão em Beirute e só voltam ano que vem. Jade está grávida e queria levar seu marido para o Líbano pela primeira vez. Eles quiseram viajar antes do bebê nascer, mas eu já usei as minhas férias desse ano e não poderia viajar em dezembro, então preferi ficar dessa vez. —Nossa, eu jamais iria imaginar que você tem descendência libanesa, só de te olhar. Mas prestando atenção, consigo enxergar um pouco dessa herança— falei, reparando bem em seus traços. —Meu sobrenome materno é Assad, então... —E como é vir de uma família com uma cultura tão diferente da Ocidental? —Raíssa perguntou, curiosa. —Às vezes é complicado, mas em um geral, me dou bem com todo mundo. Quando os meus avós vieram para cá, eles deixaram uma parte da cultura do Oriente Médio de lado, não em línguas, comidas, tanto que eu falo árabe e francês porque são duas línguas extremamente faladas no Líbano, por exemplo. Minha mãe se tornou católica na adolescência e foi um choque, seus pais já estavam mais abrasileirados, mas ainda mantinham a religião e eram mais rígidos, mais conservadores. Eles aceitaram, depois, que ela era livre para ter a crença que quisesse e entenderam que, por ter sido exposta desde cedo a uma cultura diferente da de seus pais, era normal que acabasse ficando “em cima do muro”. Mas a família não aceitou tão bem assim, principalmente depois que ela se casou com um brasileiro e, por tudo isso, perdemos contato com a nossa família libanesa por uns bons anos. Fui para Beirute, pela primeira vez, com dez anos e, por ser uma viagem cara, não vamos com a frequência que gostaríamos, mas com o tempo conseguimos retomar o contato. Somos muito diferentes, apesar disso, é como se fossemos cem por cento brasileiros, como se a descendência praticamente não existisse e o laço de parentesco fosse por acaso, mas todos mantemos a convivência respeitosa, apesar disso. —É por causa de sua família, que quer uma namorada falsa? —Não, Brenda. Na verdade não é isso, mas pode acabar me ajudando. Quero uma namorada falsa porque acabei me envolvendo, muito superficialmente, com uma colega de trabalho: Tuane, não sei se a conhecem. —Vish— pulou da minha boca, ao mesmo tempo em que Raíssa soltou um: —Eita, essa aí é grudenta demais! Além de ser fofoqueira... —Pois é. Fomos a um encontro, que a princípio nem deveria ter intenções românticas, mas que ela transformou nisso. Desde então, olhe que já faz meses, ela vem em cima de mim, querendo satisfações, querendo “próximos passos” que eu não tenho intenção alguma de dar. Pensei que, dizendo que estava namorando, encerraria um problema, mas a verdade é que dei início a outro. —Me deixe adivinhar, ela espalhou isso para todo mundo? —sugeri. Matheus concordou com a cabeça, logo em seguida. —Sim, disse para todos lá na empresa, chegou nos meus ouvidos— Raíssa confirmou a história para ele— Muito antes de eu ouvir a sua conversa com os meninos, de trás da porta. —Meu deus, Ray! Você não tem jeito mesmo, não é? —Eu só tenho ouvidos muito bons, amiga! —Mas e então, Matheus? —voltei a questioná-lo. —Ninguém acreditou em mim, a verdade é que todos sabem que eu estou fugindo dela, então imaginam que eu inventei essa história. O problema é que fizeram com que ela também desconfiasse do meu “namoro”. Sinto que ela quer me desmascarar e isso seria igualmente problemático e vergonhoso. —Deus, que confusão— minha amiga se pronunciou. —Meus amigos dizem que, se eu encontrar alguém dentro da empresa, para fingir comigo, vai ser mais trabalhoso, porque o fingimento será constante, mas será mais fácil de fazer com que Tuane acredite em mim. —Também vai ser mais fácil fazer ela te desmascarar, com tanta convivência e exposição. É fingimento demais, por muito tempo— Raíssa sugeriu, mas não dei ouvidos. —Me parece justo, se concordar em fazer as viagens de fim de ano com a minha família e eu, em troca, fingir durante o mesmo período. Ou melhor, até janeiro, certo? Que é quando o contrato de estágio dela será encerrado. —Exatamente! —Só tem mais um detalhe— falei. —Qual? —Antes de Natal e Ano Novo, sempre faço uma viagem rápida de fim de semana, um bate e volta, com a minha família. Gostamos de ter esse momento só nosso e acho que, se vou apresentar um namorado para todos no Natal, nada mais justo que o apresente antes para meus pais, irmãos e sobrinhos. Você detestaria essa possibilidade? —Me parece coerente— me respondeu— Até porque pensei em algo que acho que, se nosso acordo der certo a longo prazo, posso precisar de sua ajuda. —O que? — Ray perguntou por mim, batendo palmas animadas. —Quando meus pais voltarem para o Brasil, em janeiro, trarão alguns parentes para passarem férias aqui, ou melhor, lá em BH. Eu vou visitá-los em um fim de semana, mas como disse, meus parentes libaneses são mais rígidos e de uma cultura diferente. Eu passaria uma boa impressão se os apresentasse uma namorada. Se der certo até lá, o que acha de ir comigo? —Me parece justo— repeti a sua frase— Desde que você pague a minha passagem!
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